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Renasce o entalhe em marfim na Índia |
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Por Ranjit Devraj **
Apesar de seu status sagrado, o elefante não está a salvo na Ásia, alertam ecologistas, às vésperas de uma reunião global sobre espécies ameaçadas.
NOVA DÉLHI.- O comércio de presas de elefante e seus produtos é tão antigo que já o Antigo Testamento mencionava Malabar, o atual estado de Kerala, na Índia, como a fonte do marfim comprado por Salomão (970-931 a.C.), o rei dos judeus. Pelo menos desde os tempos bíblicos a arte de entalhar e esculpir em marfim - um material muito maleável em mãos de artesãos habilidosos - floresceu em Kerala sem interrupção até 1989, quando a Convenção das Nações Unidas para o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites) introduziu a proibição do comércio de marfim.
Na medida em que desapareciam estatuetas, enfeites, jogos de xadrez, pequenos móveis e cofres, que inundavam lojas de Thiruvananthapuram, capital de Kerala, as populações de elefantes voltavam a crescer. No entanto, informes recentes sobre um renascimento da atividade em Kerala e outros centros artesanais da Índia, como o vizinho estado de Karnataka, em Orissa e Rajasthan, fizeram soar o alarme entre os conservacionistas e amigos desse mamífero gigante.
“O comércio de marfim está renascendo na Índia, produtos com valor agregado estão disponíveis em lugares seletos para turistas estrangeiros”, disse o diretor do escritório indiano do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Tariq Aziz. África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zâmbia e Zimbábue tentarão fazer com que a Cites autorize o comércio controlado de seu marfim na conferência de 160 países em Santiago do Chile, entre 3 e 14 de novembro. O governo da Índia, junto como o do Quênia, opõe-se à proposta africana, argumentando que quase não existe controle internacional das populações, da caça e do comércio ilegais.
Uma denúncia da Sociedade de Proteção da Natureza da Índia (WPSI), com sede em Nova Délhi, em maio alertou as autoridades de Thiruvananthapuram, que conseguiram apreender quatro grandes peças entalhadas de marfim, uma delas pesando 40 quilos e com 1,2 metro de comprimento. “Esta operação ilustra o alcance do comércio ilegal de marfim na Índia. É alarmante e não indica previsões nada boas para os elefantes”, afirma Belinda Wright, diretora executiva da WPSI, uma organização contrária à caça ilegal. As peças reproduzem imagens de deuses hindus. Um deles, o popular Ghanesa, “o que elimina os obstáculos”, e que, ironicamente, possui corpo de homem e cabeça de elefante.
O elefante é um animal sagrado em boa parte da Ásia meridional e sul-oriental, onde é elemento essencial do contexto religioso e monárquico. Mas seu status não o salvou de matanças ilegais. Os ativistas do WPSI estimam que as quatro peças apreendidas utilizaram as presas de pelos menos três machos, provavelmente sacrificados nas florestas de Nilgiri, onde 65% das mortes de elefantes são causadas por caçadores ilegais.
Ao contrário de seu parente africano (Loxodonta africana), apenas os machos da espécie asiática (Elephas maximus) desenvolvem presas com o tamanho requeridas por estas peças, e isso provoca um sério desequilíbrio sexual nas populações indianas, em especial nas colinas de Nilgiri, onde vivem entre seis mil e dez mil elefantes. O WWF colabora com as autoridades no patrulhamento da região e nas redes de inteligência estabelecidas em locais estratégicos.
Nos anos 70, a Cites colocou o elefante asiático na categoria de “não habilitado para o comércio” e deu à espécie africana o status de “comércio controlado”. Isso levou ao desaparecimento de metade dos elefantes africanos, entre 1979 e 1987, segundo a Agência de Pesquisa Ambiental, e ``a proibição mundial do comércio, introduzida em 1989. Os ambientalistas não podem dormir sabendo que o marfim africano está chegando aos artesãos indianos.
“Parece que nos últimos anos cresceu uma rede internacional que vincula o marfim bruto com os artesãos de centros como Kerala e outros estados”, afirma Aziz, da WWF. “A única coisa que garantirá a sobrevivência do elefante na África e na Ásia é uma completa proibição internacional do comércio e a destruição total do marfim armazenado”, acrescentou. Porém, se os cinco países da África austral conseguirem que a reunião da Cites, no Chile, aprove o comércio controlado, as populações do maior animal terrestre do planeta continuarão sendo dizimadas.
Para saber mais sobre o elefante asiático, entre no site www.ifaw.org
* O autor e correspondente da IPS.
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