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Artigo


“A transgênica não salvará a banana”

Por Julio Godoy*

Após a repercussão provocada por um artigo na revista New Scientist, prognosticando o desaparecimento, em dez anos, de uma variedade da fruta, o Inibap esclarece sua posição em conversa exclusiva com o Terramérica.

PARIS.- Nem os inseticidas nem a manipulação genética salvarão do desaparecimento a banana Cavendish, disse ao Terramérica o cientista Jean Vincent Escalant, coordenador de pesquisas mundiais da Rede Internacional para a Melhoria da Banana e do Plátano (Inibap), depois da repercussão causada pelo anúncio da iminente extinção da fruta. Em meados de janeiro, o cientista Emile Frison, diretor do Inibap, advertiu que a variedade Cavendish, a mais consumida no mundo industrializado, poderia desaparecer em dez anos devido ao ataque do fungo fusarium, que não pode ser combatido com inseticidas.

“A única opção é encontrar uma nova variedade resistente”, afirmou Frison em um artigo publicado pela revista New Scientist. (Going Bananas, 18 de janeiro de 2003). A publicação dava a entender que Frison, que encabeça esforços para decifrar o genoma da fruta, aposta na manipulação genética neste caso. “Além do interesse acadêmico na biotecnologia, Frison a vê como a única esperança para a banana”, diz o artigo.

"A New Scientist publicou uma série de opiniões aparentemente positivas sobre a manipulação genética, mas dando a entender que o Inibap era a fonte dessa informação. Isso não é certo. Estamos convencidos de que os métodos convencionais de enxerto são os mais eficazes a longo prazo”, disse Escalant. Doutor em fisiologia vegetal, professor universitário e autor de inúmeras publicações científicas, Escalant, de 44 anos, conversou com o Terramérica.

- O artigo publicado pela New Scientist fez soar o alarme sobre a extinção da banana Cavendish. Tem fundamento ou é exagero?
- Tenho de admitir que utilizamos um título um pouco exagerado, mas o fizemos porque queríamos chamar a atenção sobre um problema real que os plantadores de banana enfrentam há alguns anos na Ásia e na África. Trata-se da existência do fungo fusarium, que provoca a chamada raça 4 do mal-do-Panamá, e que ataca a variedade Cavendish de banana. Tememos que, a curto prazo, essa praga se estenda também à América Latina e ao Caribe.

- Quais reações surgiram depois da publicação dessa informação?
- A maioria é positiva e procedem de pesquisadores em países produtores, os quais dizem que o artigo lhes será útil para convencerem governos e outras instituições a aumentar os esforços em pesquisa contra a enfermidade. As reações negativas partiram de pessoas e agências que acreditam que exageramos. Sobretudo nos reprovam uma impressão falsa, dada pela New Scientist, de que apoiamos a manipulação genética da banana como melhor solução para a enfermidade. O que a redação da revista fez foi publicar uma série de opiniões aparentemente positivas sobre a manipulação genética, mas dando a entender que o Inibap era a fonte dessa informação. Isso não é certo. Estamos convencidos de que os métodos convencionais de enxerto são os mais eficientes a longo prazo.

- Há semelhanças entre o perigo que corre a Cavendish hoje com a extinção da variedade Gros Michel, há 50 anos?
- Sim. Nos anos 50, a Gros Michel era a variedade mais cultivada no mundo. Então, apareceu a primeira forma do mal-do-Panamá, também um fungo, que obrigou quase todos os produtores do mundo a mudar centenas de milhares de hectares cultivados com Gros Michel para a Cavendish, resistente à praga. Em menos de dez anos, a Gros Michel desapareceu. Queremos evitar que isso ocorra com a Cavendish. O problema seria muito mais grave agora, porque não dispomos de uma variedade para substituir.

