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Nascem novos líderes |
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Por Mário Osava*
A ministra do Meio Ambiente do Brasil representa um novo tipo de liderança na América Latina, surgida de um ativismo ambiental que promove profundas mudanças. Em algumas ocasiões, pagando com suas vidas.
RIO DE JANEIRO.- Camponeses, cineastas, acadêmicos, indígenas, políticos e até ex-guerrilheiros formam as fileiras do movimento ecologista da América Latina, um fenômeno vasto e diverso, no qual em poucas décadas surgiram importantes lideranças. Uma delas é representada por Marina Silva, de 44 anos, ministra do Meio Ambiente que assumiu seu cargo em janeiro, com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
Marina trabalhou desde criança no Estado do Acre, ajudando seu pai seringueiro a manter uma família de oito filhos. Sobreviveu a várias crises de malária na selva amazônica e aprendeu a ler e escrever aos 16 anos. Nessa idade, uma hepatite a obrigou a viajar para Rio Branco, onde pôde estudar, formar-se em história e converter-se em militante social e política, no Partido dos Trabalhadores (PT).
Herdeira da tradição de Chico Mendes - líder seringueiro e defensor da floresta amazônica, assassinado em dezembro de 1988 - a nova ministra ajudou a organizar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Acre e a defender os seringais das motoserras dos fazendeiros. Marina Silva simboliza um novo tipo de liderança, nascida do ativismo ambiental na América Latina. Sua escolha conta com “o consenso dos ambientalistas”, disse ao Terramérica Carlos Minc, deputado estadual do PT no Rio de Janeiro.
Minc, de 51 anos, pertence a um grupo de ex-rebeldes que, exilados nos anos 70 na Europa, retornaram ao Brasil com conceitos ecológicos novos para o país. À mesma vertente pertencem o deputado Fernando Gabeira, o secretário de Urbanismo da cidade do Rio de Janeiro, Alfredo Sirkis, e o secretário de Meio Ambiente também do Rio, Liszt Vieira. Todos eles pegaram em armas contra o regime militar entre 1968 e 1970. Três foram presos, torturados e libertados em troca de um diplomata seqüestrado por seus companheiros. De volta ao Brasil, dez anos mais tarde, ajudaram a criar o minúsculo Partido Verde, no qual permanece Sirkis. Os demais passaram para o PT.
Muitos ativistas lideraram mudanças profundas e vários pagaram com sua vida a ousadia de defender a natureza. O agrônomo e professor universitário peruano Godofredo García, de 63 anos, foi executado na frente de seu filho Ulisses por um homem encapuzado, no dia 31 de março de 2001, no vale de San Lorenzo, mil quilômetros ao norte de Lima. García liderava a resistência de cem mil habitantes da região contra o projeto da companhia canadense Minera Manhattan de explorar jazidas de ouro, cobre, prata e zinco no subsolo da cidade de Tambogrande, estendendo-se também a grandes áreas agrícolas.
O plano obrigava a deslocar 12 mil residentes urbanos e colocava em risco a agricultura local, da qual dependem 20 mil pessoas. A ampla campanha popular, apoiada por organizações locais e internacionais, como Oxfam América, não deteve o projeto da mina a céu aberto, que promete criar três mil empregos diretos e indiretos. A suspeita inevitável é a de que García foi assassinado por ordem da Minera Manhantan.
Outro assassinato que marcou o movimento ambientalista foi o do indígena Eusberto Jojoa, fundador da Associação para o Desenvolvimento Camponês da Colômbia, em janeiro de 2000. “É uma dor permanente porque não sabemos quem nem por que o mataram”, disse ao Terramérica Gonzalo Palomino Ortiz, pioneiro ecologista colombiano. Palomino, de 66 anos, é ativista em muitas organizações e escreve para várias publicações, além de ser professor e pesquisador do departamento de Biologia da Universidade de Tolima. Uma de suas façanhas foi criar a Rede de Reservas Naturais Privadas, à qual estão filiadas 130 áreas. Tratou-se de “um triunfo com bandeira própria”. O Ministério do Meio Ambiente teve de aceitar a iniciativa como “uma boa forma de conservar ecossistemas”.
No entanto, o que ele mais lembra é a luta “de mais de 15 anos” contra a dragagem para extração de ouro de um rio na localidade de Ataco, no departamento de Tolima, por parte de uma empresa de mineração subsidiária da norte-americana Chocó Pacífico. Os protestos dos plantadores de arroz impediram o desastre ecológico. Muitos integrantes do movimento de Salvação Nacional Agropecuária “têm sua origem nessa primeira grande luta de repercussão nacional”, afirma Palomino.
Um papel semelhante foi exercido, na Costa Rica, pelo agrônomo Mario Boza, de 60 anos, fundador do Serviço Nacional de Parques Nacionais, que protege 24% do território de seu país. Sua influência superou as fronteiras nacionais ao preparar o projeto do Corredor Biológico Mesoamericano, que promove o desenvolvimento sustentável nos sete países centro-americanos e no sul do México. Vice-ministro do Meio Ambiente entre 1990 e 1993, escreve e participa incansavelmente de fóruns. “Em muitos países serão destruídos os recursos naturais e haverá grandes catástrofes, mas também haverá excelentes exemplos a seguir e em cerca de 50 anos serão em número maior do que os negativos”, disse Boza ao Terramérica.
O chileno Patrico Lanfranco, cineasta documentarista, representa outro tipo de líder ecologista. Em 1996, impulsionou a Coordenadoria Não à Costanera Norte, reunindo 25 organizações de moradores e comerciantes, para opor-se à construção de uma rodovia unindo o leste e o oeste de Santiago. A campanha não impediu a obra, mas conseguiu pequenos triunfos, como mudanças no traçado da estrada ou um túnel sob o rio Mapocho, para evitar maiores impactos ambientais. Além disso, teve, a seu ver, “um resultado muito positivo”: a criação da Corporação Cidade Viva. Essa organização executa projetos como a conservação do patrimônio arquitetônico da localidade de Bellavista, ganhador, entre 150 competidores, do prêmio Andrés Bello deste ano, concedido por sete países latino-americanos.
* O autor é correspondente da IPS. Colaboraram Abraham Lama, María Isabel García, Néfer Muñoz e Gustavo Gonzalez.
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