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Não é El Niño, mas parece |
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Por Abraham Lama*
A detecção de um aquecimento do mar que causou intensas chuvas na costa do Pacífico peruano levou ao temor de uma repetição do fenômeno El Niño, que em sua última manifestação causou estragos. Mas os metereologistas já descartaram essa possibilidade.
LIMA,- Os peruanos, no início deste mês, temeram estar diante do início de uma nova manifestação do fenômeno El Niño, quando a temperatura da água diante de sua costa aumentou até três graus, e o susto ainda não passou totalmente. Essa variação causou chuvas incessantes que fizeram rios transbordarem. As inundações causaram, pelo menos, quatro mortes, destruíram centenas de hectares de terra semeada, danificaram milhares de moradias rurais e urbanas e provocaram deslizamentos que interromperam o trânsito em estradas.
A última aparição do El Niño, em 1998, causou em todo o mundo prejuízos estimados em dezenas de bilhões de dólares. No Peru, chegaram a US$ 3 bilhões as perdas pela destruição de 62 pontes e centenas de quilômetros de estradas, e houve danos em 113 mil moradias, 1550 escolas, 389 centros médicos e sete aeroportos. O El Niño é uma corrente de água quente que nasce no Oceano Pacífico diante da Austrália, com intervalos de três a sete anos, e flui para a costa sul-americana, percorrendo-a de Norte a Sul. Seus efeitos são graves transtornos do clima mundial com catastróficas inundações e secas.
Somente em meados do século XX a comunidade científica mundial estabeleceu que o El Niño era a causa comum de fenômenos em áreas distantes, como vento de monções na Índia, inundações na China, Indonésia e América Latina, e inclementes secas na África do Sul e Austrália. Sistemas de vigilância da temperatura do mar e da tendência do vento alimentam as bases de dados de organizações científicas que trocam informação sobre o assunto desde 1990, por recomendação das Nações Unidas.
“Trata-se de descobrir os ciclos que governam a periodicidade e a intensidade deste fenômeno, que parece enlouquecer o clima mundial, mas que obedece a uma lógica interna, que devemos conhecer e antecipar”, explicou ao Terramérica Ena Jaimes, do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Peru. O Centro de Previsão Climatológica dos Estados Unidos registrou, em janeiro, uma tendência de aquecimento do mar nas costas do Peru e do Equador, e considerou provável o início de novas manifestações do El Niño nos próximos três meses.
O Comitê Científico para o Estudo Regional do Fenômeno El Niño da América do Sul, integrado por especialistas da Colômbia, Chile, Equador e Peru, confirmou esse aquecimento ao reunir-se em Lima, em janeiro, mas descartou que isso indicasse o início de um novo episódio do El Niño. Porém, no dia 5 de fevereiro, caiu sobre Lima a chuva mais intensa em 32 anos. No resto do país, o transbordamento de rios e deslizamentos causaram oito mortes e afetaram 8500 pessoas, arrasando centenas de hectares de cultivos.
Jaimes, bem como o almirante Hugo Arévalo, presidente do comitê encarregado do estudo do fenômeno no Peru, e Ronald Woodman, do Instituto Geofísico, informaram ao presidente Alejandro Toledo que “apesar de parecer, não está começando um El Niño”. Woodman disse que “há um aquecimento do mar que aumenta as chuvas, mas não é o El Niño”. Por sua parte, Arévalo afirmou que “o aquecimento do mar não foi provocado por uma corrente de água quente procedente do outro lado do Pacífico, como ocorre com o El Niño, mas pela passagem de umidade procedente do Atlântico”. Segundo ele, “essa diferença de procedência é importante, sobretudo pela previsível duração das chuvas. Se fosse o El Niño, seria preciso se preparar para um período de chuvas extraordinárias de uns 12 meses”.
* O autor é correspondente da IPS.
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