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As ONGs entram para as grandes ligas |
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Por Mark Sommer*
“As ONGs estão ganhando porque jogam o tempo todo no ataque, levam sua mensagem ao consumidor, são engenhosas para criar coalizões e movem-se à velocidade da Internet”, afirma uma das empresas de relações públicas mais importantes do mundo.
BERKELEY.- Na luta transcendental pela obtenção de influência política, os grupos de defesa dos direitos dos cidadãos habitualmente sentem-se desesperançados e acreditam ser superados taticamente tanto pelas corporações quanto pelos governos. Reconhecem que em algumas ocasiões obtiveram vitórias, como quando, por ocasião da chamada “Batalha de Seattle”, fizeram com que a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), de dezembro de 1999, tivesse seus trabalhos suspensos por um dia.
A maioria das organizações não-governamentais (ONG) comprometidas com uma luta a longo prazo em favor da mudança social, no entanto, pensa que a sua é uma causa nobre, embora destinada a ser derrotada, e na qual vitórias como a de Seattle logo são eclipsadas pelas correntes mais amplas que fluem na direção contrária. Apesar de as corporações nunca terem obtido um domínio semelhante ao atual, tanto sobre as políticas públicas como sobre nossas vidas pessoais, os dirigentes empresariais aparentemente não acreditam ser tão poderosos como imaginamos que sejam. De fato, muitos sentem-se ameaçados por um crescente e efetivo grupo de pressão anticorporações que, segundo seus pontos de vista, consegue o apoio da opinião pública mundial, a qual modelam segundo sua própria agenda.
Em um relatório especial, de março de 2001, dirigido aos seus clientes empresariais, a Edelman PR Worldwide, uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, fez uma pesquisa com 2500 “formadores de opinião” nos Estados Unidos, Europa e Austrália, para medir o crescente impacto das ONGs na política e na economia mundiais. A pesquisa revelou que as ONGs gozam de uma vantagem de dois para um, tanto sobre as corporações quanto sobre os governos, ao mesmo tempo em que são consideradas como a fonte mais fidedigna e crível no que se refere a questões fundamentais em matéria de meio ambiente, saúde e direitos humanos. “As ONGs converteram-se em supermarcas”, diz a Edelman em seu relatório. “Elas estão ganhando porque jogam no ataque o tempo todo, levam sua mensagem ao consumidor, são engenhosas para criar coalizões, sempre têm uma agenda clara, movem-se à velocidade da Internet e falam com o tom dos meios de comunicação”, acrescenta.
Ao mesmo tempo, as ONGs gozam substancialmente de uma imagem muito mais favorável entre os europeus e australianos do que entre os norte-americanos. Enquanto três quartas partes dos europeus confiam em que a Anistia Internacional “faz o que é justo”, apenas 36% dos norte-americanos pensam assim. E, apesar de suas práticas monopolistas, a Microsoft tem um índice de aprovação de 66% entre os norte-americanos, contra apenas um terço dos australianos e 44% dos europeus. Entretanto, a Edelman não sente muito alívio, digamos, diante do olhar ainda otimista que a maioria dos norte-americanos dirige para o mundo dos negócios. “A situação pode mudar rapidamente”, alerta o relatório.
Com uma ameaçadora recessão e um governo de George W. Bush inconsciente de sua imagem pública - a de alguém que leva água ao moinho dos ricos - muitos norte-americanos podem desencantar-se com uma economia em queda e que deixou muitos esgotados e profundamente endividados. Para evitar um desastre em matéria de imagem, segundo o conselho da Edelman, as empresas devem adotar “uma agenda mais complexa, que inclua uma linha básica tríplice: benefícios, gente e planeta”. Por outro lado, diz o relatório, as corporações inteligentes se “associarão” com as principais ONGs para moderar seu comportamento, para ganhar o “efeito auréola” de virtude moral e para marginalizar as ONGs intransigentes.
Assim é que a gigante do ramo de material de construção Home Depot concorda em aceitar apenas madeira com certificado da organização ambientalista Forest Stewardship Council, enquanto a também verde Rainforest Alliance associa-se à empresa bananeira Chiquita para restringir o uso de pesticidas e melhorar o nível de segurança dos trabalhadores. Por sua vez, algumas agências de relações públicas seduzem os principais ativistas do movimento ambientalista e os incorporam às suas firmas com altos salários e a promessa de que poderão exercer maior influência estando dentro (mas sem poder real para a tomada de decisões).
“Ser visto”, dizem os críticos das empresas de relações públicas, é bastante diferente de “ser” efetivamente. Segundo essa opinião, a Edelman e seus homólogos têm a esperança de abrandar o público com simples mudanças de maquiagem na atividade empresarial. Do mesmo modo que os governos, que simultaneamente dedicam-se à diplomacia pública e a ações encobertas enquanto negam que exista algum vínculo entre ambas, corporações astutas parecem ceder diante das demandas mais importantes do movimento, ao mesmo tempo em que, silenciosamente, incentivam a espionagem e as campanhas caluniosas feitas por pouco conhecidos “cães de ataque” da indústria das relações públicas.
Onde está a linha demarcatória entre cooperar e cooptar? As ONGs enfrentam tentações gêmeas: serem seduzidas por colaborações com características de maquiagem, que conferem credibilidade a um ainda irresponsável comportamento empresarial, ou (precisamente por medo dessa manipulação) resistirem a toda cooperação e, com isso, perderem importantes oportunidades. “Confiem, mas verifiquem”, costumava dizer Ronald Reagan. Frase à qual poderia acrescentar-se: “Mantenham sua independência. Entrem com os olhos bem abertos”. (IPS)
* O autor é ensaísta e colunista, e dirige o Mainstream Media Project, uma organização com sede nos Estados Unidos que leva novas vozes aos meios de comunicação.
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