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Camponeses recebem dinheiro para destruir coca |
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Por Abraham Lama*
O governo de Toledo paga US$ 150 para cada hectare eliminado da planta, matéria-prima da cocaína.
LIMA.- O governo do Peru iniciou um programa de incentivos econômicos, financiado pelos Estados Unidos, para os camponeses que abandonarem voluntariamente os cultivos ilegais de coca, dos quais dependem 400 mil famílias. “O governo de Alejandro Toledo está pagando aos camponeses por cada hectare semeado de coca que for eliminado voluntariamente de suas terras”, disse ao Terramérica Pedro Morales, funcionário do Ministério da Agricultura do Peru. O piloto do programa começou na província Padre Abad, no departamento de Ucayali, com a intenção de erradicar nessa região cerca de 90 hectares de plantações ilegais, afirmou Augusto Lecussan, representante local da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (De Vida).
Vinte e cinco famílias indígenas de Padre Abad foram as primeiras a entrar no Programa de Auto-Erradicação de Cultivos Ilícitos de Coca, e começaram a receber o equivalente a US$ 150 em dinheiro peruano (soles) para cada hectare que eliminarem de coca, acrescentou Morales. Outras 200 famílias das etnias huambisa e ashaninka se inscreveram no programa e prometeram dedicar-se exclusivamente à plantação da palma de azeite, disse Lecussan. As plantações de coca para produzir cocaína constituem um grave fenômeno criminoso, econômico, social e ambiental para todos os países da região andina da América do Sul.
Os cultivos ilícitos acabam com florestas e para obter cocaína pura (cloridrato de cocaína) são construídas fábricas clandestinas em plena selva, nas quais as folhas de coca são tratadas com ácido sulfúrico, querosene e ácido clorídrico. Estas substâncias entram no solo ou são jogadas em rios. Além disso, a erradicação forçada, através de fumigação aérea com desfoliantes, como o glifosato, mata indiscriminadamente plantações ilegais e a floresta em volta, e prejudica a saúde da população afetada. As forças de segurança peruanas perseguem os traficantes, fabricantes de cocaína e fornecedores de insumos, mas não os que cultivam a coca.
Na erradicação de cultivos não há intervenção de policiais nem de soldados, para evitar conflitos numa região de selva onde 400 famílias subsistem direta ou indiretamente da coca e onde atuam grupos armados e células guerrilheiras. O governo tentou promover cultivos alternativos para os camponeses, ao que agora se soma o pagamento pela eliminação voluntária. Mas a grave queda dos preços agrícolas de que sofre o Peru conspira contra as duas políticas. Os programas de substituição de cultivos fracassaram porque não podem competir com a rentabilidade da coca, diz o especialista independente Roger Rumrill. Além disso, a nova iniciativa encontra resistência nos camponeses migrantes, procedentes da serra.
Algumas fontes assinalam que, embora estejam interessados, os camponeses temem a vingança dos traficantes. Pelo menos dois líderes foram assassinados por apoiarem publicamente o plano: Maximiliano Flores Infantes e Mateo Zamallo foram assassinados por capangas do narcotráfico nos dias 16 e 22 de outubro, respectivamente, segundo a revista local Caretas. No início de outubro, o governo anunciou que pretende erradicar sete mil hectares de coca este ano, cumprindo a primeira parte dos compromissos, assumidos com os Estados Unidos, para ter acesso aos benefícios da Lei de Promoção Comercial Andina e de Erradicação de Drogas (APTDEA).
Mas, até agora, as autoridades não divulgaram um balanço dos hectares destruídos este ano. O Peru foi, até 1992, o primeiro produtor mundial de coca, com mais de 120 mil hectares semeados, que se reduziram significativamente desde então, para chegar a 34.200, cedendo o primeiro lugar para a Bolívia. Coincidindo com a destituição do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), houve uma queda no ritmo da campanha contra a coca e, segundo os Estados Unidos, em 2001 foram erradicados apenas 1.400 hectares.
* O autor é correspondente da IPS.
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