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LONDRES - Há uma campanha
ambiental na Inglaterra que há mais de 30 anos reúne
dezenas de milhões de dólares mas ainda é pouco conhecida,
embora o promotor seja o príncipe Charles. Para criar
consciência ambiental em seu país e no mundo em desenvolvimento,
o filho da rainha Elizabeth escreveu centenas de artigos,
assistiu a inúmeros eventos e promoveu diversos projetos,
mas pouquíssimos de seus trabalhos foram publicados
na terra onde um dia será rei. Os meios de comunicação
britânicos dedicaram a ele grandes espaços quando
se separou da princesa Diana. No entanto, quando se
trata do trabalho que representa a paixão de sua vida,
o interesse da mídia é quase inexistente.
O príncipe adiantou-se
em várias décadas ao resto da Inglaterra com relação
ao tema do meio ambiente. Suas advertências sobre
o aquecimento da Terra na década de 70 não foram levadas
a sério, até que os sintomas ficaram mais evidentes
no ano passado. Sua oposição à agricultura modificada
geneticamente era considerada uma excentricidade,
mas a demanda por alimentos orgânicos aumenta vertiginosamente
na Grã-Bretanha. Sua iniciativa para defender a medicina
alternativa foi qualificada de curandeirismo, embora
agora seja adotada em seu país. "Seus interesses são
muito amplos, conta com assessores que o mantêm informado
sobre os acontecimentos ambientais em todo o mundo",
disse ao Terramérica o porta-voz do Palácio de Buckingham.
Charles admite que foi
considerado uma espécie de "doido" quando falou sobre
questões ambientais em um de seus primeiros discursos
públicos, em fevereiro de 1970, quando tinha 21 anos.
Nessa oportunidade referiu-se às "horríveis conseqüências
da poluição em todas suas formas cancerosas", aos
problemas causados pelo lixo e à crescente demanda
por água. Na última década, o príncipe não deixou
de discursar, participar de programas de televisão,
seminários e debates e de estabelecer organizações
ambientais.
Em um documentário feito
pela BBC (British Broadcasting Corporation), em 1990,
intitulado "A Terra em Equilíbrio: uma Visão Pessoal
sobre o Meio Ambiente", o príncipe faz algumas observações
proféticas sobre o aquecimento global e a agricultura
sustentável. A menos que se mude a maneira como os
homens tratam a Terra e seus recursos naturais, "creio
que mais cedo ou mais tarde enfrentaremos um ajuste
de contas", alertava. O programa foi considerado aborrecido
e todos os esqueceram rapidamente.
Em janeiro, Charles realizou
um seminário na Universidade de Essex sobre a redução
da pobreza através da agricultura sustentável e proporcionou
fundos e apoio para diversos estudos sobre o assunto.
"A agricultura sustentável proporciona benefícios
ambientais reais no que se refere a água limpa, biodiversidade,
proteção contra inundações e qualidade da paisagem",
afirmou. Além disso, introduziu a agricultura orgânica
em sua própria fazenda em Highgrove, numa tentativa
de praticar o que prega, e assegura que desde que
se desfez dos pesticidas e fertilizantes químicos,
os pardais voltaram.
Ao falar sobre segurança
global, em 1993, disse que "as ameaças da mudança
climática são menos visíveis e provocam menos reações
do que, por exemplo, a invasão do Kuwait por Saddam
Hussein, por isso o esforço que devemos fazer para
reconhecer a tempo estas ameaças é muitíssimo maior.
A afirmação pareceu ridícula para muitos. Para piorar
as coisas, Charles insistiu na necessidade de água
limpa como um assunto de segurança. "Com a história
aprendemos que a ascensão e a queda de civilizações
inteiras podem estar relacionadas com mudanças na
disponibilidade da água", afirmou.
Com freqüência, o príncipe
adotou uma posição contrária ao debate político prevalecente.
Num discurso sobre florestas, disse que "antes de
culpar os países em desenvolvimento pela deterioração
ambiental, devemos nos perguntar em quantos casos
a deterioração começou pelas ações de indivíduos e
companhias das nações industrializadas do mundo".
Charles, inclusive, manifestou-se contra o processo
colonizador. "Desde que os primeiros exploradores
da Espanha e de Portugal colocaram os pés na América
do Sul e os britânicos chegaram ao Caribe, os povos
do chamado "mundo desenvolvido" trataram os indígenas
como selvagens, fosse para escravizá-los, dominá-los,
"civilizá-los" ou convertê-los para sua religião",
afirmou.
O apoio do príncipe à
medicina integrada provocou reações hostis quando
a propôs pela primeira vez, mas também lhe valeu reconhecimento.
As medicinas alternativas agora são utilizadas por
20% da população britânica, e este número aumenta
rapidamente. Charles encabeça várias entidades ambientais,
entre elas Soil Association, The Wildlife Trusts,
Intermediate Technology, Henry Doubleday Research
Association, John Muir Trust e Water Aid. Depois de
graduar-se em Cambridge e servir na Marinha Real,
não tinha muito o que fazer. Isso ele solucionou preocupando-se
com os problemas ambientais, mas parece que os meios
de comunicação ingleses não têm muito o que dizer
a respeito.
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