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Educar para o século XXI (parte 1)

Por Carlos Fuentes*

O acervo cultural latino-americano não tem correspondentes na ordem econômica e política, alerta o conhecido escritor mexicano. Por acaso, a educação pode servir de ponte?

O drama da América Latina, ao iniciar-se o novo século e o novo milênio, pode resumir-se em um fato: a continuidade cultural ainda não encontrou continuidade política e econômica comparável. Uma cultura feita há cinco séculos, pelo menos, por descendentes de europeus, aborígenes e africanos, ainda carece de correspondências e eqüivalências profundas na ordem econômica e política. Entretanto, a riqueza de nosso acervo cultural não data apenas de 1492. Prolonga-se das civilizações indígenas do hemisfério, projeta-se das civilizações africanas transportadas em navios negreiros para a América, e inclui, em seu componente europeu, não só a cultura ibérica, como também, através dela, o legado grego e romano, judeu e árabe, do mundo mediterrâneo.

Estamos falando de uma civilização imensamente rica, plural, “cósmica”, como diria José Vasconcelos. As provas de nossa cultura estão em todas as partes e sem fissura alguma. Das construções solares de Machu Pichu e Teotihuacán à arquitetura moderna de um Luis Barragán, no México, ou Lúcio Costa, no Brasil. Das pinturas murais de Bonampak aos muralistas modernos do México, Rivera, Orozco e Siqueiros. Das celebrações poéticas da aurora dos tempos do Popol Vuh maia ao Canto Geral de Pablo Neruda. Da música de origem de Los Pasos Perdidos de Alejo Carpentier às composições modernas de Carlos Chávez, Alberto Guinesterra e Heitor Villa-Lobos. A continuidade é assombrosa, a origem enriquece o presente, o presente alimenta o futuro e cada uma de nossas raízes antigas tem suas manifestações modernas. Somente na novela, o mundo indígena revive em Asturias e Arguedas, o mundo africano em Carpentier e Jorge Amado e o mundo mediterrâneo em Borges, receptor em contos de um Ocidente tingido de Corão e marcado pelo Talmud.

Cada etapa de nossa história continua e enriquece o passado, fazendo-se presente. A cultura colonial não é, por essa razão, desprezível. Como poderia ser, se constitui-se na ponte barroca entre nossos antepassados indígenas, europeus e africanos e a nossa modernidade? Esse núcleo de identidade criado pela poetisa Juana Inés de la Cruz, no México, o inca Gracilzazo de la Vega e o arquiteto Kondori, no Peru, o escultor e arquiteto Aleijadinho, no Brasil, nos permite entender a conexão entre a pirâmide maia e o conjunto urbano moderno.

Por que, sendo tão visível e aproveitável esta continuidade, nossas ideologias políticas insistem em separá-las negativamente em blocos antagônicos, o que Hernando Gómez Buendía chama de os quatro momentos da América Latina: o momento colonial, o momento republicano, o momento providência e o momento neoliberal? Generosa e racionalmente, o escritor colombiano insiste em relacionar estes “momentos” entre si, não desprezar nenhum, aproveitar as lições da cada um.

De fato, fraturamos nossa experiência, dando lugar a uma sucessão de ideologias que somente amam a si mesmas quando plantam o pé sobre o cadáver da ideologia precedente. Uma nação - nos recorda Isaiah Berlin - se constitui a si mesma a partir das feridas que sofreu. Ferida por si mesma e pelo mundo - conquista, colônia, independência, revoluções, imperialismos - a América Latina criou nações que, no essencial, continuam refletindo as fronteiras da época independentista e, ainda, da administração colonial: não somos os Bálcãs. O que conseguimos é isso que Ernest Gellner considera essencial para a fortaleza de uma nação: a identificação de nação e cultura. A cultura pré-existe à nação. A nação é forte se encarna sua cultura. É fraca se apenas encarna uma ideologia. A escolástica, a ilustração, São Tomás, Rousseau, Comte, Marx, Keynes, os meninos de Chicago. Damos preferência à ideologia, celebramos a cultura em seus aniversários e em praça pública, não permitimos sua entrada em nossas salas.

Este divórcio reflete-se em cifras abundantes sobre as divisões sociais do continente, o abismo entre pobres e ricos, as injustiças prevalentes e os baixíssimos índices de renda, saúde, escolaridade, emprego, apesar da passagem do tempo e dos êxitos inquestionáveis. Algo está podre nos reinos latinos da América quando a metade da população - 200 milhões de habitantes - sobrevive com renda de apenas US$ 90, ou menos, por mês. Em meu país, o México, 24 famílias têm renda maior do que 24 milhões de cidadãos. Dez por cento da população recebe 60% da renda nacional do Brasil.

Nossa pergunta é: a educação pode ser a ponte entre a abundância cultural e a limitação política e econômica da América Latina? Não se trata de dar à educação o caráter de salvadora da pátria, como demos à religião na época da Colônia (resignai), às constituições na Independência (legislai), aos Estados na primeira metade do século XX (nacionalizai), ou à empresa em sua segunda metade (privatizai).

Trata-se mais de dar-lhe posição e funções precisas tanto no setor público quanto no privado, sem satanizar um ou outro, mas sujeitando ambos às necessidades sociais manifestadas e organizadas pelo terceiro setor, a sociedade civil. Respeitemos e aproveitemos as lições dos “momentos” anteriores, mas aceitemos que a continuidade e a força de nossa cultura jamais se submeteram a um padrão abstrato e único, senão que prosperaram dentro de alternativas que fazem da heterogeneidade uma virtude.

* O autor é escritor mexicano, membro do Conselho Editorial do Terramérica. Este texto é a primeira parte do prólogo escrito por Fuentes para o livro “Educação, a Agenda do Século XXI”, (Pnud/TM editores).




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Crédito: Fabricio Vanden Broeck
 
Crédito: Fabricio Vanden Broeck