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O valor dos locais sagrados |
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Por Rigoberta Menchú*
Cidade do México - A mãe-terra é para nós, os povos indígenas, sinônimo de fonte de riqueza e economia e meio de subsistência que nos dá o milho, elemento essencial de nossas vidas. Mas não é só isso: a mãe-terra também nos permite conceber o mundo a partir de uma perspectiva integral. Desde nossa origem e sob qualquer latitude, os povos indígenas consideram a terra como algo sagrado. Ela nos dá a vida e é parte fundamental de nossa cosmovisão, por isso a respeitamos e veneramos. Herdamos de nossos avós uma convivência harmoniosa com a natureza, longe de pretender submetê-la como se fôssemos seus donos.
A terra é raiz e fonte de nossa cultura, à qual temos que acudir diariamente para nos regenerar. Ela contém nossa memória, acolhe nossos antepassados e requer, portanto, que a honremos e devolvamos com ternura e respeito os bens que nos dá. É preciso cuidar e guardar a mãe-terra para que nossos filhos e netos continuem recebendo seus benefícios. Se o mundo não aprender agora a respeitar a natureza, que futuro terão as novas gerações? Ao longo dos últimos anos, nossa mãe-natureza sofreu uma deterioração, em inúmeros casos, irreversível.
A destruição de florestas, a poluição de rios, lagos e mares, o aquecimento global, converteram-se, neste nascente Século XXI, num tema de caráter prioritário se não quisermos nos transformar em testemunhas da lenta agonia da Humanidade. Entretanto, apesar dessa marcha acelerada da toda-poderosa modernidade faminta de espaços e pulmões sempre menos virgens, diversas iniciativas levadas adiante por pessoas, instituições e movimentos interessados na conservação da vida conseguiram, em muitos casos, criar as chamadas áreas protegidas e deter a depredação que parecia encaminhada para um trágico destino. Esta comunidade “conservacionista” agiu de maneira paralela à experiência desenvolvida por nossos povos.
Desde sempre, os povos originários preservaram entre seus valores a importância de manter uma convivência harmoniosa, equilibrada, de respeito espiritual com a natureza. Por isso que muitos dos lugares que cercam as comunidades, a terra onde se semeia, as florestas, campos, rios, lagos e outros, têm uma dimensão espiritual maior que os converte em locais sagrados. Esta prática ancestral foi sistematicamente esquecida pelos governos e outros setores das grandes cidades. Entretanto, durante os últimos anos existe um crescente reconhecimento da importância histórica dos sítios sagrados e das práticas tradicionais de proteção das zonas naturais cultivadas pelos povos indígenas.
Não é casualidade o fato de muitas das áreas protegidas pelos ambientalistas serem zonas povoadas, trabalhadas e conservadas por povos indígenas, que, por meio de sua tradição, cultura e seus contextos ambientais, souberam transmitir por gerações o respeito à mãe-terra. Muitas das iniciativas dos governos ou de instituições nacionais e internacionais para conservar a natureza chocam-se com os povos indígenas, já que se desconhece o valor de seus lugares sagrados e suas práticas tradicionais. Por isso, é necessário levar adiante novos processos de intercâmbio de experiências e posteriores alianças entre a comunidade interessada em preservar a natureza e os indígenas.
Com melhor comunicação, disposição para ouvir, entender e assimilar as práticas ancestrais dos povos indígenas, os organismos nacionais e internacionais genuinamente preocupados com nossa fauna e flora, enriqueceriam suas estratégias para estabelecer iniciativas viáveis e duráveis, e reverter a terrível deterioração ambiental. Isso permitiria, também, conseguir a sobrevivência e o manejo efetivo dos sítios sagrados e tradicionais de nossos povos. Com iniciativas desse tipo poderemos reverter, não só a deterioração ambiental como outros aspectos discriminatórios do conhecimento indígena.
* Prêmio Nobel da Paz e embaixadora da Boa Vontade da Unesco
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