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Analisis


Contra os soviéticos vivíamos melhor

Por Ignacio Ávalos Gutiérrez*

"O pior desta guerra é que estabelece o precedente da ação unilateral de Washington e deixa em evidência que não há freio que o contenha", disse este analista. Para evitar este tipo de ações no futuro será necesario reconstruir a ONU.

CARACAS.- Quem entra - oh! maravilhas da Internet - na página da Casa Branca (www.whitehouse.gov) começa a compreender melhor algumas coisas sobre a guerra no Iraque e o colapso do ditador. Porque as peças se encaixam e os pretextos se dissipam. Tudo consiste em ter suficiente paciência para suportar uma redação difícil e ler, ainda que seja aos trancos, “Estratégia de Segurança Nacional para os Estados Unidos da América”, uma série de idéias conhecida como Doutrina Bush que, na verdade, se deve mais aos neurônios dos que integram seu círculo político íntimo do que às suas próprias idéias.

Ali está, moldada e abençoada, a tese da guerra preventiva, segundo a qual, e sem necessidade de muitas firulas jurídicas, justifica-se uma guerra onde e quando decidir o presidente norte-americano, se este considerar que paira alguma ameaça sobre os interesses de seu país. Muitos dizem, com razão, que na prática essa é a tese da guerra permanente contra tudo no planeta. Se não nos querem, pelos menos que nos temam, pensa Bush, imitando todos os impérios que já existiram na história.

Além disso, fica assinalado que a liderança norte-americana é boa para todos, fundamentada como está na mescla de seus legítimos interesses econômicos e políticos e suas justas intenções para com o resto do mundo. O corolário é a necessidade - obrigação moral? - de propagar a boa nova do “american way of life”, um pacote pronto para ser aplicado, ignorando o contexto cultural, em função de um certo messianismo evangélico que o faz contar, além de tudo, com a benção de Deus.

Portanto, o atual governo dos Estados Unidos acredita nas vantagens da coalizão ideológica, graças à qual o mundo será único, segundo demonstra a aceitação progressiva do “fast food”. Dessa maneira, esta guerra santa (e petrolífera) contra o Iraque, disfarçada de luta contra um ditador que em outros tempos foi aliado indispensável, é, apenas, o segundo capítulo do livro bélico que começou há pouco com o episódio do Afeganistão.

Muitos temem que a principal baixa deste conflito seja a Organização das Nações Unidas. Entretanto, apesar de suas limitações e pouca eficácia em certos casos graves, a ONU desempenha um papel positivo e, portanto, o atropelo sofrido por parte dos Estados Unidos ameaça nos deixar sem estruturas para a arbitragem de conflitos. Justo agora, quando a globalização multiplica as necessidades de mediação nos grandes assuntos políticos, econômicos, ambientais e culturais.

No tocante à garantia do direito internacional, o papel da ONU tem sido patético ao longo da crise atual. O pior desta guerra é que estabelece o precedente da ação unilateral de Washington e deixa evidente que não há limite que a contenha (contra a ex-União Soviética vivíamos melhor, poderíamos dizer com certa melancolia).

Assim, pareceria que corremos o risco de, passado o conflito com os iraquianos, a Organização vá perdendo força até converter-se em um vaso chinês, inútil, não importando o quanto vistoso seja. Por outro lado, não descartemos que seja privatizada, algo próprio da época do pensamento único e que, então, apenas as nações que pagarem uma taxa poderão contar com os serviços de um tribunal de arbitragem e com uma força militar de apoio em caso de litígio.

A reconstrução do Iraque é assunto urgente (além de bom negócio, dizem), ninguém duvida. Lamentavelmente, fala-se pouco da reconstrução da ONU, processo necessário para evitar que a Doutrina Bush substitua, como se pretende, o direito internacional. Não reconstruir a ONU é deixar a porta aberta para que cada país proceda militarmente, levando em conta apenas o tamanho de seu exército e o arsenal de seus mísseis, sem necessidade de alegar mais nada além da suspeita de uma má intenção.

Estamos, portanto, no umbral de uma grande derrota para a civilização e qualquer semelhança com a selva é pura coincidência.

* O autor é colunista, acadêmico e ex-ministro de Ciência e Tecnologia da Venezuela. Direitos reservados Terramérica.




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