8 de abril del 2001
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Integração, meio ambiente e pragmatismo

Por Marcela Valente*

Os quatro países do Mercosul encerraram um longo debate com um acordo sobre a questão ambiental inspirado pelo realismo político e econômico.

Buenos Aires - Depois de quase uma década de debates nos quais participaram governos e organizações não-governamentais (ONGs), o realismo político impôs-se sobre ideais ambientalistas e, desde março, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai contam com um Acordo Marco sobre Meio Ambiente do Mercosul. O acordo substituiu um controvertido projeto de protocolo que era discutido há anos dentro do mecanismo de integração. Porém, as reações ao documento finalmente aprovado têm sido díspares: alguns apóiam o pragmatismo, outros o consideram um retrocesso.

“É um documento menor, mais prático e menos ambicioso (do que o protocolo original), mas, para nós é um passo adiante”, afirmou Miguel Reynal, presidente da ONG Fundação Ecos, do Uruguai, que trabalha para divulgar o desenvolvimento sustentável no Mercosul. “Em nossos países sobra legislação com postulados grandiloqüentes e falta aplicação, porque, por ser tão ambiciosa nos princípios, termina sendo ignorada, na realidade”, disse Reynal ao Terramérica. A Fundação Ecos lançou em 1998 um programa de Comércio e Meio Ambiente, junto com outras 15 ONGs do Mercosul, para intensificar o diálogo com os governos e conseguir um instrumento jurídico que servisse de marco regulamentar ambiental para a sub-região.

Entretanto, dentro dessa rede de ONGs há diferenças. O Fundo Mundial para a Vida Silvestre do Brasil considera um retrocesso o Acordo Marco, alcançado em meados de março, na cidade de Florianópolis, pelo grupo de trabalho número seis do Mercosul. No caminho dessa síntese orientada pelo pragmatismo que predomina o Acordo perdeu-se direitos ambientais que não deveriam ter sido deixados de lado, argumentou a ONG brasileira. O novo acordo destaca a necessidade de os sócios cooperarem para proteger o meio ambiente e utilizar os recursos naturais de maneira sustentável, mas somente quando a defesa da natureza não seja um obstáculo ao desenvolvimento econômico, especialmente na conjuntura atual de dificuldades para o bloco de integração.

O acordo prevê que “as políticas comerciais e ambientais devem ser complementares” e destaca que a proteção do meio ambiente deve guiar-se pelos princípios de “gradualidade, flexibilidade e equilíbrio”. Para os signatários, “a promoção do desenvolvimento sustentável deve ser alcançada através do apoio recíproco entre os setores ambiental e econômico, evitando a adoção de medidas que restrinjam ou distorçam de maneira arbitrária e injustificada a livre circulação de bens e serviços dentro do Mercosul”. O objetivo do acordo é “a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, por meio da articulação das dimensões econômicas, sociais e ambientais”.

A nova norma adota compromissos da Declaração do Rio, de 1992, assinada pelos participantes dessa primeira Cúpula da Terra, e se compromete a atuar em concordância com esses postulados no contexto do Mercosul. Além disso, propõe a adoção de políticas comuns para a proteção do meio ambiente, conservação dos recursos naturais e a promoção do desenvolvimento sustentável, bem como o intercâmbio de informação tanto sobre instrumentos para alcançar os objetivos em cada país como sobre as posições nacionais em foros ambientais internacionais que abordarem assuntos de interesse global. Por fim, os países concordaram em harmonizar suas legislações ambientais, procurar que as demais instâncias do Mercosul considerem “adequada e oportunamente” os aspectos ambientais de suas políticas e fornecer, também de forma oportuna, informação sobre desastres e emergências naturais que afetem os membros desse mercado comum.

Quanto às controvérsias que poderiam surgir em matéria estritamente ambiental, como a que se refere a restrições não-alfandegárias ao comércio, o acordo prevê que sejam resolvidas por meio do sistema de solução de disputas vigentes no Mercosul, e não através de “negociações diplomáticas diretas”, como pretendia o descartado projeto de protocolo. O diretor de Assuntos Ambientais da chancelaria argentina, Raúl Estrada Oyuela, disse que o rascunho do protocolo continha falhas conceituais, porque reelaborava princípios e políticas já adotados pelos países em acordos multilaterais de caráter vinculante, como, por exemplo, definições contidas na própria Declaração do Rio. Além disso, incluía dois temas controvertidos que ficaram de lado no acordo final.

Um deles se referia aos produtos transgênicos. A Argentina tinha muito que perder se num acordo do Mercosul se rechaçasse esse tipo de produtos, já que a maior parte de suas exportações de soja são de uma variedade modificada. O outro assunto descartado foi o princípio cautelar, que, segundo alguns analistas, poderia converter o descartado protocolo num obstáculo nem sempre justificado ao comércio. A esse respeito, Reynal disse que quando se discute muito podem surgir normas extremas prejudiciais para o comércio. Seria o caso da suspensão de uma exportação apenas pela suspeita de contaminação ou de depredação ambiental, embora o fato não esteja comprovado ou seja falso.

* O autor é correspondente da IPS




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Crédito: Mauricio Gómez Morín
 
Crédito: Mauricio Gómez Morín

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