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Artigo


A SRAS chegou para ficar

Por Diego Cevallos*

Ainda não há vítimas fatais, mas já são sentidos os primeiros estragos econômicos da enfermidade na América Latina: baixou o preço do cobre chileno e caíram as vendas de frango brasileiro.

MÉXICO.- Os aeroportos da América Latina e do Caribe começam a ser povoados por batas brancas de médicos, enquanto multiplicam-se os olhos vigilantes sobre os passageiros para evitar a entrada da Síndrome Respiratória Aguda Severa (SRAS). Porém, a enfermidade já chegou à região, e para ficar.

Agora, é crucial que os sistemas de controle funcionem e consigam limitar a propagação da também chamada pneumonia atípica, segundo os especialistas. Mas esta intenção choca-se com o desconhecimento generalizado sobre a doença. Até agora, nenhum governo latino-americano iniciou campanhas maciças de informação sobre o vírus e suas formas de contágio, segundo os correspondentes do Terramérica na região.

Essa doença infecciosa, contra a qual ainda não há tratamento, afetou 5865 pessoas em 30 países, duas delas no Brasil, único país da região com casos de SRAS, informou, em 1º de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em Cuba, Guatemala, Peru, México e Venezuela foram registrados, até o fim de abril, mais de 20 casos suspeitos da doença, mas nenhum foi confirmado. O Canadá é o único país americano onde houve mortes: 20 das 391 ocorridas desde o primeiro caso registrado na província chinesa de Guandong.

No geral, América Latina e Caribe estão fazendo o correto para enfrentar a SRAS, mas a possibilidade de que não chegue a vários países é inexistente, disse ao Terramérica Joaquín Molina, representante da Organização Pan-Americana de Saúde (OPS), no México. A enfermidade provavelmente ficará na região por muito tempo, acrescentou.

A pneumonia atípica é causada por um tipo de coronavírus e levará cerca de três anos até que se obtenha uma vacina, segundo os cientistas. O diretor de Epidemiologia do Ministério da Saúde do México, Pablo Kuri, reconheceu como inevitável a chegada do vírus ao seu país. O desafio é isolá-lo e limitar sua propagação, como fizeram alguns países da Europa.

A maioria das medidas adotadas para evitar a chegada da SRAS na América Latina e no Caribe, cujos vizinhos Canadá e Estados Unidos acumulam 201 casos, concentram-se nos aeroportos, embora com limitações. Os governos dão ênfase nas exortações para que não se viaje para regiões onde a doença tem alta incidência, especialmente a China, onde os casos estão em torno de 3638, com 170 mortes.

Vários países latino-americanos dispõem de áreas especiais em hospitais para isolar os doentes, enquanto as autoridades de saúde orientam seu pessoal sobre a enfermidade, de contágio bastante fácil quando se interage com um portador.

É o caso do Peru, onde as autoridades reservaram um espaço ventilado e asséptico, com 20 camas, no hospital Daniel Carrión, o mais próximo do aeroporto de Lima. O governo garante que existe “um modelo peruano” para evitar a entrada da SRAS, mas médicos do Ministério da Saúde e do departamento de saúde do aeroporto da capital afirmam desconhecê-lo. “O nível de consciência sobre a doença é mínimo” no Peru, disse ao Terramérica a médica Lucrécia Magallanes.

A Guatemala é um dos poucos países onde há controles rígidos nos aeroportos. Inclusive, muitos viajantes se queixam dos interrogatórios e da vigilância. Francisco Ardón, chefe de Epidemiologia do Ministério da Saúde, desqualificou tais queixas e assegurou que o pessoal se preocupa em “não incorrer em atos que possam ser considerados perseguição contra cidadãos”. Porém, na fronteira da Guatemala com o México é mantido um fluxo desordenado e quase sem vigilância de emigrantes ilegais, muitos deles asiáticos, que viajam para os Estados Unidos.

