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Colossos correm risco de apagão |
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Por Andrés Cañizález*
Brasil, México e Venezuela são gigantes energéticos, mas podem enfrentar racionamentos de eletricidade se não tomarem medidas a tempo. O setor requer enormes investimentos, chuvas suficientes e planos sustentáveis no futuro.
CARACAS.- Três colossos energéticos latino-americanos, Brasil, México e Venezuela, enfrentam um futuro de severas crises de abastecimento de eletricidade, devido à falta de investimentos públicos e privados, à inexistência de planos sustentáveis, à escassa diversificação de fontes de energia e a fatores climáticos adversos. O setor elétrico da América Latina vai exigir, nos próximos anos, enormes investimentos e uma revisão da excessiva dependência da energia hidrelétrica em detrimento de fontes limpas, como a eólica.
Venezuela e México, países exportadores de petróleo e de energia elétrica, atravessam conjunturas difíceis no fornecimento interno, do mesmo modo que o Brasil. Embora as autoridades atribuam as dificuldades a fatores climáticos como a seca, a geração hidrelétrica carece de investimentos necessários para garantir o fornecimento diante de uma demanda que cresce a cada ano.
Em 2001, o Brasil experimentou uma escassez grave, que determinou oito meses de racionamento, e se mantém em situação de alerta. A Venezuela poderia atravessar o momento mais complicado em maio, e, embora o México não preveja medidas imediatas de racionamento, requer políticas de grande esforço para evitar futuros apagões.
O caso venezuelano é paradoxal. Com uma capacidade de geração elétrica de aproximadamente 19 mil megawatts, o país iniciou, no ano passado, um ambicioso plano de interligação elétrica para exportar energia para o Brasil. Pouco depois, viu-se obrigado a importar eletricidade da Colômbia para enfrentar a redução do volume das águas da represa hidrelétrica de Guri, no rio Caroní, responsável por mais de 60% da eletricidade consumida no país. Até março, a escassez de chuvas levou a que as águas da represa se mantivessem em um nível de 250 metros, muito próximo do mínimo histórico de 246 metros e inferior ao seu nível normal de 270 metros. Se não chover em maio, será necessário racionar a eletricidade em um país que vive de exportar energia, admitiram as autoridades venezuelanas.
O governo venezuelano fez, no início deste ano, uma campanha publicitária destinada a incentivar a redução voluntária do consumo nas casas e indústrias, mas os resultados são desconhecidos, enquanto a população espera com ansiedade que o inverno austral traga as esperadas chuvas. A previsível crise elétrica se deve à incapacidade governamental para criar e manter investimentos e resguardar as fronteiras ambientais da principal represa do país, situada no estado de Bolívar, onde são freqüentes a exploração mineira ilegal nas cabeceiras dos rios e o desmatamento da selva amazônica, disse ao Terramérica o analista em energia Milko Luis González, da Universidade Central da Venezuela.
No Brasil, o presidente Fernando Henrique Cardoso destacou o “papel pedagógico” do racionamento ocorrido entre junho de 2001 e fevereiro deste ano, para reduzir o desperdício de energia. Em uma recente pesquisa, 80% das pessoas consultadas manifestaram sua disposição de continuar economizando eletricidade. O país tem uma capacidade de geração elétrica de 75.893 megawatts, dos quais 82% provêm de fontes hidrelétricas, 15% de fontes térmicas (diesel, carvão, gás) e apenas 2,59% da energia nuclear. As fontes de energia alternativa, como a eólica, são marginais no Brasil e no México, enquanto na Venezuela nem mesmo figuram nas estatísticas.
O racionamento no Brasil deveu-se a dois anos de chuvas insuficientes, segundo as autoridades. Porém, analistas advertiram que não foram feitos os investimentos necessários, reduziu-se excessivamente as margens de segurança e o processo de privatização das hidrelétricas foi mal conduzido, pois não estabeleceu compromissos de expansão. A interministerial Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), chefiada pelo chefe da Casa Civil da Presidência da República, Pedro Parente, procurou lidar com a crise mediante uma redução do consumo de 20% no Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do país.
Embora o racionamento tenham terminado em fevereiro, a GCE reconhece que a crise não está superada, podendo estabelecer novos controles sobre o consumo se as chuvas não forem suficientes. Organizações da sociedade civil questionaram a completa privatização do setor elétrico, que “constitui um risco máximo”, segundo o diretor do Instituto para o Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina), Roberto Pereira D’Araújo. Nos Estados Unidos apenas 10% da eletricidade é de produção independente, enquanto 90% correspondem a concessões a particulares que incluem metas de expansão, fiscalização e regulamentos rígidos, diz D’Araújo.
No México, não se espera um colapso repentino do serviço elétrico, mas o Ministério de Energia advertiu que, se não forem feitos investimentos em obras de infra-estrutura, em cinco ou seis anos o país enfrentará racionamentos. Quase 100% dos cem milhões de mexicanos têm acesso à energia elétrica, um serviço que cresceu desde 1960, quando apenas 44% da população contava com esse fornecimento. O governo estima que o setor requer investimentos de US$ 67 bilhões nas áreas de geração, transmissão, distribuição, manutenção e engenharia até 2010, período em que o consumo crescerá 6,3% ao ano. A intenção oficial é aumentar a atual capacidade de geração do sistema elétrico nacional de 27.650 megawatts para 65 mil megawatts, crescimento de 42%.
Quase 70% da eletricidade mexicana depende de fontes termelétricas (petróleo, gás e carvão), 24% de centrais hidrelétricas e o restante de outras formas de energia, como geotérmica, nuclear e eólica. Embora o México procure com estes planos prevenir uma crise de abastecimento, a ênfase colocada nos combustíveis fósseis não renováveis, em especial o gás natural, não garante o desenvolvimento sustentável do setor. O governo de Vicente Fox está disposto a dar maior participação ao setor privado, através de uma reforma das regulamentações que limitam seu papel na indústria elétrica, seguindo uma proposta de seu antecessor, Ernesto Zedillo. Embora a idéia de Fox seja a de que o Estado conserve “a soberania sobre o recurso”, a iniciativa não conta com maioria no parlamento, onde circulam, desde o ano passado, diferentes projetos de reforma do setor elétrico, sem que uma versão definitiva esteja perto de ser concretizada.
* O autor é correspondente da IPS. Contribuíram com este artigo os correspondentes da IPS Mário Osava (Brasil) e Diego Cevallos (México).
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