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América Central
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400 mil pessoas vivem o inferno da fome |
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Por Néfer Muñoz*
A crise alimentar pode adquirir maiores proporções em 2002, em razão do fenômeno El Niño. A situação é resultado de uma combinação explosiva entre seca e má situação econômica.
SAN JOSÉ.- Aproximadamente 400 mil pessoas necessitam de assistência alimentar na América Central, devido à crise causada pela seca e às más condições econômicas, adverte o Programa Mundial de alimentos (PMA). Se somar-se a essa quantidade os agricultores que perderam, em maior ou menor grau, suas colheitas, os afetados pela crise chegam a 1,5 milhão, disse ao Terramérica o PMA, uma agência do sistema da Organização das Nações Unidas.
Os países mais atingidos são Guatemala, Honduras e Nicarágua, onde são distribuídas rações de alimentos em troca de trabalho comunitário e atende-se crianças com necessidades urgentes. “O país que mais nos preocupa é a Guatemala”, explicou ao Terramérica o peruano Francisco Roque, diretor do PMA para a América Central e Caribe, “embora também haja problemas no sul de Honduras e no ocidente da Nicarágua”. Roque informou que a desnutrição, seja severa ou moderada, alcança, em algumas comunidades rurais guatemaltecas, 27% das meninas e meninos com menos de cinco anos de idade.
A fome na Guatemala, levada a público pelos meios de comunicação em agosto, afetou com maior intensidade o departamento de Chiquimula e especialmente Camotán, Jocotán e Olopa, três municípios desse distrito ocidental. O jornal La Prensa, desse país, informa a morte, até o momento, de 123 pessoas, 94 em Olopa e 29 em Jocotán. “Os guatemaltecos que mais estão sofrendo com a fome são os indígenas da etnia maya chortí”, afirmou Roque.
O PMA conseguiu arrecadar entre a comunidade internacional entre US$ 5 milhões e US$ 6 milhões para a compra de alimentos e para atender as emergências, mas são necessários de US$ 10 milhões. A crise de alimentos na América Central se deve em boa parte à seca de maio, junho e julho, meses em que deveria haver a primeira colheita do ano. Milhares de camponeses pobres perderam seus cultivos, parcial ou totalmente, e não puderam estocar provisões nem obter sementes para o segundo plantio do ano.
As chuvas das últimas semanas no istmo são uma esperança para a segunda colheita, no final do ano. “Isto contribuirá para que a situação se normalize um pouco em Honduras e na Nicarágua”, disse Roque. Ele acrescentou que o problema é mais difícil no caso da Guatemala, pois lá existem os efeitos da generalizada pobreza.
Segundo o Informe de Desenvolvimento Humano Guatemala 2000, cerca de 57% dos 12 milhões de habitantes do país vivem na pobreza. Grupos da sociedade civil afirmam que a proporção, na realidade, é superior a 80%. “A crise alimentar é recorrente na América Central”, afirmou Roque, que exortou os governantes da região a atacarem os problemas básicos que geram a pobreza. Falta maior investimento no meio rural e um crescente apoio ao produtor de alimentos básicos, que está à mercê das vicissitudes do clima, advertiu o especialista.
“Nosso sonho não é ter grandes luxos, mas que nossas famílias vivam em condições mais dignas e cômodas”, disse à IPS Miguel Angel Figueroa, um líder camponês guatemalteco. Morador no departamento de Huehuetenango, um dos mais pobres da América Central, Figueroa disse que durante muitos anos os dirigentes políticos tentaram esconder a pobreza dos camponeses, “mas, agora, nos demos conta de que temos fome como na África”, acrescentou o dirigente comunitário, que organizou seus vizinhos para enviar ajuda às áreas afetadas.
O clima e a natureza desnudaram a vulnerabilidade do istmo. Na América Central há duas estações anuais: a seca, de dezembro a abril, e a chuvosa, de maio a novembro. As chuvas se normalizaram a partir de agosto, mas o Comitê Regional de Recursos Hídricos, instituição do Sistema de Integração Centro-Americana, afirma que a seca pode reaparecer com mais intensidade em 2002. “Para o próximo ano espera-se uma arremetida do fenômeno El Niño”, e essa eventualidade, somada aos efeitos já acumulados, pode resultar “numa seca ainda mais grave”, explicou o meteorologista Alvaro Brenes. A fome poderá alcançar proporções maiores do que a deste ano se os governos não tomarem providências, acrescentou.
* O autor é correspondente da IPS.
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