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Medimos mal o clima? |
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Por Sanjay Suri*
Dois especialistas provocam
alvoroço no mundo científico ao rebaterem as avaliações
sobre a alteração do clima na Terra. Um deles, David
Henderson, conversou com o Terramérica.
LONDRES.- O Grupo Intergovernamental sobre
Alteração Climática (IPCC, sigla em inglês)
não deveria basear sua próxima avaliação
climática em suas erradas projeções de emissões
de gases causadores do efeito estufa, disse ao Terramérica
o especialista David Henderson, ex-economista-chefe da Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico
(OCDE) e professor visitante da Westminster Business School, de
Londres.
Henderson e Ian Castles (do Centro Nacional
para Estudos de Desenvolvimento, da Universidade Nacional da Austrália,
e ex-chefe do escritório estatal de estatísticas desse
país) são autores de uma crítica ao Relatório
Especial sobre Cenários de Emissões, do IPCC, destinado
a fornecer a base de futuras avaliações sobre a mudança
do clima, que será publicado no próximo número
da revista Energy and Environment (Energia e Meio Ambiente). Segundo
Henderson e Castles, a metodologia utilizada para estimar as emissões
acumuladas de gases causadores do efeito estufa (petróleo,
gás e carvão) em 2001 foi incorreta e levou a presumir
um crescimento econômico exagerado para as regiões
em desenvolvimento.
Suas críticas, publicadas na semana
passada pela revista inglesa The Economist, parecem um duro golpe
na credibilidade do IPCC, cujas opiniões sobre as causas
humanas da alteração do clima costumam ser consideradas
como o consenso científico na matéria. De acordo com
o Terceiro Relatório de Avaliação sobre Mudança
Climática, publicado em 2001 pelo IPCC, é provável
que em cem anos a temperatura da superfície da Terra tenha
aumentado entre 1,4 e 5,8 graus, em relação a 1990,
e que se registre um aumento do nível do mar entre 0,09 e
0,88 metros.
Em conversa exclusiva com o Terramérica,
Henderson pediu desse organismo mais consideração
com as questões econômicas e estatísticas e
manifestou sua esperança de que aconteça “um
debate amplo e aberto”.
- Sobre quais bases o senhor questiona o Relatório Especial
sobre Cenários de Emissões?
-
- Ao contrário da prática internacional aceita, os
40 cenários apresentados no relatório transformam
os dados do produto interno bruto de cada país do mundo em
uma medida comum, utilizando tipos de câmbio do mercado, em
lugar de taxas de paridade do poder aquisitivo. Devido a este procedimento
errôneo e à incorporação de suposições
sobre o grau em que se fecharia a brecha entre países ricos
e pobres ao longo do século, os cenários projetam
um PIB improvavelmente alto para as regiões em desenvolvimento.
- Isto significa que os números sobre
emissões previstas também são exageradamente
altos?
- Significa que inclusive os cenários
que prevêem as menores emissões acumuladas não
constituem, de fato, limites razoavelmente baixos. Ao contrário
do que se assegura, essas projeções não consideram
a totalidade de incertezas sobre o futuro e não deveriam
ser tomadas como base para o próximo Quarto Relatório
de Avaliação sobre Mudança Climática
do IPCC.
- O IPCC se reuniu esta semana em Paris. Qual
resultado esperava dessa reunião a respeito do trabalho futuro
do Grupo?
- Para começar, espero que o IPCC reconheça
que nossa crítica está bem fundamentada. O que dizemos
não representa apenas a visão isolada de duas pessoas,
embora nem Castles nem eu exerçamos cargos oficiais. O que
afirmamos receberia amplo apoio profissional.
- Quais medidas quer que o IPCC tome? Deveria
refazer todo o estudo?
- Entendo que seria difícil repetir
um exercício nessa escala de tempo para o Quarto Relatório
do IPCC. Mas deveria começar, agora, uma análise mais
limitada que revise as bases do trabalho sobre emissões e
estabeleça um novo conjunto de projeções que,
embora de maneira menos elaborada, daria bases mais sólidas
do que as cifras atuais.
- Existem ainda incertezas muito grandes nesta
e outras projeções do IPCC, pois seu mandato exige
que levem seu exame um século à frente. O que proporia
para reduzir essas incertezas?
- Não. Nós economistas não
podemos nos atribuir capacidade para ver o futuro com total claridade.
O que sugerimos forneceria um ponto de partida muito mais estrito
profissionalmente do que o relatório atual.
- O senhor tem outras recomendações
ao IPCC?
- Sim. Nosso pedido vai mais além do
estudo de cenários de emissões. De modo mais geral,
pensamos que o Grupo deveria tentar um tratamento mais equilibrado,
informado e profissional dos aspectos econômicos e estatísticos
de sua tarefa. Do lado governamental, deveria haver mais participação
dos ministérios da Economia e dos departamentos de estatísticas.
Também deveria melhorar a representação de
historiadores da economia e de economistas interessados na história
entre os acadêmicos que participam dos trabalhos.
- O IPCC deu alguma resposta às suas
críticas?
- Sim. Começamos com uma carta ao seu
presidente, Rajendra Pachauri, após a qual fomos convidados
para uma reunião com especialistas, em janeiro. Embora o
encontro já tivesse uma agenda completa, tivemos a oportunidade
de fazer nossas apresentações e foram realizadas discussões
técnicas para considerar nossos argumentos, fora dos fóruns
principais.
- Os senhores esperam uma resposta mais formal?
- Sim. Acreditamos e esperamos que isso ocorrerá
logo. Gostaríamos de ver um debate amplo e aberto. Várias
comunicações que enviamos ao IPCC aparecerão
no próximo número da revista científica Energy
and Environment. Quando a editora se ofereceu para publicar nossos
textos, colocamos a condição de que convidasse o IPCC
para escrever um artigo a título de resposta. Ela aceitou,
e creio que o Grupo também.
* O autor é editor da IPS.
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