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Sem documentos na “zona zero” |
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Por Haider Rizvi*
Centenas de trabalhadores latinos sem documentos participaram, sem proteção, da remoção de escombros no World Trade Center, depois dos atentados de 11 de setembro. Hoje afirmam que ainda sentem os efeitos da contaminação da área e pedem indenização.
NOVA YORK.- Apenas a um quarteirão da “zona zero”, onde as gigantes torres gêmeas do World Trade Center se erguiam antes dos atentados suicidas de 11 de setembro, milhares de turistas curiosos continuam percorrendo todos os dias uma plataforma para dar uma olhada nas ruínas. Entretanto, os ricos viajantes, procedentes principalmente da Europa e de várias partes dos Estados Unidos, não resistem, ao desagradável cheiro dos gases tóxicos que emanam do local e se retiram em poucos minutos. O que não podem fazer as centenas de trabalhadores que ainda removem os escombros dia e noite.
Como membros de sindicatos locais e nacionais, os que ainda trabalham na “zona zero” agora dispõem do equipamento de segurança necessário para proteção contra os efeitos tóxicos do pó e do gás. No entanto, centenas de seus companheiros sem documentos, que removeram escombros dos edifícios vizinhos ao World Trade Center nos dias imediatos aos atentados, não tiveram a mesma sorte. Foram contratados por companhias privadas sem nenhum equipamento de proteção nem treinamento em matéria de segurança. Culpa deles? Estes trabalhadores foram para a “terra da liberdade”, partindo do México, Colômbia, Equador, Guatemala, Honduras, República Dominicana e de outros países da América Latina, em busca de bem-estar econômico. Entretanto, sem autorização para trabalhar, vivem sob o medo da deportação.
Grupos de direitos trabalhistas asseguram que mais de 600 imigrantes trabalharam em condições duvidosas na remoção de escombros nos dias seguintes ao 11 de setembro. A maioria deles continua com febre, dor de cabeça, hemorragia nasal, tosse, náusea, dor no peito e outras complicações respiratórias. Um deles, Ángel Quiroga, morreu em um hospital no dia 19 de outubro de 2001, um dia depois de ser mandado para fora da área do World Trade Center por queixar-se de enjôos e tontura.
Ativistas afirmam que as empresas privadas contrataram imigrantes ilegais através de subcontratantes, que em momento algum alertaram os trabalhadores sobre os perigos dos gases tóxicos e da contaminação na “zona zero”. E chegam a afirmar que houve casos em que alguns trabalhadores levaram seu próprio equipamento de proteção, mas que seus chefes ficaram com eles para seu uso. Vários imigrantes asseguraram a dirigentes sindicais que lhes foi oferecido pagamento de US$ 7,50 por hora, e que tiveram de esperar durante semanas e semanas pelo dinheiro, mesmo tendo cumprido satisfatoriamente seu trabalho.
“Vi centenas de trabalhadores ilegais realizarem tarefas de limpeza nos escritórios do subsolo das torres. E foi raro encontrar algum recebendo equipamentos de segurança”, disse ao Terramérica Luna Yasui, advogada do Projeto de Lei Nacional do Emprego (National Employment Law Project), um grupo que há três décadas defende os direitos trabalhistas nos Estados Unidos e que investiga os abusos contra os trabalhadores ilegais na “zona zero”. Yasui afirmou que a nenhum dos trabalhadores foi dito que as tarefas que executariam “poderiam ser perigosas para sua saúde”.
Organizações ambientalistas asseguram que o pó dos edifícios vizinhos ao World Trade Center continha baixas concentrações de substâncias tóxicas, incluindo asbesto, fibra de vidro e chumbo. Qualquer pó fino, mesmo não contendo substâncias tóxicas, pode causar irritação respiratória e asma, adverte a Administração de Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA, sigla em inglês), departamento do governo responsável pela segurança e saúde no ambiente de trabalho. O asbesto, relacionado a diversos tipos de câncer, é o que mais preocupa os especialistas. Quanto a isto, não existe consenso. Alguns consideram que o nível de asbesto na “zona zero” foi relativamente baixo. Outros, como Philip J. Landrigan, da Escola de Medicina Monte Sinai de Nova York, são céticos: “ninguém pode prever quais serão as conseqüências a longo prazo para a saúde dos trabalhadores”.
A preocupação pelos efeitos futuros da exposição a contaminantes na “zona zero” é tal que pelo menos 700 bombeiros novaiorquinos, com diversos problemas respiratórios, decidiram no início do ano contratar os serviços de advogados para preservarem seu direito de demanda no futuro. Por sua vez, o Projeto dos Trabalhadores Latino-Americanos, organização sem fins lucrativos fundada em 1990, diz que continua ajudando os ilegais afetados pelos contaminantes a encontrarem trabalho e ajuda médica. O grupo manteve uma unidade médica móvel perto do World Trade Center durante aproximadamente seis semanas. “Creio que há muitas vítimas do 11 de setembro. Nesse dia, os trabalhadores que foram contratados pelas empresas privadas, também se converteram em vítimas”, disse Java Goldberg, que trabalha para a organização. “Alguns deles eram adolescentes. Essas empresas não têm respeito pelas vidas humanas. Gostaria que tivessem um pouco de dignidade”, acrescentou.
Poucas semanas depois do 11 de setembro, o escritório do Promotor Geral de Nova York, Eliot Spitzer, começou a investigar a forma como as companhias de remoção de escombros haviam contratado trabalhadores imigrantes e colocado em risco sua saúde. Entretanto ainda não há nenhum avanço. “Estou realmente preocupado com a saúde desses trabalhadores, mas não estou autorizado a falar com a imprensa”, afirmou ao Terramérica um investigador do escritório da Promotoria que não quis se identificar. Juanita Scarlett, porta-voz da Promotoria, disse que uma das investigações concluiu que alguns trabalhadores foram indenizados por suas doenças, mas recusou-se a dar detalhes de outros casos ainda não resolvidos. Tampouco a citar as empresas envolvidas.
Porém, um membro do Comitê de Segurança e Saúde Ocupacional de Nova York, uma coalizão de 200 sindicatos e mais de 400 médicos, advogados e ativistas em segurança do trabalho, disse que “a situação é quase a mesma”, referindo-se ao pouco avanço registrado. Goldberg também contradisse a declaração oficial afirmando: “Não ouvimos nenhum trabalhador dizer que foi indenizado”.
* O autor é correspondente da IPS.
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