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Em busca de um novo ideal ético |
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Por Ignacio Ávalos Gutiérrez
Os
avanços na genética nos pegam desprevenidos, com um "déficit normativo",
afirma neste artigo o ex-ministro da Ciência e Tecnologia da Venezuela.
CARACAS - Em seu afã de dominar a natureza,
ultrapassar seus limites e acoplá-la às suas pretensões, desejo
que manifestou desde que ficou sobre suas duas pernas e olhou além
de seu nariz, o homem chegou aos territórios mais sagrados da vida,
os de sua intimidade genética. Assim, terminado o Projeto Genoma
Humano já sabemos o que somos, 30 mil genes, pouco mais, pouco menos.
E, de passagem, sabemos que alguns insetos têm 30% de seus genes
iguais aos nossos, que contamos apenas com 300 genes a mais do que
os ratos e que tudo faz suspeitar que temos quase a mesma quantidade
que os macacos. Um golpe - segundo poderia pensar um leigo nestes
assuntos - em nossa anunciada superioridade no reino dos seres vivos,
ainda que os que sabem afirmem que o assunto apóia-se não tanto
no número de genes mas na maneira como estes estão relacionados
entre si.
O aparecimento da ovelha Dolly, há quatro anos,
representa um marco significativo na história da ciência e do homo
sapiens. Tudo indica que dentro de poucos anos a clonagem humana
será uma opção real e os britânicos já deram um primeiro passo,
ao permitir o emprego de embriões humanos para obter células-mãe,
capazes de gerar qualquer tecido humano. Assim, temos nas mãos um
tema crucial que se tornou espinhoso, já que nos faltam muitas respostas
e, inclusive, algumas perguntas bem formuladas. Parece que estamos
presos igualmente entre temores e esperanças. Temores provocados
por uma certa idéia da natureza e do natural que não permite manipulação
alguma do ambiente. E esperanças alimentadas pela idéia de que a
biotecnologia é a nova panacéia e que não deve haver sentido de
limite na utilização de seu potencial de transformação.
Esses avanços nos pegam quase de calças curtas,
com muito pouca plataforma política, institucional e moral para
podermos lidar com eles. Entretanto, o mercado não vacila, vai direto
ao ponto. Sua influência é cada vez mais ostensiva na direção do
desenvolvimento da pesquisa genética e suas aplicações. Estão sendo
criadas normas que promovem a apropriação privada de conhecimentos
e tecnologias, e tudo parece indicar que a questão da clonagem humana
será, em boa medida, esclarecida de acordo com pareceres da lei
da oferta e da procura. Os progressos e as aplicações da biologia
nos trazem novos dilemas éticos. O patamar de nossas referências
mais básicas foi ultrapassado e temos um "déficit normativo" que
será preciso atender urgentemente.
Necessitamos contar com um ideal ético capaz
de orientar a conduta humana. Uma "ética da responsabilidade", segundo
apontam vários filósofos, baseada em êxitos morais acumulados ao
longo da história, contemporizados em função das complexidades do
presente, mas capazes de guiar-nos em situações inéditas e de harmonizar
nossa convivência segundo os valores da liberdade, igualdade e solidariedade.
Existem forças que defendem uma relação distinta entre ciência,
tecnologia e sociedade, isto é, um novo "contrato social", pelo
qual o mercado não seja quase todo orientado pela ciência e suas
aplicações e que a pesquisa se guie por agendas de trabalho vinculadas
a interesses mais amplos da sociedade. Que não se pratique a partir
de disciplinas isoladas, mas sobre a base de enfoques inter e transdisciplinares,
como única maneira de compreender e transformar a realidade de maneira
harmônica.
Trata-se de conciliar a liberdade de pesquisa
com a responsabilidade pública, o acesso aos resultados e benefícios
produzidos pela ciência com os resultados particulares legítimos
dos que a promovem, a difusão com a propriedade, o crescimento econômico
com o equilíbrio ambiental, o mercado com as chamadas "demandas
não-solventes", o longo prazo com o curto prazo, o interesse coletivo
com o privado. Na essência, devemos assumir que é imprescindível
a existência de mecanismos adequados para que os cidadãos estejam
bem informados e capacitados para entender a orientação e as aplicações
do desenvolvimento científico e tecnológico. Pela maneira como sopram
os ventos da época, se não for assim, não se pode falar de democracia.
* O autor é ex-ministro de Ciência e Tecnologia
da Venezuela.
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