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Doentes questionam curtume na Argentina

Por Marcela Valente*

A empresa Arlei está sendo acusada de lançar resíduos tóxicos no meio ambiente na província de Santa Fé. Seus porta-vozes evitam dar declarações.

BUENOS AIRES.- Moradores da cidade de Las Toscas, na província argentina de Santa Fé, esperam para este ano a sentença definitiva sobre um litígio iniciado contra um curtume acusado de lançar resíduos tóxicos no meio ambiente. A demanda, encabeçada por 150 pessoas afetadas, foi apresentada em julho de 2001 contra o curtume Arlei e já recebeu sentenças favoráveis em primeira e segunda instâncias. Falta agora o pronunciamento do Supremo Tribunal de Justiça, disse ao Terramérica o advogado dos queixosos, Santiago Kaplun. A Justiça suspendeu um embargo preventivo sobre a propriedade, à espera da sentença final.

Instalada em 1990, o curtume Arlei é a empresa mais importante de Las Toscas, no norte de Santa Fé. Emprega cerca de 1,2 mil funcionários, em um centro urbano de dez mil habitantes e é das primeiras exportadoras de couro do país. Em 1998, a empresa solicitou um crédito de US$ 6 milhões da Corporação Interamericana de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento para ampliar sua produção. Mas o empréstimo foi condicionado à assistência e construção de uma usina de tratamento de águas residuais para evitar o despejo de cromo no meio ambiente, que foi inaugurada em 2000.

Consultados pelo Terramérica, porta-vozes da companhia não quiseram comentar o assunto. Disseram que não haveria declarações “enquanto a controvérsia estiver tramitando na Justiça e esta não se manifestar através de uma sentença”. Segundo estudos feitos pela organização ambientalista Greenpeace, a proporção de cromo nos resíduos líquidos da fábrica eram 30 vezes superiores à media de efluentes similares antes da instalação da usina. As mostras de efluentes industriais, dejetos sólidos e sedimentos associados foram tomadas em maio de 2000 e enviadas à universidade britânica de Exeter, onde foi analisada, ficando comprovada sua elevada toxicidade, explicou ao Terramérica a ativista Verónica Odriozola, do Greenpeace.

Vincula-se a essa elevada concentração de cromo, que pode chegar à água usada para consumo humano infiltrando-se através das camadas subterrâneas, o surgimento de câncer e má-formações genéticas. Também provoca irritação nas mucosas, na vista e na pele, e doenças respiratórias. O limite tolerável para o organismo humano está estabelecido em cinco microgramas de cromo por litro de sangue. Em Las Toscas, foram registrados moradores com mais de 130. A chefe do Laboratório de Toxidade do Hospital Cullén, Elisa Kacsán, referiu-se a 32 casos analisados, 24 deles com níveis superiores ao máximo aceitável.

Entre as pessoas afetadas pelo cromo e por fenóis, substâncias utilizadas no processo para curtir o couro, há três grupos de queixosos que reclamam da Arlei indenizações de US$ 15 milhões, afirmou o advogado Kaplun. Primeiro estão os familiares de pessoas que morreram de câncer, a maioria meninos e meninas de oito a 14 anos, cuja origem pode vincular-se diretamente à poluição. Uma das queixosas é Nora Mancini, mãe de uma adolescente de 14 anos que morreu de leucemia em 2000. “Em março, estávamos preparando sua festa de 15 anos, mas ela ficou doente. Foi diagnosticada leucemia e um mês depois morreu”, contou ao Terramérica.

Outro grupo “são os que sofrem de câncer, ou manchas na pele, prurido, asma e outras afecções, e que necessitam de tratamentos caros”, disse ao Terramérica o presidente da Associação de Meio Ambiente do Norte de Santa Fé, Roque Cirmi. Finalmente, há os “contaminados”, cujas análises mostram um grau elevado de cromo e fenóis na urina e no sangue, embora sem sintomas.

O governo provincial considera que os indicadores de poluição são contundentes, mas resiste em associar o fenômeno ao funcionamento do curtume. Enquanto isso, os moradores continuam se queixando do mau-cheiro e irritação na pele e na garganta.

* A autora é correspondente da IPS.


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Arlei

Greenpeace Argentina

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