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Questionadas as virtudes da maconha |
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Por Gustavo González*
A “erva” pode acalmar dores, controlar náuseas e amenizar o estresse. Na América Latina, apenas uns poucos cientistas e políticos defendem a autorização do seu uso terapêutico.
SANTIAGO.- A maconha é valorizada em países industrializados por suas virtudes terapêuticas, mas, na América Latina, continua proscrita e satanizada como ante-sala de drogas mais pesadas, enquanto alguns poucos cientistas e políticos defendem que seja autorizado seu uso médico. No Brasil e no México, deputados afinam projetos de lei para legalizar com fins medicinais a “erva”, cujo nome científico é Cannabis sativa, mas o governo da Colômbia planeja um referendo para revogar a autorização de seu consumo pessoal em vigor desde os anos 70. Pesquisas desenvolvidas principalmente na Europa e América do Norte indicam a efetividade da maconha para controlar náuseas e dores provocadas por tratamentos contra o câncer e a aids.
O agente químico ativo da maconha é o tetrahidrocannabiono (THC), que se pode ingerir ao fumar ou mascar suas folhas, ou em cápsulas, e também serve para tratar glaucomas e aliviar dores da artrite e esclerose múltipla, além de minimizar o estresse e ser tranquilizante. As cápsulas são fabricadas atualmente nos Estados Unidos sob a marca Marinol. Entretanto, as supostas virtudes da planta são conhecidas há séculos. Em 1545, o rei Felipe II da Espanha ordenou que fossem plantadas fileiras de Cannabis, ou cânhamo, em todo seu império, entusiasmado com os dotes medicinais e alimentícios da planta e suas aplicações na fabricação de papel, cordas e toscas vestimentas para os pobres sem acesso a tecidos de algodão ou linho.
No Brasil, o deputado Fernando Gabeira, do PT, pretende apresentar esta ano um projeto de lei autorizando usos terapêuticos da maconha. No México, o legislador Elías Moreno, do Partido da Revolução Democrática (de esquerda), tem pronto um projeto semelhante e, embora tivesse anunciado que o apresentaria em setembro de 2002, ainda não o fez. Além disso, o partido político de esquerda México Possível, que pela primeira vez participará das eleições legislativas de julho, anunciou que em sua plataforma inclui a despenalização do tráfico e consumo da maconha, como meio de combate aos narcotraficantes, principais beneficiários das políticas restritivas, segundo afirma.
Na Colômbia, a droga foi usada até meados do século XX pelas classes populares para aliviar dores de reumatismo e artrite. Era comum levar aos postos policiais um frasco com álcool para que acrescentassem maconha apreendida e, assim, fabricar um emplasto medicinal. Depois da despenalização do uso de doses pessoais, estendeu-se o costume de fumar maconha com fins analgésicos. A falta de leis sobre uso terapêutico da maconha é um padrão comum na América Latina, bem como a existência de normas antidrogas que privilegiam a repressão ao tráfico e o consumo, inspiradas na doutrina norte-americana de “tolerância zero”, que impede debates públicos sobre o assunto.
O Canadá é o único país americano onde está sendo despenalizado o consumo e autorizado o uso terapêutico, bem como em alguns Estados dos Estados Unidos, apesar da legislação federal contrária sustentada pela Corte Suprema, disse ao Terramérica o psiquiatra Pedro Naveillán, presidente do Instituto Chileno de Saúde Mental. Naveillán defende a despenalização da maconha devido às suas virtudes como medicamento e também porque -segundo afirma - não produz dependência, pois está comprovado que a maioria de seus consumidores a deixam depois de três a quatro anos.
Os fatores que induzem ao consumo de drogas e à repressão são sociais e culturais, e a dependência se desenvolve em indivíduos predispostos a ela, afirma o psiquiatra. Porém, seu colega argentino Oscar Ramírez, da Fundação Gradiva, não concorda. O psiquiatra aceitou que a maconha tem propriedades sedativas e calmantes, porém menores do que as de outros sedativos e ansiolíticos, e advertiu sobre o “papel precursor que a maconha pode ter em relação ao uso de outras drogas”. Algo com que concorda Miguel Ángel Astariz, médico e diretor-geral da Fundação Edusalud, da Argentina. “ A maconha, além de alterar a conduta e ser nociva à saúde, é uma droga que, junto com o álcool, atua como precursora do consumo de outras substâncias mais perigosas”, afirmou.
No Peru, a proibição da maconha não distingue entre seu uso “recreativo” ou terapêutico. Os médicos peruanos Edmundo Hernández e Carlos San Martín reconheceram, em conversa com o Terramérica, que a droga pode atenuar efeitos da quimioterapia e outras dores, mas acrescentaram que há várias substâncias com efeito semelhante. O oftalmologista Moisés Lu, diretor do Instituto Peruano da Visão, admitiu que está comprovada a efetividade da maconha para tratar o glaucoma, mas destacou que “há no mercado gotas (de outros medicamentos) muito efetivas, seguras e fáceis de usar”.
Na Venezuela, desde a promulgação, em 1993, da lei sobre substâncias entorpecentes e psicotrópicos não se recebe solicitações para usar maconha com fins terapêuticos, segundo a farmacêutica Carmen Zambrano, chefe do Departamento de Psicotrópicos da Direção de Drogas e Cosméticos do Ministério da Saúde da Venezuela. Entre a indiferença e a satanização, prossegue na América Latina o debate em torno do uso médico da maconha. No momento, existe apenas uma idéia que gera consenso: passarão muitos anos antes que o consumo da planta seja despenalizado na região.
* O autor é correspondente da IPS. Colaboraram Viviana Alonso/Argentina, Mário Osava/Brasil, Yadira Ferrer/Colômbia, Diego Cevallos/México, Abraham Lama/Peru e Humberto Márquez/Venezuela.
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