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“Tanta injustiça como com Somoza”

Por Néfer Muñoz*

A escassa cultura impede pensar no meio ambiente como um tema importante para a sobrevivência, diz o escritor e ex-vice-presidente nicaragüense Sérgio Ramirez. Em conversa com o Terramérica, garante que o novelista pode ser “uma testemunha de sua época”.

SAN JOSÉ.- O escritor Sérgio Ramires Mercado apresenta nos próximos dias “Sombras Nada Más”, uma nova novela ambientada na sofrida Nicarágua, no início da Revolução Sandinista. Trata-se de uma época e de um processo que domina: Ramires, de 60 anos, foi membro da junta de governo sandinista que assumiu o poder após a queda de Anastasio Somoza, em 1979, foi vice-presidente e depois líder de bancada no parlamento, até o rompimento com o sandinismo, em 1994. Sua longa passagem pela política lhe deixou muitas frustrações, que revelou em seu livro “Adios Muchachos” (1999).

“O sonho sandinista ficou na história”, afirmou Ramirez, autor de cerca de 30 obras. Ele considera, sem vacilar, que a sociedade nicaragüense continua sendo tão injusta quanto era na época somozista, e que o atraso, a crise alimentar, a falta de consciência ambiental, a corrupção e a exploração estrangeira se estendem por toda América Central. Às vésperas de partir para uma viagem de apresentação de sua novela na Colômbia, Venezuela e Costa Rica, Ramirez conversou com exclusividade com o Terramérica.

P.- É válido o pensamento revolucionário na América Latina?
R.- É válido um pensamento revolucionário democrático, no qual haja livre escolha dos cidadãos e dentro do contexto das instituições.

P.- Quem é o culpado pela miséria na região?
R.- O atraso, a corrupção, os vícios autoritários e a exploração estrangeira.

P.- Qual problema ambiental que mais o preocupa?
R.- A escassa cultura que existe que nos impede de pensar que o meio ambiente é parte de nossa própria sobrevivência.

P.- O que você faria para minimizar a fome na América Central?
R.- Nesse ponto tenho de usar a frase: promover o desenvolvimento. Melhorar nossa realidade econômica e fixar uma política alimentar para deixar para trás a vergonha de ser um país incapaz de dar comida aos seus próprios cidadãos.

P.- Como reivindicaria os direitos indígenas?
R.- Dando às comunidades a faculdade de governarem a si próprias, respeitando suas formas de propriedade, sua natureza.

P.- Que frase escreveria na lápide da família Somoza
R.- “Pronto esquecimento”

P.- Onde ficou o sonho sandinista?
R.- Na história.

P.- O que o frustrou mais como político?
R.- A impotência, não poder fazer a mudança pela qual lutei contra Somoza: fazer com que a sociedade nicaragüense fosse menos injusta. Hoje, continua sendo tão injusta quanto então. Mas, como diz o Popol Vuh (livro sagrado dos maias), “quanto mais escuro está o céu, mais rápido vai amanhecer”. Essa esperança me consola.

P.- Se fosse um cientista, qual latino-americano gostaria de clonar?
R.- Por seu exemplo ético, Monsenhor Oscar Arnulfo Romero e Monsenhor Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga. Por seu exemplo cívico Juan José Arévalo, Omar Torrijos e Pepe Figueres.

P.- A literatura ajuda a desenvolver os povos?
R.- Sim. Cria uma sensibilidade e abre a consciência. Não seria tão insensato a ponto de dizer que um autor transforma o mundo, mas pode ser testemunha de sua época.

Para saber mais sobre Ramirez, entre no site www.sergioramirez.org.ni

* O autor é correspondente da IPS.




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Sérgio Ramires
 
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