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"Os Estados Unidos colocam o mundo em perigo"

Por Néfer Muñoz*

O renomado economista de Harvard afirma que não há razão para que seu país fique de fora do Protocolo de Kyoto, que pretende controlar a mudança climática.

SAN JOSÉ.- “Nem por razões políticas, éticas nem práticas deveriam (os Estados Unidos) ficar fora do acordo” de Kyoto para controlar a alteração climática, afirma o economista norte-americano Jeffrey Sachs, em conversa exclusiva com o Terramérica. Considerado um “guru” da economia ocidental, assessor de vários governos do Sul em desenvolvimento, Sachs é diretor do influente Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Crítico da política ambiental de Washington, entretanto reconhece como uma “mudança real” o anúncio de que seu país vai aumentar a ajuda para o desenvolvimento, feito na recente Cúpula de Monterrey (México, 18 a 22 de março). Conselheiro do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, Sachs participou do encontro na cidade mexicana, de onde viajou para a Costa Rica, para dar uma conferência a universitários, intelectuais e promotores do desenvolvimento sustentável.

TERRAMÉRICA: O que pensa da oposição dos Estados Unidos ao Protocolo de Kyoto, o tratado internacional de 1997 que fixa compromissos para reduzir a emissão de gases que provocam o efeito estufa?
Sachs: Considero que os Estados Unidos cometeram um grande erro ao ficar de fora desse acordo internacional

- Por que?
- Por que os Estados Unidos são o principal contribuinte para o aumento desses gases. O país abriga 4% da população mundial e, entretanto, contribui com 25% desses gases poluentes. Assim, nem por razões políticas, éticas nem práticas deveria estar fora do acordo.

- O presidente George W. Bush propôs, em fevereiro, um modelo alternativo a Kyoto baseado em incentivos fiscais para corporações e indivíduos que reduzirem voluntariamente emissões nos Estados Unidos. Você acredita que é uma boa opção?
- É muito pouco realista. Creio que não é suficiente, pois isso realmente não está resolvendo o problema. Me parece que os Estados Unidos não apreciam o fato de que colocam em risco o resto do mundo. Não é só um problema interno, já que em caso de alteração do clima as conseqüências serão sentidas por todo o planeta.

- Qual seria, então, uma medida efetiva para deter a poluição global?
- Sou a favor de fixar impostos para as emissões de carvão, uma forma de elevar o preço do uso dos combustíveis fósseis. Creio que é a maneira mais efetiva de enfrentar o problema.

- Você considera que o Protocolo de Kyoto finalmente terá êxito?
- Creio que está próximo de ter êxito, embora os Estados Unidos e talvez outras nações decidam não participar. Todos os outros grandes países devem ratificar o acordo para fazer força sem os Estados Unidos. Entretanto, ainda não está claro o que vai acontecer. Alguns dizem que é difícil que seja assinado antes da próxima cúpula de Johannesburgo, na África do Sul (também chamada Rio+10, agosto-setembro de 2002).

- Você destacou que a globalização tem um lado positivo, mas, também, aspectos negativos
- Sim, aqui vão alguns exemplos negativos. Um quinto da população do planeta vive na pobreza e muitos países estão à beira do colapso ecológico por essa razão. Além disso, levou ao estabelecimento de forças negativas internacionais, como o terrorismo, a lavagem de dinheiro e outros delitos. Claro, também há efeitos positivos desse processo, com a desaceleração do crescimento demográfico, a explosão de novas tecnologias e o aumento da população nos centros urbanos, que facilitam o acesso aos serviços públicos.

- Com relação ao desenvolvimento sustentável, o que tem a dizer sobre a proposta de que os países ricos contribuam com 0,7% de seu produto interno bruto (PIB) para ajudar as nações mais pobres, como foi novamente sugerido, sem êxito, na recente Cúpula de Monterrey?
- Essa também é uma responsabilidade dos países ricos para com os mais pobres. Os Estados Unidos são o menor doador dos Estados que cooperam, já que contribuiu com apenas 0,1% de seu PIB. Por sua vez, os europeus aportam, em média, 0,3% e, inclusive, alguns deles, como Suécia, Noruega e Dinamarca, contribuem com 0,7%. Creio que os Estados Unidos deveriam fazer mais.

- Você acredita que haverá mais mudanças nesse aspecto, além dos anunciados por Washington?
- Estou feliz pelo anúncio do governo norte-americano de aumentar a ajuda externa de US$ 10 bilhões para US$ 15 bilhões. É a primeira vez que acontece um aumento desse tipo no orçamento nos últimos 20 anos. Embora não seja suficiente, é uma mudança real, que me dá alguma esperança de solidariedade global.

Para conhecer mais sobre o Centro para o Desenvolvimento Internacional, dirigido por Sachs, acesse o site www.cid.harvard.edu.

* O autor é correspondente da IPS




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Jeffrey Sachs
 
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