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Pedras no caminho entre Puebla e o Panamá |
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Por Diego Cevallos*
Grupos sociais e guerrilheiros ameaçam boicotar as obras de interconexão viária na Mesoamérica, que farão a ligação com estradas dos Estados Unidos.
MÉXICO.- Os governos da América Central e do México estão decididos a estabelecer em três ou quatro anos uma rede viária de nove mil quilômetros, que estará ligada a estradas dos Estados Unidos. Entretanto, a sociedade civil organizada e dois grupos guerrilheiros prometem boicotar o projeto. A rede estará formada por dois corredores viários nas costas dos oceanos Atlântico e Pacifico para unir sete países da América Central e nove Estados do sul e sudeste do México, uma região que abriga 64 milhões de habitantes, quase 10% da biodiversidade do planeta e as maiores proporções de pobreza da América Latina.
Junto com a interligaçao elétrica da região - em pleno andamento -, a rede viária é um dos poucos projetos do Plano Puebla Panamá (PPP) com cronogramas claros e ofertas de crédito. Por outro lado, os de caráter social apresentam avanços marginais. “Há consenso no movimento social para frear o PPP e todos seus projetos, pois foi imposto pelos governos e feito à medida das multinacionais, o que é demonstrado desde sua etapa inicial”, disse ao Terramérica Martin Velasquez, porta-voz da ONG Aliança Mexicana pela Autodeterminação dos Povos, formada por pelo menos 30 grupos. “será freada a construção de estradas, pois afetarão as comunidades”, alertou.
O certo é que já existe a maior parte dos 8.977 quilômetros de estradas que unirão México, Guatemala, Belize, Honduras, Nicarágua, El Salvador, Costa Rica e Panamá, embora 70% estejam em mau estado e necessitem de manutenção. Resta construir apenas algumas vias destinadas às interligações e, segundo informação oficial, quase nenhuma delas passará por zonas de conflitos sociais ou ambientalmente frágeis. O custo das obras chega a US$ 3,548 bilhões, dos quais US$ 1,879 bilhões provenientes de empréstimos. O restante será financiado pelos governos e pelo setor privado.
As estradas destinam-se a agilizar o comércio interno, atrair investimentos, melhorar a competitividade e o acesso aos mercados. E, ao ligar-se à rede viária dos Estados Unidos através do México, incentivarão o intercâmbio com esse país, dizem os governos. O projeto supõe, ainda, a modernização das aduanas e passagens de fronteira e a regularização de normas técnicas de transporte. Os responsáveis pela obra afirmam que não existe agenda oculta e que há vontade de ouvir e trabalhar com a população local, pois o PPP pretende resgatar da pobreza milhões de mesoamericanos.
A região sofre enormes problemas sociais. De cada mil crianças nascidas vivas, entre 20 e 40 morrem antes de completarem cinco anos e 25% da população infantil está desnutrida. Segundo José Antonio Ocampo, secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), as criticas não têm sentido. O PPP é um projeto de longo alcance, que leva em conta todos os ângulos e terminará convertendo-se na base do desenvolvimento da Mesoamérica, afirmou.
No entanto, conforme avança o PPP, aumenta a oposição. Diversos grupos indígenas, camponeses, sindicalistas, acadêmicos e políticos da região fazem reuniões periódicas sob o lema “Não ao PPP”. E preparam seu arsenal, que incluirá mobilizações em vários países e denúncias contra os governos junto à Organização Internacional do Trabalho (IT), pois o PPP foi definido sem realização de um processo prévio de consulta às populações envolvidas.
Representantes indígenas consideram que, para os 14 milhões de nativos que habitam a Mesoamérica, a receita do PPP, que inclui instalação de empresas maquiladoras e construção de represas, levará ao abandono de sua cultura, à integração à dinâmica das multinacionais, a salários miseráveis e à exploração.
Para lançar mais lenha na fogueira, somam-se às críticas dois grupos armados: o indígena Exercito Zaspatista de Libertação Nacional (EZLN), do Estado mexicano de Chiapas, e o esquerdista Exército Popular Revolucionário (EPR), com presença marginal em vários Estados do México. “Nem Plano Puebla Panamá, nem megaprojeto de interligação, nem nada que signifique a venda ou a destruição da casa dos indígenas”, escreveu o subcomandante Marcos, líder do EZLN, de Chiapas, onde, em julho, milhares de indígenas bloquearam as principais rodovias em protesto, entre outras coisas, contra o PPP.
“As estradas não prejudicarão ninguém e não há motivo para causar conflito, pois só o que fazem é levar melhores oportunidades aos pequenos produtores e garantir a integração comercial”, afirmou ao Terramérica Álvaro Trejos, delegado do PPP pela Costa Rica, secretário temporário do plano e encarregado de coordenar o programa viário. Apresentado em 2000 pelo então presidente eleito do México, Vicente Fox, o PPP inclui projetos etiquetados sob nomes como desenvolvimento humano e produtivo, turismo sustentável, educação e saúde, entre outros.
A rede viária é apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial, Cooperação Andina de Fomento e outros órgãos de crédito e agências da Organização das Nações Unidas. Devido ao “grande desconhecimento sobre o PPP”, o BID organiza fóruns com representantes da sociedade civil. Entretanto, “há grupos que não querem dialogar”, afirma Diego Belmonte, especialista do departamento de Infra-Estrutura e Meio Ambiente do banco. O BID apenas dará empréstimos sob rígidos parâmetros ambientais e sociais. Alguns, inclusive, queixam-se de que somos extremamente exigentes”, acrescentou.
Em encontros convocados em meados do ano pelo BID para promover o PPP junto à sociedade civil em vários países da região, os funcionários desse banco ouviram duras críticas ao plano. “O BID não tem autoridade moral para falar, pois está casado com o Plano Puebla Panamá, é seu promotor e por isso não vamos conversar com eles”, disse Martin Velasquez, da Aliança Mexicana.
Os governos insistem em que o PPP avança com passo firme. Alguns observadores, entretanto, não estão tão certos e se perguntam se a disputa em questão poderia derivar em violência. Existe um conflito latente, pois à oferta de estabelecer um “corredor de maquiladoras”, (os grupos sociais) opõem um “corredor de resistência”, afirma o antropólogo Gerco Castro, assessor do Instituto Nacional Indigenista do México.
* O autor e correspondente da IPS.
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