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Reator nuclear desata polêmica na Argentina |
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Por Redação Terramérica*
Para alguns, é um extraordinário êxito tecnológico, para outros, um impulso ao nefasto negócio do lixo atômico.
BUENOS AIRES.- O acordo para a venda de um reator nuclear de fabricação argentina para a Austrália causou sobressalto em setores ambientalistas da Argentina, temerosos de que o negócio transforme o país em um lixão atômico. No que considera a exportação de tecnologia mais importante da história do país, o Invap (Instituto Nacional de Pesquisas Aplicadas) ganhou uma licitação, em 1999, para construir um reator nuclear de pesquisa para a Austrália no valor de US$ 180 milhões, derrotando rivais como Siemens, da Alemanha.
Segundo as autoridades, o reator já está construído em cerca de 16%, nas instalações do Invap, em Bariloche, cerca de 1600 quilômetros a sudeste da capital, e no processo estão envolvidos mais de 300 cientistas e técnicos argentinos. O contrato comercial para a construção do reator entre o Invap e a empresa australiana Ansto (Australian Nucelar Science and Technology Organization) foi avalizado pelo governo argentino, através de um acordo de cooperação com a Austrália, em agosto de 2001.
O acordo foi ratificado pelo Senado argentino e deverá, agora, ser debatido na Câmara dos Deputados. Setores ambientalistas, entretanto, opõem-se ferreamente ao projeto. Asseguram que, segundo o contrato, o Invap se compromete a “acondicionar” os resíduos atômicos da Austrália em território argentino, em aberta violação à Carta Magna. Segundo a organização Greenpeace, que bloqueou a aprovação do acordo de cooperação na Câmara dos Deputados em novembro passado, o lixo nuclear seria destinado ao Centro Atômico Ezeiza, perto do aeroporto internacional de Buenos Aires, a cerca de 30 quilômetros do centro da cidade.
Os ambientalistas apontam para o risco de vazamento de radiação no transporte e na manipulação dos resíduos, que em contato com seres humanos podem causar câncer e má-formações. Porém, as autoridades negam tal coisa. Héctor Otegui, gerente-geral do Invap, assegurou ao Terramérica que a Argentina tem uma longa trajetória de segurança nuclear e que “é falso” que se esteja pensando em depositar definitivamente na Argentina os resíduos do reator atômico. O que o contrato comercial prevê, explica Otegui, é que se, no futuro, a Austrália solicitar, os combustíveis residuais do reator argentino poderão ser “processados e acondicionados na Argentina para seu armazenamento na Austrália”. Esses combustíveis, concorda Otegui, são radioativos, mas não violam a Carta Magna, segundo lhe asseguraram vários especialistas na Constituição, explicou.
Por sua vez, alguns analistas classificam de “inexistente” o perigo nuclear. “porque, primeiro, é preciso saber se a Austrália vai precisar do processamento do combustível. Segundo, se a Austrália quiser esse processamento, o potencial de risco é ínfimo: a tecnologia de traslado de materiais nucleares é perigosa somente na percepção distorcida das organizações antinucleares”, escreveu há pouco tempo Julio Orione, do jornal El Clarín.
Mesmo assim, os grupos verdes não se rendem. Insistem em que o Invap “tem a intenção de oferecer serviços de processamento de lixo nuclear ao mundo”, segundo Raúl Montenegro, da Fundação para a Defesa do Meio Ambiente. Juan Carlos Villalonga, diretor de energia do Greenpeace, considera que o colapso econômico, político e institucional que a Argentina vive pode ser terreno fértil para o negócio do lixo nuclear.
“A vulnerabilidade argentina de hoje se parece muito com a observada depois da crise russa de 1998, que derivou em uma lei que permite a entrada de resíduos atômicos no país”, afirmou Villalonga ao Terramérica. “A avidez de divisas por parte de países com problemas econômicos faz com que, em muitos casos, se acabe aceitando em seu território lixo nuclear que ninguém deseja”, acrescentou. Estas advertências foram apresentadas por cerca de 70 grupos ambientalistas em uma carta ao presidente Eduardo Duhalde.
* Com informação de Marcela Valente, correspondente da IPS.
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