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O Brasil busca um café resistente ao clima |
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Por Mario Osava*
No final de 2002, os biotecnólogos esperam ter pronto o mapa de 200 mil genes da planta, informação valiosa que permitirá no futuro torná-la menos vulnerável ao aquecimento da Terra.
RIO DE JANEIRO.- O Brasil avança no mapeamento genético do café, com o objetivo de melhorar a qualidade do produto e torná-lo resistente a enfermidades, e, também, à alteração climática, um dos principais inimigos dessa planta. Através do Projeto Genoma Café, duas redes de pesquisa científica realizam o mapeamento ou o “seqüenciamento” de 200 mil genes da planta, convertendo, assim, o Brasil no único país produtor de café do mundo a fazê-lo.
O objetivo central é aumentar a resistência dos cafezais, tanto às doenças quanto às temperaturas hostis e às secas, resumiu a Embrapa Café, instituição que coordena um dos grupos de pesquisa, como centro especializado da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O projeto será executado e partes iguais pelo Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, supervisionado pela Embrapa Café e por uma rede de 20 laboratórios coordenada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O café, de alta sensibilidade às temperaturas extremas, está especialmente exposto ao efeito estufa. O Painel Intergovernamental sobre Alteração Climática, composto por especialistas de várias nacionalidades, previu um aumento da temperatura da Terra de 1,5 para 5,8 graus, entre 1990 e 2100. Um aumento de três graus nos próximos 50 anos seria “um desastre” para o café, e não só no Brasil, o maior produtor mundial, disse ao Terramérica Hilton Silveira Pinto, especialista do Centro de Ensino e Pesquisa em Agricultura da Unicamp e autor de um estudo sobre o tema. O Estado de São Paulo, por exemplo, perderia 24% das terras destinadas ao café com o aumento em um grau da temperatura média na superfície da Terra, segundo o informe realizado por Silveira Pinto e outros pesquisadores.
O café arábico, que representa 70% da produção brasileira, só pode ser cultivado em regiões de temperatura média, entre 18 e 22 graus, explicou Silveira. Bastam alguns dias de temperatura superior a 34 graus, no período da floração, para se perder colheitas e afetar a qualidade do café arábico. O mesmo ocorre quando a temperatura cai a cerca de quatro graus. Por isso, a área de cultivo situa-se entre os 20 e 25 graus de latitude e em terras altas de clima adequado. O aquecimento não impediria o cultivo, mas, no Brasil, obrigaria a mudá-lo para o Sul.
O aumento de três graus na temperatura média reduziria a extensão dos cafezais no Estado de São Paulo a apenas 38% dos atuais 97.800 quilômetros quadrados. A alteração do clima aumentaria a área propícia no Estado do Paraná, que hoje só produz café em sua região Norte. Esses riscos, entretanto, podem ser neutralizados tanto pelas medidas com que o mundo tenta diminuir a emissão dos gases que causam o efeito estufa quanto através da biotecnologia.
O Projeto Genoma Café estudará cerca de 200 mil genes da planta. Embora se trate de uma pequena parte do genoma total do café, que compreende dezenas de milhões, é suficiente. Não se justifica decifrar o código genético de toda a planta, que é “muito complexo, como todos os vegetais”, explicou ao Terramérica Luiz Eduardo Aranha Camargo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. Os genes a serem estudados são os que “expressam determinadas condições de estresse, como as folhas infectadas por pragas e raízes contaminadas por flores", acrescentou.
O mapa de seqüência dos 200 mil genes, a cargo da Fapesp, estará pronto em quatro meses, acredita Camargo, embora o prazo fixado seja de um ano. “Temos máquinas de mapeamento eficientes e experiência com o eucalipto”, cujo genoma está em estudo desde o ano passado, explicou. Depois de conhecidas as seqüências, ainda haverá muito a ser feito, começando pela comparação dos genes em busca de possíveis semelhanças e a preparação do banco de dados. A intenção é reunir as informações obtidas pelos dois consórcios e colocá-las à disposição de todos os pesquisadores interessados no café, disse Camargo.
Conhecer o genoma é apenas um primeiro passo. Depois virá um longo processo de pesquisa até se alcançar resultados de aplicação prática na agricultura, como “induzir duas florações ao ano ou modificá-las para que não dependam tanto de certas condições climáticas”, disse Camargo. O gerente técnico da Embrapa Café, José Luis Rufino, diz que, com o Projeto Genoma Café, o Brasil tenta manter a liderança mundial na matéria, frente à França, que conseguiu avanço em um projeto similar. Além disso, o projeto deverá ter outro efeito positivo, que é renovar o interesse científico sobre a espécie. O café foi um dos primeiros produtos submetidos a pesquisa e melhoramento genético no Brasil, mas, em seguida, deixou de ter interesse entre os pesquisadores jovens, disseram os especialistas.
* O autor é correspondente da IPS.
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