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Artigo


Uma guerra que pode apagar a história

Por Diego Cevallos*

O Iraque, assentado sobre a cunha da civilização ocidental, possui dez mil sítios arqueológicos, com inumeráveis segredos por decifrar. Especialistas temem que a guerra acabe com muitos deles para sempre.

MÉXICO.- Quando acabar a guerra anglo-norte-americana contra o Iraque, especialistas em patrimônio terão a amarga tarefa de constatar se bombas e mísseis destruíram vestígios de uma história milenar, cunha da cultura ocidental. Desde 20 de março, milhares de bombas caem sobre a terra identificada pela tradição como o Jardim do Éden bíblico e lugar de partida do profeta Abraão em busca da Terra Prometida. Ali, onde ainda há restos da Torre de Babel, criou-se a escrita, foram inventados a roda e o vidro, e desenvolveu-se a matemática e outras ciências legadas ao Ocidente.

“Não se está combatendo perto de qualquer lugar importante, mas sobre o mais rico e extraordinário patrimônio cultural do planeta”, disse ao Terramérica o arqueólogo Nicolo Marchetti, especialista em Oriente Médio e Catedrático da Universidade de Bolonha, na Itália. Bombas e mísseis caem sem cessar sobre palácios de governo, ministérios e edifícios públicos de Bagdá, e outras cidades perto do Rio Tigre, que alimentou as civilizações fundadoras do Ocidente: assíria, babilônica e suméria. Por aparente erro, os bombardeios atingem mercados, hospitais e até uma maternidade na capital iraquiana. Não há nada que indique que o patrimônio histórico não acabe afetado também.

Estima-se que o território iraquiano abriga dez mil sítios com restos arqueológicos contendo peças e construções ainda por investigar e inumeráveis segredos a serem desvendados. Muitos tesouros culturais estão em Mosul, Nassíria e Tikrit, três cidades fortemente bombardeadas pela aliança invasora. No início da ofensiva, funcionários iraquianos apressaram-se em construir barricadas ao redor do Museu Nacional do Iraque, onde estão as mais antigas tábuas cuneiformes (com a primeira escrita do mundo) e a maior coleção de peças da Mesopotâmia que datam de seis mil anos atrás. Mas, isso pode ter pouca importância, pois está no central distrito Salihyia da capital iraquiana, a apenas 700 metros do edifício da chancelaria que foi bombardeado. E será um milagre se não for arrasado nesses dias.

“A guerra é a guerra e muitas coisas podem acontecer em torno desse sítios”, disse ao Terramérica McGuire Gibson, professor da Universidade de Chicago e considerado a máxima autoridade norte-americana em arqueologia da Mesopotâmia. Antes de 20 de março, quando começaram os bombardeios, Gibson e outros destacados especialistas reuniram-se com funcionários do Pentágono para informar-lhes sobre os sítios culturais mais valiosos do Iraque. O Pentágono tinha uma lista de 150 sítios importantes. Os acadêmicos entregaram uma com mais de quatro mil e insistiram em que era apenas uma porcentagem do patrimônio cultural iraquiano. Mas, agora, isso parece não ter importância. Há 12 anos, na Guerra do Golfo, os Estados Unidos também contaram com evidências sobre essas riquezas, mas isso não evitou sua destruição parcial.

Na linha de fogo estão cidades lendárias. Por exemplo, Mosul, bombardeada intensamente para destruir rampas de lançamento de mísseis iraquianos. Nela está a mesquita Nur ad-Din, construída em 1170. Muito próximo estão os restos da antiga cidade assíria de Nínive, o maior sítio arqueológico de todo Oriente, com 750 hectares, e também Nimrud, com seus belos palácios, como o do rei Ashurnasirpal II. A lista é extensa e os achados valiosos são permanentes nesse país, que também é cunha da civilização do Oriente. Os especialistas advertem que as bombas podem cair sobre muitos lugares de grande valor histórico. E, se de todo modo isso não acontecer, serão vulneráveis ao saque, afirmou o professor Gibson.

“Testemunhas distantes”

Enquanto a guerra continua, historiadores, arqueólogos e especialistas em cultura antiga sentem-se de mãos atadas. “Agora, somos testemunhas distantes do que ocorre”, afirmou ao Terramérica o vice-diretor de Cultura do Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Mounir Bouchenaki. A agência prepara um grupo de trabalho que viajará ao Iraque uma vez terminada a guerra. As únicas armas da Unesco para proteger o patrimônio histórico mundial são os compromissos firmados por vários países, que não incluem mecanismos coercitivos para seu cumprimento.

Bouchenaki espera que as partes em conflito respeitem a Convenção sobre a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, em vigor desde 1956, produto da devastação artística que a Segunda Guerra Mundial causou na Europa. “Todo mundo tem interesse em proteger as obras de arte, porque, inclusive do ponto de vista da propaganda, ninguém gostaria de ser apontado com o destruidor dessas obras”, disse ao Terramérica Miguel Ángel Elvira, diretor do Museu Arqueológico da Espanha. Ele acredita que os militares norte-americanos não tentarão destruir “elementos que evocam a tradição cristã do Ocidente”.

O arqueólogo Marchetti mostra-se menos otimista. “Tenho a impressão de que o prejuízo já é generalizado e que, francamente, nada se pode fazer”, lamentou. “A guerra tem sua lógica e segue seu próprio caminho”, acrescentou. Antes da Guerra do Golfo de 1991, os especialistas coincidiam em reconhecer que o Iraque tinha um invejável recorde na preservação de suas antigüidade e herança cultural. Mas, depois da guerra, a perspectiva mudou. Esse conflito, em que uma coalizão militar liderada pelos Estados Unidos forçou a retirada iraquiana do vizinho Kuwait, centrou-se em bombardeios e não na entrada maciça de tropas rumo ao coração do Iraque.
Entretanto, os danos ao patrimônio histórico alarmaram o mundo da cultura. As bombas destruíram as milenares pontes de Bagdá e danificaram seriamente edifícios históricos dessa cidade, como a Mustansiriya do século XII, a mesquita de Kaplannya e o Museu Arqueológico do Iraque, um dos mais importantes do mundo.

Estabelecido o cessar-fogo, os danos e os saques a museus e bibliotecas se multiplicaram, em conseqüência de conflitos internos. A Direção Geral de Antigüidades do Iraque informou que 13 museus foram gravemente afetados pela guerra. Nove deles necessitavam de restauração e o resto de reconstrução. Seis bibliotecas foram destruídas. Além disso, cinco museus foram completamente saqueados e outros quatro de forma parcial.
Quase a totalidade das peças tiradas do Iraque - tábuas de argila, marfins, utensílios de metal, manuscritos islâmicos coloridos, jóias, moedas de ouro e prata, estátuas, cerâmica e esculturas em pedra e marfim - foram parar no mercado clandestino de obras de arte. Em 1994, especialistas de todo o mundo, incluindo vários dos Estados Unidos, reunidos em Bagdá, lamentaram o dano ao patrimônio histórico e disseram que devido à guerra foram tirados dos museus iraquianos pelo menos 3.500 peças previamente catalogadas. Resta esperar um relatório mais dramático, quando se reunirem novamente depois desta guerra, muito mais cruenta e destrutiva.

* O autor é correspondente da IPS. Com a colaboração de Carla Maladonado (Itália), Haider Rizvi (Estados Unidos) e Lidia Hunter (Espanha).


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Enlaces Externos

Unesco: Iraque, patrimônio em perigo

Museou Nacional do Iraque: notícia de sua reabertura em 2000

Declaração aberta sobre o perigo para o patrimônio cultural no Iraque

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