- Como é o contágio pelo fungo fusarium?
- O fungo é um organismo do solo, que penetra na planta através de feridas em raízes ou folhas. Quando entra na planta, se espalha através das vias vasculares, bloqueando-as. O resultado é que a seiva não pode circular porque as veias da planta estão bloqueadas, e esta morre.

- Existe algum pesticida efetivo?
- Não. E se houvesse, seria muito problemático. O uso intenso de pesticida causa resultados secundários negativos no meio ambiente, além de seu custo ser muito alto e, portanto, proibitivo para pequenos e médios agricultores.

- E a manipulação genética?
- Tampouco é uma solução a longo prazo. Com o conhecimento atual da manipulação genética, os cientistas apenas seriam capazes de intervir em um ou dois agentes da banana. Um agente patogênico qualquer, digamos o fungo fusarium, necessitaria de muito pouco tempo para superar um bloqueio genético tão simples.

- Existe forma de combater o fungo?
- Sim, através do enxerto biológico convencional, que nosso instituto propõe na América Latina e na África. A banana que consumimos é uma fruta sexualmente estéril. Os biólogos podem fertilizar artificialmente certas variedades, usando grande quantidade de pólen. Desta maneira obtém-se uma variedade fértil feminina, que cruzamos com bananas silvestres, masculinas, que são resistentes à raça 4 do mal-do-Panamá, mas que não são comestíveis. Do enxerto de banana fêmea fertilizada artificialmente com banana macho silvestre e resistente obteremos uma variedade mais comestível e imune à doença.

- O que é preciso para consegui-lo?
- Meios financeiros. A banana é o quarto alimento vegetal mundial, atrás do arroz, milho e trigo. No entanto, enquanto quase mil institutos em todo o mundo se ocupam de aumentar a segurança alimentar do arroz, para a banana existem apenas cinco: a Fundação Hondurenha de Pesquisa Agrícola (FHIA), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mais duas na África e uma no Caribe.

- Por que faltam recursos?
- Por um mal-entendido. A banana sofreu com uma imagem má, como um produto em mãos de algumas multinacionais que só querem exportar. Entretanto, trata-se de um cultivo muito importante também para centenas de milhares de pequenos e médios agricultores. Graças a campanhas do Inibap, os doadores estão compreendendo que financiar pesquisa sobre a banana também é uma forma de ajudar o desenvolvimento.

Para saber mais, visite os sites http://archive.newscientist.com e www.inibap.org.

ANOTAÇÕES

* A Índia é o maior produtor mundial de banana, com 16 milhões de toneladas por ano.

* Aproximadamente cem milhões de toneladas de banana e plátano são produzidos anualmente em cerca de 120 países em regiões tropicais e subtropicais.

* Existem mais de 500 variedades de banana no mundo. A banana Cavendish é a mais exportada.

* O maior consumo é registrado no Leste da África. Os ugandenses produzem 10,5 milhões de toneladas ao ano, cerca de 450 quilos por pessoa.

* 99,5% dos consumidores de banana no mundo comem variedades de bananas escolhidas pelos agricultores e que não mudaram em séculos

* A fruta é uma das de mais fácil digestão e é útil na alimentação de crianças, doentes e esportistas, pois constitui uma grande fonte de potássio, cálcio, fósforo, vitaminas A, B6 e C.

* A reprodução de quase todas as variedades é complexa, já que não possuem sementes e são estéreis e demoram cerca de 18 meses para frutificar.

* Cuba é o primeiro país a usar variedades enriquecidas de banana em um nível significativo: mais de 11 mil hectares semeados.

Fonte: Inibap. Tradução: Língua.

* O autor é correspondente da IPS.


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Existem 500 variedades de banana no mundo, mas a mais exportada é a Cavendish. Crédito: Mauricio Ramos.
 
Existem 500 variedades de banana no mundo, mas a mais exportada é a Cavendish. Crédito: Mauricio Ramos.

Enlaces Externos

Inibap

FAO: os plátanos não estão à beira da extinção

Revista New Scientist

BBC: banana em perigo?

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