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Um crime de lesa cultura |
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Por Redação Terramérica*
MÉXICO.- As piores previsões sobre as conseqüências da guerra para a preservação do imenso legado cultural que o Iraque tem abrigado ao longo de sete mil anos de história aconteceram. Porém, mais do que as milhares de bombas e mísseis lançados por Estados Unidos e Grã-Bretanha sobre o país árabe, foram cidadãos iraquianos que roubaram ou simplesmente destruíram objetos de valor incalculável da história do Iraque, enquanto as tropas de ocupação contemplavam o espetáculo impassíveis. As primeiras avaliações indicam que teriam sido saqueadas ou quebradas em mil pedaços entre 50 mil e 170 mil peças, algumas com milhares de anos de antigüidade, no valor de milhares de milhões de dólares.
No dia 13 de abril, tropas norte-americanas começaram a prender supostos saqueadores em Bagdá, como primeiro passo para impor ordem ao caos que reinava na capital e principais cidades do Iraque depois da queda do regime de Saddam Hussein. Também aconteceram as primeiras manifestações de civis iraquianos reclamando que as Forças Armadas de ocupação colocaram em operação plantas petrolíferas enquanto mantinham sem funcionar instalações de serviços vitais como água e eletricidade. “Protegem o petróleo e se esquecem das universidades, hospitais e lojas”, dizia um cartaz carregado por manifestantes.
Enquanto persistiam os saques e a insegurança derivada de ajustes de contas, conturbando Bagdá, Kirkuk e Mosul, no norte, Basra, no sul, e Al Kut, no sudeste da capital iraquiana, o exército norte-americano iniciava operações de controle da ordem. Muito tarde.
A Biblioteca Nacional de Bagdá havia sido depredada e incendiada no dia 13, e continuou fumegando 48 horas depois. O chamado Palácio da Sabedoria abrigava tesouros de valor incalculável desde sua construção, há 42 anos. Cerca de um milhão de documentos - livros, mapas, fotos, microfilmes e arquivos que incluíam antigos exemplares do Corão e o primeiro periódico editado no Iraque em 1869, em língua persa - foram roubados ou queimados da Biblioteca, que recebia diariamente cerca de cem estudantes e pesquisadores.
Essa tragédia cultural ocorreu dois dias depois de saqueado o famoso Museu Nacional do Iraque, que possuía coleções sumérias, acádias, babilônicas e assírias, além de obras islâmicas únicas, desaparecidas talvez para sempre. Na Guerra do Golfo, em 1991, foram saqueados os museus regionais e perdeu-se cerca de quatro mil objetos, dos quais menos de dez foram recuperados depois do cessar-fogo, recordam especialistas.
Imagens de vitrines quebradas, pedaços de vidros e resto de vasilhas de cerâmica espalhados pelo chão mostram, nos últimos dias, uma desolada e dramática destruição de tesouros da cunha da civilização ocidental. Recipientes de ouro, máscaras rituais, toucadores reais, liras incrustadas de jóias e artefatos inestimáveis da antiga Mesopotâmia foram roubados do museu, inclusive em pequenas carretas, segundo a imprensa.
Foi inútil o esforço de responsáveis do museu, que antes do início da guerra embalaram peças com a esperança de protegê-las durante a campanha de bombardeios anglo-norte-americanos: sótãos e porões foram violados pelos ladrões.
“Agora, somos apenas testemunhas distantes do que ocorre”, havia admitido em entrevista ao Terramérica, dias antes da queda do regime iraquiano, o vice-diretor de cultura do Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Mounier Bouchenaki. “Esperamos que haja sensibilidade por parte dos militares diante do valor da memória histórica dos iraquianos”, afirmou. Seus pedidos, bem como o de especialistas em arqueologia de todo o mundo, não foram ouvidos.
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