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As fazendas da esperança |
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Por Vandana Shiva*
Como alternativa a um sistema de produção agrícola em grande escala e globalizado que não é sustentável, existe outro, baseado em pequenas fazendas nas quais se consegue um uso mais eficiente dos recursos naturais, com respeito à biodiversidade, afirma a autora.
NOVA DÉLHI.- Existem dois modelos que se rivalizam para marcar o futuro da agricultura no mundo. Um é baseado na produção industrial em grande escala, que utiliza caríssimas sementes híbridas modificadas geneticamente e insumos agroquímicos. Este modelo é monopolizado por um punhado de gigantescas empresas biotecnológicas e agroquímicas, como Monsanto, Syngenta, Dow e Dupont, e por um comércio mundial controlado por poucas corporações, como Cargill, ADM e Pepsico. O segundo modelo baseia-se em pequenas propriedades com sistemas ecológico-orgânico e insumos naturais de uso interno de baixo custo e acessível aos produtores pobres.
O sistema de produção em grande escala e globalizado não é sustentável e converte-se em uma fonte de desigualdade econômica e de insegurança alimentar. Mas é vendida ao mundo através da tergiversação de seu verdadeiro funcionamento. As justificativas mais comuns das técnicas industriais na agricultura são as referentes à sua “alta eficiência e produtividade”, embora, nos fatos, esses sistemas registrem baixos níveis de produtividade se considerar-se o uso total dos recursos e os resultados. Já as pequenas fazendas que respeitam a biodiversidade têm uma produtividade muito mais alta em termos de uso eficiente dos recursos e maior produção de biomassa e de alimento por unidade.
Estes cálculos enganosos das corporações servem para passar como verdadeira a afirmação, falsa, de que sem agricultura industrial, sem pesticidas e sem organismos modificados geneticamente o mundo não pode ser alimentado. Pelo contrário. A solução para a fome está na promoção de pequenas fazendas ecológicas. A fome, entretanto, não é apenas a conseqüência de uma carência de alimentos, mas também da falta de acesso a eles. O prêmio Nobel de Economia Amartya Sem assinalou que a fome é causada pela falta de acesso aos alimentos, devido à queda da renda dos camponeses, seja pelo aumento dos custos de produção ou pela redução dos preços agrícolas, ou por ambas as causas.
A globalização da agricultura através dos programas de ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, ou pelas normas de liberalização do comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC), está causando uma redução da renda dos pequenos e médios agricultores do Terceiro Mundo, já que provoca aumento do custo dos insumos e uma queda dos preços dos produtores. A mudança do uso de sementes polinizadas naturalmente e preparadas pelos próprios agricultores para sementes híbridas não renováveis e modificadas geneticamente levou a muitos fracassos nas colheitas, endividamento dos agricultores e suicídio de muitos deles.
Por outro lado, as afirmações das corporações sobre o resultado das colheitas com sementes geneticamente modificadas são comumente falsas e exageradas. Por exemplo, sobre o programa de semeadura de milho com essas sementes, a cargo da Monsanto no estado desértico de Rajastha, na Índia, a propaganda da empresa afirma que foram obtidas colheitas de 22 a 50 toneladas por hectare, enquanto os números dos agricultores da região indicam a quantidade de apenas 1,7 tonelada por hectare.
Os preços mundiais das matérias-primas são distorcidos por outro fenômeno: uma combinação de altos subsídios às exportações no Norte, que reduzem artificialmente os preços das matérias-primas exportadas; os pagamentos diretos aos agricultores, que permitem às empresas jogar o preço de compra abaixo do nível de subsistência daqueles e dos custos de produção; o desajuste entre os custos de produção e os preços das matérias-primas que fez do Acordo Agrícola da OMC um instrumento para legalizar o dumping e impor a eliminação das restrições às importações.
Enquanto as normas comerciais da OMC levam à eliminação forçosa dos subsídios à agricultura doméstica em um país como a Índia, fazendo aumentar os custos de produção dos produtores locais, os produtos agrícolas ocidentais são importados a preços mantidos artificialmente baixos graças aos maciços subsídios internos no Norte, permitidos pela OMC. Na medida em que as pessoas compram os produtos substitutivos importados, já que por esse mecanismo saem mais baratos, aumenta o excedente de produtos indianos que ficam encalhados e que, então, devem ser exportados a preços muito reduzidos.
É dessa maneira que a globalização está causando grandes danos no Terceiro Mundo, porque leva os pobres à morte por inanição para alimentar as corporações. Se queremos criar segurança alimentar para todos, desde os lares até à comunidade e daí para a região, às nações e em escala global, o princípio sobre o qual devem estar baseados o comércio e a distribuição deve ser a localização, e não a globalização. (Direitos reservados IPS)
* A autora é escritora e defensora dos direitos das mulheres e do meio ambiente. Recebeu, em 1993, o Right Livelihood Award, prêmio alternativo ao Nobel.
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