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Ares perigosos |
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Por Marwaan Macan-Markar
Segundo
a OMS, um bilhão de pessoas estão expostas a algum grau de poluição
em espaços fechados, como residências, locais de trabalho e meios
de transporte.
MÉXICO - Aproximadamente quatro milhões de
pessoas descem a cada dia às entranhas da capital mexicana para
viajar de metrô, uma intrincada rede de trens subterrâneos de mais
de 160 quilômetros de extensão. Para alguns passageiros, como Adriana
Contreras, de 29 anos, a viagem até o escritório e a volta para
casa demora cerca de duas horas e meia todos os dias, já que ela
vive a Oeste desta cidade de 1479 quilômetros quadrados e trabalha
no centro. Que tipo de ar respiram passageiros como Adriana nos
subterrâneos das megalópoles do mundo? Pode o ar dentro do metrô
estar ainda mais poluído do que fora? Estar exposto a esse ar todos
os dias pode causar doenças respiratórias?.
Essas são as perguntas que as autoridades
em diversos países estão se fazendo, ao mesmo tempo em que os organismos
mundiais de saúde manifestam sua crescente preocupação pela grande
poluição nas residências, escritórios e outros ambientes fechados
do mundo, como os sistemas de transporte. Cerca de um bilhão de
pessoas em todo o mundo, em sua maioria mulheres e crianças, estão
expostas com regularidade a um grau de poluição em ambientes fechados
que excede as normas internacionais em mais de cem vezes, segundo
a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os pulmões do ser humano são mil vezes mais
vulneráveis à poluição do ar em ambientes fechados do que ao ar
livre, disse ao Terramérica o diretor de projetos especiais da Divisão
de Saúde e Meio Ambiente da Organização Pan-Americana de Saúde (OPS),
Peter Toft. A exposição a essa poluição pode produzir doenças respiratórias
como asma, obstrução pulmonar crônica, doenças cardiovasculares
e câncer de pulmão. A exposição a partículas de matéria em suspensão
no ar aumenta o risco de infecções respiratórias, segundo o organismo
com sede em Genebra.
Na América Latina, onde aproximadamente 25%
dos lares utilizam combustíveis sólidos como madeira, carvão e resíduos
de colheita para cozinhar, a OMS calcula que 30 mil pessoas morrem
a cada ano vítimas de infecções respiratórias atribuídas à má qualidade
do ar onde vivem. Na Índia, onde mais de 80% das famílias usam combustíveis
sólidos, calcula-se que meio milhão de crianças morrem anualmente
devido à poluição do ar nos ambientes fechados. Na África subsaariana,
essa poluição foi vinculada a entre 300 mil e 500 mil mortes por
ano.
As casas e os escritórios modernos não são
imunes a este problema. A poluição dos ambientes fechados também
afeta países industrializados como Canadá e Estados Unidos, segundo
Toft. Estudo feito pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) nas
escolas norte-americanas descobriu que esta poluição causa enfermidades
nas crianças, diminuindo seu rendimento nos estudos. A má qualidade
do ar pode reduzir a capacidade de concentração, memorização ou
de realizar cálculos, segundo o estudo da EPA.
A OMS atribui o problema à arquitetura dos
edifícios modernos. Com o objetivo de conservar a energia, os arquitetos
projetam estruturas mais herméticas com menos ventilação. No Norte
industrializado, algumas fontes importantes de poluição química
nos ambientes fechados são derivadas do corpo humano e das atividades
humanas, dos móveis e eletrodomésticos. O estudo da OMS também destaca
que os sistemas de calefação e ar condicionado sem manutenção correta
são fontes de poluição dos ambientes fechados. A falta de manutenção
dos filtros pode levar à remissão de partículas poluentes. A poluição
biológica pode proliferar nos componentes úmidos do sistema e espalhar-se
pelo edifício.
Essa situação agrava-se se o ambiente estiver
viciado com fumaça de cigarro, já que esta é uma mistura complexa
de inúmeros componentes químicos, inclusive alguns cancerígenos
conhecidos, como nitrosaminas e benzeno, segundo a OSM. No México,
uma pesquisa do governo feita através do Centro Nacional para a
Investigação e Capacitação Ambiental (Cenica), realizada no ano
passado, sobre a qualidade do ar nas casas, escolas e escritórios
da capital mexicana revelou que a fumaça do cigarro contribuiu para
o aumento da poluição interna, sobretudo nos edifícios com má ventilação,
informa Salvador Blanco, coordenador da Pesquisa de Qualidade do
Ar do Cenica.
Em dezembro, o Cenica começará um estudo de
quatro meses sobre a qualidade do ar no sistema de transporte da
cidade, inclusive no metrô. Trata-se do primeiro estudo completo
para calcular os níveis de poluição por monóxido de carbono, partículas
de matéria e chumbo no ar do sistema de transporte. A passageira
do metrô mexicano, Adriana Contreras, apóia o estudo do Cenica para
determinar a qualidade do ar no sistema de transporte da capital.
"Pode-se supor que o ar está limpo no metrô, mas talvez não seja
assim, e é bom saber em que grau", afirmou. Entretanto, a iniciativa
mexicana é exceção à regra. "A maioria dos países do Sul em desenvolvimento
ainda não reconhece o perigo da poluição dos ambientes fechados",
garante Toft.
* O autor é correspondente da IPS.
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