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Declarada guerra contra a dengue |
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Por Patricia Grogg*
A enfermidade tropical, para a qual ainda não existe vacina, ressurge na América Latina em 2002. Especialistas a associam à alteração do clima. Em Havana, um exército de dez mil pessoas combate o mosquito culpado por sua transmissão.
HAVANA.- Cuba declarou uma guerra sem quartel contra o Aedes Aegypti, o mosquito transmissor da dengue, diante do ressurgimento dessa epidemia, que em sua variante hemorrágica resulta mortal e que neste ano afeta especialmente o Brasil, a Venezuela e várias nações da América Central e do Caribe. A campanha contra a proliferação do vetor intensificou-se em meados de janeiro, fundamentalmente em Havana, cidade de 2,2 milhões de habitantes e uma das mais ameaçadas pela doença, que começa com febre repentina e dores de cabeça.
Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPS), a dengue era considerada um problema de saúde pública da Ásia, mas não da América Latina, até que, em 1981, Cuba foi o cenário da primeira epidemia grave na região. As autoridades acusaram, na época, a Agência Central de Inteligência (CIA) pela introdução da epidemia, que afetou 334.201 pessoas e custou a vida de 158, incluindo 101 crianças. Em dezembro último, e depois de vários meses de boatos, o presidente Fidel Castro reconheceu “alguns” casos de dengue, embora até o momento se careça de informação oficial completa. Fontes do Ministério de Saúde Pública indicaram que em novembro foram notificados cerca de 40 casos na província da Cidade de Havana.
O mosquito pode viver dentro das casas em todo tipo de recipiente com água limpa (onde deposita seus ovos), em lugares escuros e úmidos e nos quintais e jardins, o que torna imprescindível a cooperação da comunidade para conseguir seu controle e, depois, sua erradicação. “Em cada casa, bairro, centro de estudo ou trabalho, devemos neutralizar um inimigo hostil”, disse Liset Alvarez Ledesma, professora da escola de trabalhadores sociais de Havana.
Mais de dez mil pessoas estão diretamente envolvidas nos trabalhos de limpeza e fumigação, bem como nos controles sanitários, para detectar a tempo as pessoas contagiadas por algum dos quatro serótipos do vírus da dengue, doença para a qual ainda não existe vacina. Cada um desses serótipos só pode afetar a pessoa uma vez, devido aos anticorpos produzidos pelo organismo para defender-se da agressão que ocorre permanentemente no sangue do paciente.
O epidemiologista Pedro Más, do Instituto de Medicina Tropical Pedro Kouri (IPK), de Cuba, disse ao Terramérica que a pessoa afetada pelo serótipo número 1 fica imunizada contra ele, mas não contra os demais. Na segunda infecção, a multiplicação do vírus é maior e aumenta o risco de febre hemorrágica e de outras complicações, acrescentou Más, que também advertiu que as combinações entre os serótipos provocam maior agressão por parte da doença.
Pesquisadores do IPK, do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia e do Instituto Finlay trabalham em conjunto na busca de uma vacina contra a dengue, esforço dificultado pela necessidade de encontrar um imunizante com proteção elevada contra quatro vírus. Especialistas consideram Cuba, por sua localização geográfica e suas condições atmosféricas, um hábitat perfeito para o mosquito transmissor da dengue, que no continente americano afetou, no ano passado, cerca de 500 mil pessoas de 31 países, 16 dos quais notificaram a dengue hemorrágica.
Elia Rosa Lemus, responsável pela campanha contra a dengue em Cuba, estima que a situação epidemiológica da América Latina melhorou desde finais dos anos 50 até princípios da década seguinte, mas a dengue voltou entre 2000 e 2001. Atualmente, os índices de infecção são particularmente altos no Brasil e na Venezuela, explicou Lemus, recordando que o vírus é transmitido pela fêmea do Aedes aegypti, que se alimenta de sangue e detesta o frio. A Venezuela foi cenário de uma epidemia grave em 1990, e em 2001 sofreu um ressurgimento da doença, com quase 30 mil casos registrados, o que obrigou o governo a manter um “alerta epidemiológico” em 18 das 24 regiões do país.
No Brasil, o governo decidiu intensificar, durante a segunda quinzena de janeiro, as medidas de controle, após a morte de três pessoas em 11 dias por dengue hemorrágica no Rio de Janeiro.
O efeito estufa que afeta o planeta contribui para a propagação do vírus, pois o mosquito prefere os ambientes quentes e úmidos, acrescentou Lemus, coincidindo com os especialistas que acreditam estar na alteração climática a causa do aumento da presença do vetor na América Latina. Segundo a OPS, na América Central, a deterioração dos programas de controle, associada com condições climáticas, prolongaram e intensificaram os efeitos da dengue.
* A autora é correspondente da IPS.
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