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Mesoamérica fica sem árvores

Por Néfer Muñoz*

Os agricultores pobres serão as principais vítimas do desaparecimento das florestas na região, que ocorrerá em 2015 se não se reduzir o ritmo de desmatamento de 44 hectares por hora.

SAN JOSÉ.- As comunidades camponesas pobres serão as mais prejudicadas pela falta de florestas, que são devoradas ao ritmo de 44 hectares por hora na Mesoamérica, região compreendida entre a América Central e os Estados meridionais do México, alertam especialistas. De fato, o desmatamento já afeta a população mesoamericana, 34 milhões de pessoas que chegarão a 45 milhões em dez anos. A maior parte destes novos cidadãos habitará zonas rurais empobrecidas, onde a necessidade leva a cortar árvores para sobreviver, agravando a vulnerabilidade ambiental.

As Terras de Tiburcio Hernández - um camponês de 45 anos residente na comunidade de Caliguate, na Nicarágua - não produzem nada desde 1998 devido à seca, agravada pelo corte de árvores. Hernández disse ao Terramérica que os solos ficaram enfraquecidos depois da passagem do furacão Mitch, que em 1998 provocou a morte de dez mil pessoas e perdas econômicas de US$ 5 bilhões na América Central. Desde então, Hernández não tem outra alternativa a não ser semear yuca, uma variedade de mandioca. Os moradores da região “devem a vida a organizações não-governamentais que auxiliam as famílias que quase morrem de fome”, afirmou.

Outra nicaragüense, María Amparo Sánchez, do departamento de Nueva Segovia, também contou ao Terramérica seus sofrimentos devido à infertilidade da terra. Ela e seus vizinhos da comunidade de Santa Maria não conseguem colheitas de grãos há quatro anos, e são obrigados a sobreviver com mangas e farinha da árvore guapinol. Milhares de famílias da região estão na mesma situação, devido ao desmatamento que multiplica o efeito dos desastres naturais e aprofunda a erosão do solo, dizem especialistas. Os incêndios, o corte ilegal e a exploração irracional da natureza causam uma redução de 400 mil hectares de florestas por ano, e se a tendência não for revertida, em 2015 estas terão desaparecido, segundo os registros científicos do Corredor Biológico Mesoamericano (CBM), uma iniciativa para restaurar a valiosa cadeia florestal da região.

“A situação é extremamente grave”, disse ao Terramérica o engenheiro florestal costarriquenho José Joaquin Campos, um dos especialistas latino-americanos mais respeitados nesse assunto. A principal causa do fenômeno é cultural, afirma Campos, que trabalha para o Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino. “Não damos à floresta o valor econômico que tem. Devemos entender que cada árvore dá à sociedade serviços ambientais impossíveis de se pagar”, afirmou. Segundo estimativas independentes, a metade das árvores cortadas na América Central provém do corte ilegal. O desaparecimento de florestas também é perda de biodiversidade. Embora constitua apenas 0,5% das terras acima do nível do mar, a Mesoamérica possui 7% da biodiversidade do mundo.

Em países como Honduras, onde o desmatamento consome 80 mil hectares de florestas por ano, alguns elementos agravam ainda mais o panorama, afirmou ao Terramérica o especialista hondurenho Rigoberto Sandoval. Por exemplo, a falta de um ordenamento territorial que permita conhecer as formas de posse da terra e a fraca estrutura institucional, incapaz de responder às necessidades da floresta. Entretanto, há iniciativas no sentido de reverter o fenômeno, embora a mudança cultural deva levar anos, segundo ecologistas e cientistas. “Os esforços para valorizar a floresta ajudarão a deter as altas taxas de desmatamento”, disse ao Terramérica Mauricio Castro, secretário-executivo da regional Comissão Centro-Americana de Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Para deter a perda de florestas é preciso que os países adotem posições políticas e econômicas e um programa de educação, disse Castro. “Nos três temas estamos avançando, já que os países reconhecem que devem trabalhar em harmonia, pois nossas florestas representam uma continuidade da natureza”, afirmou. Para alguns ambientalistas, os esforços não serão suficientes. Entretanto, na Costa Rica, Guatemala e Panamá há novas iniciativas. Uma delas é o sistema de pagamento por serviços ambientais implementado na Costa Rica, onde o Estado paga aos proprietários privados de florestas para que as conservem. “Sou um defensor deste esquema porque acredito que funciona”, disse ao Terramérica Juan Figuerola, ecologista do Grupo de Florestas da Federação Costarriquenha para a Conservação do Meio Ambiente.

Essa remuneração funciona de três maneiras: por reflorestamento, pelo manejo sustentável das florestas ou reflorestamentos, e pela proteção da floresta. Em cada categoria os proprietários de terras recebem determinada quantia em dólares por hectare, se se comprometerem a proteger as florestas por períodos de cinco a 15 anos. Contudo, essa política deve ser aperfeiçoada e é preciso eliminar a segunda modalidade, já que pagar para extrair madeira é um subsídio ao corte, alerta Figuerola, coincidindo com muitos grupos ambientalistas. O principal passo para a recuperação da floresta, segundo os especialistas, é que a questão esteja entre as prioridades políticas e da sociedade civil da região.

* O autor é correspondente da IPS. Colaboraram para este artigo Nohelia González/Nicarágua e Thelma Mejía/Honduras.


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Enlaces Externos

Corredor Biológico Mesoamericano

Comissão Centro-Americana de Meio Ambiente e Desenvolvimento

Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino

Federação Costarriquenha para a Conservação do Meio Ambiente

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