Em um mundo com tanto movimento de pessoas é muito difícil controlar a entrada de qualquer enfermidade, reconheceu Molina, da OPS. As principais medidas preventivas diante da SRAS, que se manifesta com febre alta, tosse e dificuldade respiratória, são lavar as mãos, evitar contato com doentes e usar máscara cirúrgica.

A situação brasileira não difere da que se encontra no resto da região. Embora o governo tenha anunciado medidas como distribuição de formulários aos passageiros nos aeroportos, para saber nome, procedência, vôo e endereço onde permanecerá no Brasil, grande parte dos viajantes não chega a devolvê-la preenchida. Embora a OMS assegure que no Brasil foram registrados dois casos de SRAS, médicos brasileiros afirmam que se trata apenas de prováveis doentes.

Depois de manter por várias semanas apenas um médico no aeroporto da capital, distribuindo folhetos com informações sobre a enfermidade, as autoridades mexicanas decidiram destinar essa tarefa a 20 profissionais. Nos salões das aduanas, pessoal de migração cuida de observar todos os passageiros que chegam para saber se algum está resfriado. Além disso, foi estabelecido o isolamento temporário dos viajantes procedentes da Ásia, como ocorreu com uma equipe de treinadores de vários esportes, procedentes da China.

Gerentes de hotéis no México negaram-se a hospedar turistas e empresários procedentes de países asiáticos. O governo garante que aplica controles especiais em fronteiras e portos, mas os médicos enviados para essas regiões, como na fronteira com a Guatemala, negam que tais medidas estejam em vigor e, inclusive, queixam-se da falta de apoio.

Por sua vez, o governo venezuelano ordenou às empresas aéreas a limpeza dos aviões com água, sabão, cloro e álcool, enquanto em Cuba foram reforçados os sempre rigorosos controles aduaneiros e sanitários dos aeroportos.

Em nenhum dos países da região há equipamentos para detectar a doença. Por isso, vários governos estabeleceram acordos com centros científicos dos Estados Unidos para o envio de amostras de sangue e urina dos possíveis infectados.

Todas estas medidas são mínimas comparadas com as implementadas em países asiáticos e europeus, onde alguns aeroportos contam com equipamentos para medir a temperatura dos viajantes. O Banco Mundial estima que a SRAS custará, apenas na Ásia, US$ 15 bilhões este ano, enquanto de acordo com a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a demanda de petróleo na Ásia já caiu em 300 mil barris diários, devido à redução da atividade aérea.

Na América Latina também são sentidos os efeitos econômicos provocados pela enfermidade. Os negócios mexicanos com a Ásia alteraram-se a tal ponto que empresários suspenderam contatos diretos com seus colegas e cancelaram viagens a feiras comerciais. Além disso, autoridades decidiram que a negociação de um tratado de livre comércio com o Japão terá prosseguimento nos próximos meses através de negociações eletrônicas.

O Brasil também adiou viagens com fins comerciais e econômicos. Também o Chile ressentiu-se dos efeitos da doença ao baixar o preço de suas exportações de cobre para a Ásia, enquanto as vendas de frango brasileiro para essa região caíram acentuadamente.

“A SRAS estará entre nós por um bom tempo. Falta muito por fazer para erradicá-la”, afirmou Henk Bekedam, um dos representantes da OMS na China. A América Latina e o Caribe, embora com precauções parciais, já estão na linha de combate da nova enfermidade.

* O autor é correspondente da IPS. Com as colaborações de Mário Osava (Brasil), Humberto Márquez (Venezuela), Dalia Acosta (Cuba), Abraham Lama (Peru) e Jorge Alberto Grochembake (Guatemala).


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Enlaces Externos

OMS: SRAS

OPS: SRAS

Direção Geral de Epidemiologia do México

Ministério da Saúde do Brasil

Escritório Geral de Epidemiologia do Peru

Ministério da Saúde da Venezuela: SRAS

Ministério da Saúde da Guatemala

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