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Puebla, a hora da verdade |
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Por Germán A. de la Reza*
O ponto mais sensível das negociações
da Alca, que começam nesta segunda-feira na cidade mexicana
de Puebla, é a definição do calendário
de liberalização alfandegária.
CIDADE DO MÉXICO.- A etapa final das
negociações da Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) começa nesta segunda-feira, na
cidade mexicana de Puebla, com as discordâncias mais importantes
ainda intactas, apesar das centenas de assessorias, mais de 600
dias de reuniões das comissões e de dois rascunhos
do tratado. Porém, embora ainda falte muito para conseguir
consensos essenciais, é altamente provável que o acordo
final se ajuste às posições da delegação
dos Estados Unidos, devido ao bilateralismo implícito do
processo, que desde o início estimulou a relação
separada de cada Estado com Washington.
Talvez, o ponto mais sensível da agenda
de Puebla, que continuará até o final de 2004 - com
a perspectiva de que a Alca entre em vigor em 2005 - seja a definição
do calendário de liberalização alfandegária.
Os Estados Unidos consideram que deveria haver três etapas
(zero, cinco e dez anos), com substancial redução
após os primeiros cinco anos. A maioria dos países
da América Latina, porém, defende prazos de dez ou
mais anos para a erradicação das tarifas alfandegárias.
O desacordo, na verdade, ocorre em torno da diferença entre
a média das tarifas dos Estados Unidos (1,1% sobre as importações
procedentes da América Latina) e 25% das economias latino-americanas
consideradas pequenas, cujas tarifas freqüentemente ultrapassam
os 10% e representam de 20% a 60% do total de sua arrecadação
fiscal.
Apesar dos riscos de tornar vulneráveis
as indústrias latino-americanas e de exacerbar os desequilíbrios
fiscais da região, o calendário não poderá
afastar-se muito da proposta norte-americana. Tal como foi desenhada
a Alca, a liberalização alfandegária representa
a essência do projeto e, ao mesmo tempo, uma das grandes prioridades
dos Estados Unidos. A escolha de um calendário mais elástico
teria o inconveniente de não oferecer vantagens comerciais
muito superiores às da Organização Mundial
do Comércio (OMC), cujas negociações acontecem
de maneira paralela às discussões da Alca, ou então
que essas vantagens se desfaçam rapidamente.
No ríspido capítulo agrícola
as discordâncias concentram-se em três temas: subsídios
no âmbito hemisférico, produtos subvencionados de terceiros
países e o tratamento dos setores sensíveis. O mais
importante é, sem dúvida, a política de subsídios,
sobre a qual os Estados Unidos (país que destina a esse instrumento
0,9% de seu PIB) e o Brasil (um dos principais exportadores de produtos
protegidos pelos Estados Unidos) discordam. Embora o Brasil e outros
países tenham condicionado suas presenças na Alca
à erradicação dos subsídios, é
pouco provável que possam evitar o traslado dessa questão
para a OMC, como pede Washington, por várias razões.
Primeiro, pela oposição exercida
pelos grupos de pressão norte-americanos, sobretudo do Estado
da Flórida, prejudicados pela liberalização
agrícola norte-americana. Em segundo lugar, pelas implicações
globais do tema: embora os Estados Unidos subvencionem sua produção
agrícola em 23%, a União Européia o faz em
40% e o Japão em 60%. Assim, Washington evitará levar
à OMC uma concessão realizada no âmbito hemisférico,
sem ter conseguido contrapartidas européias. E, em terceiro,
porque a capacidade negociadora do Brasil - importante pela dimensão
de sua economia e por seu papel na obtenção de consensos
(é co-presidente, junto com os Estados Unidos, da última
fase do processo) - tem um calcanhar de Aquiles: sua única
alternativa frente à rejeição norte-americana
seria sair das negociações, com custos elevados caso
o faça sozinho.
Outro ponto de indefinição da
Alca, que requer uma resposta clara da reunião de Puebla,
é o tratamento que será dado às pequenas economias,
que somam cerca de 25 das 34 participantes do processo. Propõe-se
a criação de mecanismos de cooperação
econômica que preparem o caminho para a colocação
em prática dos acordos hemisféricos. Dependendo de
sua cobertura, volume e permanência como instrumento de coesão,
a cooperação econômica é insubstituível
para facilitar a adaptação latino-americana à
estrutura de preços norte-americana, bem como aos novos equilíbrios
fiscais. Em sua versão otimista, poderia, inclusive, prevenir
o aumento da distância entre os países ricos e pobres
do hemisfério, e que a Alca se constitua em um mero instrumento
para facilitar os negócios norte-americanos, cenário
para o qual parecemos caminhar atualmente.
* Direitos reservados da IPS. O autor
é especialista em Alca e catedrático de Integração
Econômica no México.
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