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A geração da guerra

Por Francesca Colombo*

As crianças iraquianas têm um medo “inato”, dizem especialistas. Os traumas provocados pela segunda guerra do Golfo deixarão mais feridas profundas.

ROMA.- Mahadi, de 15 anos, e seu irmão Fadel, de cinco, caminhavam por uma rua da aldeia de Hilla, ao sul de Bagdá, quando foram surpreendidos por um bombardeio. O pequeno pulou para o colo de Mahadi, mas fragmentos da explosão acertaram suas costas. Ele morreu nos braços do irmão, enquanto este corria desesperadamente para um hospital. Mahadi sobreviveu às bombas durante o ataque que os Estados Unidos iniciaram contra o Iraque no dia 20 de março, mas ainda não pode considerar-se a salvo.

Por ele espera - como por centenas de meninos e meninas iraquianas - um tortuoso caminho de recuperação interna para livrar-se de pesadelos, temores e angústias. “O impacto psicológico será grande, bem como o estresse causado pelos bombardeios e a perda dos familiares. A família é a base do contexto psico-dinâmico em que as crianças crescem e se desenvolvem”, explicou ao Terramérica o diretor técnico da Organização Mundial da Saúde (OMS) na Europa, Roberto Bertolini.

Um estudo canadense, feito depois da Primeira Guerra do Golfo (1991), conduzida pelos Estados Unidos e uma coalizão de 34 países para expulsar o Iraque do vizinho Kuwait, deixou sentimentos de medo muito arraigados em meninos e meninas, especialmente de cinco, sete e 11 anos, que têm vivido constantemente atemorizados. “Eles têm distúrbios do sono e se comportam de uma maneira mais infantil, não podem se concentrar e isso dificulta o aprendizado. Ficam deprimidos e vivem com uma tristeza permanente”, afirma Fabio Sbattella, docente de psicologia da Universidade Católica de Milão.

Alí tinha três anos quando seu pai morreu na Primeira Guerra do Golfo. Durante quatro anos visitou o túmulo do pai para pedir-lhe: “Levante, porque as pessoas que te fizeram mal já se foram”. Essas crianças “não têm forças para brincar, nem imaginação, nem vontade de fazer nada. Sonham que os soldados entram em suas casas e levam seus pais”, contou ao Terramérica o socorrista Antonello Saccetti, da ong Salvemos as Crianças, que trabalha no Iraque desde 1991.

O Iraque é um país jovem. A metade de sua população, de 12 milhões de pessoas, tem menos de 18 anos. Os menores de cinco anos somam 3,5 milhões. Como em outras 32 nações, o país tem as piores condições de vida para a infância. Assim indicam os dados da OMS e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef): uma em cada oito crianças morrem até os cinco anos, um terço da população infantil sofre de má nutrição, um quarto nasce com baixo peso, um quarto não tem acesso a água potável.

Mohammede não esquece o terror que sentiu quando bombas e mísseis britânicos e norte-americanos caíram sobre Bagdá, em março. Sua família reuniu-se em um único cômodo e não se separou um só instante, pois se a morte chegasse queriam todos estar juntos. Ele ainda não consegue dormir tranqüilo. Em seus pesadelos escuta as sirenes antiaéreas. Semanas antes do ataque norte-americano, um grupo da Caritas International visitou o Iraque e recolheu impressões de jovens e crianças sobre a guerra. A metade deles admitiu que pensava na morte.

Ziad tem 17 anos e faz parte da “geração da guerra", como a chamam os psicólogos iraquianos. A Primeira Guerra do Golfo mudou repentinamente sua vida e a de seus dois irmãos. O pai morreu, a mãe ficou doente e morreu depois de oitos meses. Sem outros parentes, seu destino foi um orfanato. Uma pesquisa feita, em dezembro de 2002, por uma equipe norueguesa especializada em traumas infantis, garante que meninos e meninas iraquianas têm um medo “inato” e sentem-se “continuamente em perigo”.

Aqueles que sofreram ferimentos graves ou ficaram incapacitados são os mais afetados. “Para eles é muito mais difícil a recuperação, mas não impossível”, afirmou o diretor do Unicef na Itália, Robert Salvan. A maioria supera estes horrores depois de vários anos, mas outros talvez permaneçam traumatizados toda a vida. “Durante os primeiros meses parece que tudo estava normal, depois desse tempo surgem os sinais de distúrbios. Em três anos podem curar-se, mas 20% permanecem com ansiedade e recordações por muitos anos”, afirmou Sbattella.

Parte da recuperação é um conjunto de ações que satisfaça as necessidades básicas. “É preciso reconstruir o tecido social, identificar parentes que possam cuidar das crianças, criar melhores situações nas escolas, porque isso minimiza o impacto. Trata-se de uma das tarefas prioritárias no processo de reconstrução do Iraque”, afirmou Bertolini.

* A autora é colaboradora do Terramérica.


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Enlaces Externos

OMS: Especial sobre o Iraque

Salvemos as Crianças

Unicef: Iraque

Caritas International: Iraque (em alemão)

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