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“Não sei porque os transgênicos assustam tanto" |
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Por Néfer Muñoz*
Norman Borlaug, pai da revolução verde, acredita que os cultivos modificados podem ajudar a alimentar o mundo e prevenir o desmatamento. Além disso, falou ao Terramérica que na luta contra a fome o grande problema é a distribuição equitativa.
San José - O prêmio Nobel da Paz Norman Borlaug, pai da revolução verde que multiplicou a produção agrícola nos anos 50 e 60, é a favor dos transgênicos como um instrumento para superar a fome no mundo. “Muitos ecologistas desvirtuaram a luta”, disse, ao referir-se à oposição de setores ambientalistas aos alimentos geneticamente modificados.
Borlaug, norte-americano de 88 anos, é considerado o cientista que mais vidas salvou no mundo, através de pesquisas que levaram ao desenvolvimento de variedades de milho e trigo mais produtivas e resistentes às pragas e que alimentam milhões nos países pobres.
Borlaug conversou com o Terramérica na Costa Rica, onde inaugurou a Primeira Conferência Internacional sobre Globalização da Pesquisa Agrícola (de 25 a 27 de fevereiro), organizada pelo não-governamental Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino.
Terramérica: Qual a sua visão da segurança alimentar no mundo?
Borlaug: Ninguém pode garantir a segurança alimentar em países de rápido crescimento populacional. Em uma nação como a Alemanha, o crescimento demográfico é praticamente zero, mas em outras vias de desenvolvimento chega a até 3% ao ano. Estamos falando de que a cada ano a população mundial cresce em 85 milhões de seres humanos. Isso equivale a mais de 20 vezes a população da Costa Rica.
- Como vislumbra o panorama daqui a 25 anos?
- Apesar do aumento demográfico, nos últimos 25 anos a produção de alimentos aumentou mais do que a população. Se fizermos uma projeção, podemos prever que, em 2025, o mundo será habitado por 8,3 bilhões de pessoas. Ainda assim, creio que podemos produzir alimentos para toda essa gente, o grande problema é a distribuição equitativa. O problema que temos, e que espero seja resolvido cedo ou tarde, é político.
- Qual a sua posição quanto aos alimentos geneticamente modificados?
- Sou a favor dos transgênicos. E explico o motivo. O mundo tem duas opções. A primeira é continuar cortando árvores, aumentando a erosão e afetando o hábitat para semear cultivos em solos pouco aptos com a finalidade de produzir alimentos suficientes para a população mundial. Ou, a segunda opção: desenvolver tecnologias novas, combater mais efetivamente as pragas e produzir mais por hectare. É preciso dizer que o aumento da produção de alimentos nos últimos 35 anos deveu-se à aplicação de tecnologias cada vez melhores.
- O que pensa dos grupos ecologistas que combatem os alimentos transgênicos?
- Confesso que eu mesmo fui ambientalista em minha juventude. Mas vejo que muitos dos ecologistas desvirtuaram a luta. Posso dizer que na Europa, Estados Unidos e Canadá pouquíssimas pessoas vivem no campo e, por isso, não sabem das necessidades pelas quais passam milhões de pobres nos países em vias de desenvolvimento.
- Como cientista, descarta os riscos atribuídos aos alimentos transgênicos?
- Até agora, não há evidência científica que demonstre que sejam perigosos. Naturalmente, os produtos químicos devem ser utilizados em doses baixas e sem se abusar deles.
- O senhor recomenda o consumo de transgênicos?
- Os transgênicos começaram a ser usados há mais de 20 anos em produtos farmacêuticos, medicamentos. Não sei o motivo de essa gente estar tão assustada por seu uso nos alimentos, pois é o mesmo que nos produtos médicos. É mais, a maioria dos remédios são tomados pela boca ou por injeção. Não há evidência que diga que os produtos transgênicos causem problemas.
* O autor é correspondente da IPS.
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