 |
|
|
Vinho, café e cacau orgânicos buscam nichos de mercado |
|
Por Andrés Cañizález*
Embora
os volumes de produção ainda sejam baixos e os custos
altos, diversos cultivos no Chile, México e Venezuela aos
poucos vão conquistando consumidores.
CARACAS.- Em vários países latino-americanos
desenvolvem-se culturas orgânicas, com métodos tradicionais
e naturais, sem agroquímicos. O volume obtido ainda é
pequeno, mas o objetivo são mercados na Europa ocidental
e nos Estados Unidos dispostos a pagar o custo destes produtos.
Vinho chileno, café mexicano e cacau venezuelano são
algumas das iniciativas em diferentes fases de desenvolvimento.
A intenção é obter uma produção
em harmonia com o meio ambiente e utilizar apenas fertilizantes
e produtos de combate às pragas de origem orgânica,
sem componentes químicos.
No Chile, a Viña Undurraga, uma das
mais conhecidas, está no processo de transição
para iniciar a produção de vinhos orgânicos
depois da safra de 2003. A Undurraga iniciou o projeto em 1999 e
calcula que em três anos conseguirá o certificado internacional
de qualidade orgânica, que, no seu caso, se aplicará
à uva. "Nas vinhas orgânicas não se deve
aplicar nenhum pesticida. Seu manejo se baseia em produtos naturais
e em equilíbrios biológicos, para impedir o surgimento
de fungos e outras enfermidades", disse ao Terramérica
Francisco Valdivieso, gerente agrícola da empresa.
A área destinada ao projeto, de 12 hectares,
ainda é reduzida em relação à área
ocupada pelos vinhedos da Undurraga. Além disso, a produção
de vinho orgânico por hectare plantado é bem menor
do que o rendimento das variedades convencionais, que chega a dez
mil litros, acrescentou Valdivieso. Esse fator determina um custo
maior destes produtos. "Para nós, o vinho orgânico
é um tema de marketing. A possibilidade de colocar outro
vinho 'top' em nosso catálogo e ganhar mercados. Vemos boas
possibilidades na Europa, onde os produtos naturais são mais
procurados", afirmou.
Se esta experiência no Chile se deve
a uma decisão empresarial, na Venezuela um projeto de cacau
orgânico surgiu de uma organização ambientalista,
a Terra Viva, que viu a necessidade de resgatar um cultivo tradicional,
com métodos naturais, e, assim, preservar um parque nacional
no centro-norte do país. A Venezuela foi líder na
exportação de cacau até meados do século
XIX. Nas proximidades do que hoje se conhece como Parque Henri Pittier
surgiu um dos mais famosos grãos, o Chuao. A plantação
de café e a produção petroleira iniciadas no
século XX relegaram a segundo plano a matéria-prima
do chocolate.
A Fundação Terra Viva lançou,
em 1999, o "Projeto Pittier: parque, homem e cacau", para
admitir de uma maneira sustentável a presença de pequenos
agricultores tradicionais em um parque nacional. "Considera-se
o cacau como um cultivo de baixo impacto ambiental, já que
requer a sombra proporcionada por grandes árvores, o que
evita o desmatamento", disse ao Terramérica Alejandro
Luy, gerente-geral da Terra Viva. "Sua limpeza e manutenção
são seletivos e a coleta é feita manualmente. Se acrescentarmos
a utilização de adubo orgânico, o controle das
pragas através de sistemas biológicos e um adequado
controle de qualidade, teremos um sistema agrícola compatível
com os princípios de conservação e rentável
para os produtores locais", afirmou Luy.
O projeto reúne uma dúzia de
produtores e é executado em pequenas plantações,
que somam cerca de 60 hectares. No ano passado, foram colhidos cerca
de 150 quilos de cacau por hectare, um volume muito baixo, mesmo
para a média nacional, que é de 248 quilos, também
considerada baixa. A meta é quadruplicar a produção
em dois anos. Então, será o momento de iniciar o trâmite
de um certificado orgânico da Europa ocidental.
No México, por outro lado, esse caminho
já tem longa data. Os certificados orgânicos começaram
com o café mexicano em 1962, com a alemã Demeter,
e, depois, com o passar dos anos, incorporaram-se IMO-Control, da
Suíça, Naturland, da Alemanha, e OCIA (Organic Crop
Improvement Association) e QAI (Quality Assurance International),
dos Estados Unidos.
O café orgânico mexicano atualmente
é consumido nos Estados Unidos, Alemanha, Suíça,
Japão, Itália, Dinamarca, Espanha, França e
Inglaterra. Os consumidores pagam, em média, entre 15% e
20% mais caro por este café em relação ao preço
do produto convencional. Com 86.250 sacas de 60 quilos para um período
de dois anos, o México é o principal produtor de café
orgânico, numa lista em que se seguem Guatemala, Peru, Quênia,
Nicarágua, Tanzânia, Brasil, Etiópia, Índia
e Madagáscar. Segundo o Conselho Mexicano do Café,
os produtores de café orgânico são principalmente
camponeses indígenas dos estados de Chiapas, Oaxaca, Veracruz
e Guerrero.
Embora o comércio de café orgânico
represente apenas 1% das vendas mundiais do grão, para os
produtores mexicanos significa renda importante: são beneficiados
cerca de 20 mil pequenos cafeicultores.
Os cultivos orgânicos ganham força
lentamente na América Latina, sobretudo animados pelos consumidores
do Norte industrial dispostos a pagar mais por produtos com selo
de qualidade orgânica. O paradoxo é que estes produtos,
mais sãos e naturais, não estão, no momento,
destinados aos consumidores dos países onde são produzidos.
* O autor é correspondente da IPS. Colaboraram com este artigo Diego Cevallos/México e Gustavo Conzález/Chile.
|