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Um perigoso mergulho |
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Por Gustavo González*
Os banhistas já não estão seguros nem nas mais belas praias da América Latina, por causa da poluição.
SANTIAGO.- De Acapulco até Viña del Mar, as mais belas praias da América Latina tornam-se inacessíveis aos banhistas por causa da poluição por diversas fontes, sobretudo pelo despejo de esgoto no mar. Trata-se de um fenômeno generalizado na região, que freqüentemente coloca frente a frente organismos sanitários e grupos ecologistas com autoridades locais e empresários, que buscam preservar a atividade turística. Acapulco, na costa mexicana no Pacífico, Cartagena de Índias, no mar colombiano do Caribe, e Viña del Mar, no Chile, estão entre essas praias.
Nem mesmo as praias do Rio de Janeiro, onde as autoridades optaram há dois anos por habilitar um balneário junto a um lago artificial. O Piscinão de Ramos, que ficou amplamente conhecido através da novela O Clone, foi construído para evitar que 130 mil moradores das favelas próximas continuassem se banhando nas poluídas praias da bela baía da Guanabara. Em Ramos e outras praias internas da baía, medições feitas entre 1998 e 2000 mostraram concentrações de quatro mil coliformes fecais para cada cem mililitros de água, quando o limite aceito internacionalmente é de mil destas bactérias.
Os esgotos são o maior inimigo das praias, mas a poluição também é causada por vazamentos de navios petroleiros, excesso de lixo arrastado pelas marés e, inclusive, acidentes naturais, como mortandade de peixes e aves marinhas. Em Viña del Mar, as autoridades garantem que as margens costeiras já não estão poluídas graças à construção nos anos 90 de um coletor que leva o esgoto mar adentro, e ao funcionamento de usinas de tratamento de líquidos no rio Aconcágua e outros cursos fluviais da região.
Os esgotos municipais são alvo de programas de tratamento e evacuação em Cartagena de Índias e em Acapulco, onde seu prefeito, Alberto López Rosas, do partido da Revolução Democrática, saiu em defesa de duas praias condenadas pelas autoridades sanitárias, banhando-se nelas. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) diz em um relatório que os esgotos municipais “foram identificados com uma das mais graves ameaças ao desenvolvimento costeiro em todo o mundo”.
Segundo o Pnuma, o valor econômico de bens e serviços proporcionados pelos oceanos é de US 23 trilhões ao ano, enquanto as doenças infecciosas que a água do mar poluída causa em banhistas e consumidores de mariscos têm impacto econômico anual estimado em US$ 10 bilhões. O problema ganha dimensões maiores na América Latina e no Caribe, onde 60% da população vive a menos de cem quilômetros do mar. Assim, a recuperação das praias surge como um trabalho comum na defesa das riquezas marinhas, o que requer incansáveis investimentos, sistemas de controle e campanhas de educação ambiental entre a população.
Rodolfo Lacy Tamayo, chefe de assessores do Ministério do Meio Ambienta do México, disse ao Terramérica que é fundamental sistematizar a informação sobre a qualidade das águas na costa para alertar os banhistas sobre os riscos para sua saúde. Quando esse ministério estabeleceu um cerco sanitário, às vésperas do feriado da Semana Santa, das praias de Tlacopanocha e Caletilla, em Acapulco, obteve a repulsa do prefeito, que considerou a medida exagerada e inapropriada, e também do arcebispo católico Felipe Aguirre Franco, que propôs jogar água benta no mar. Na Semana Santa, Acapulco recebeu cerca de 200 mil turistas, 8,6% a mais do que em igual período de 2002. Cinco milhões de visitantes chegam ao balneário por ano, disse o prefeito López Rosas.
O Centro de Pesquisas Oceanográficas e Hidrográficas de Cartagena de Índias afirmou em um relatório que a baía dessa cidade tem “altos níveis de poluição, sedimentação e deterioração ambiental generalizada", por causa do despejo de esgoto com resíduos orgânicos e combustíveis, óleo e fertilizantes de uso industrial. Porém, o prefeito local, Carlos Díaz, garantiu ao Terramérica que esses problemas são do passado, quando o sistema de coleta de esgoto da cidade ficou sobrecarregado com a construção de novos imóveis, e assegurou que hoje a situação “é excelente”.
Quase em toda a América Latina existem órgãos fiscalizadores das condições ambientais das praias. No Chile, esse trabalho cabe à comissão Conjunta da Faixa Costeira, integrada pela polícia de Carabineiros, Marinha e os respectivos municípios. Em novembro de 2002, dos 415 balneários examinados em todo o país oito foram fechados, por terem superado a norma dos mil coliformes para cada cem mililitros de água. Entretanto, alguns usuários consideram que o trabalho de desinfecção das praias não é rigoroso. “Há dois anos contagiei meu pé com uma bactéria de estafilococos em Viña del Mar. Tive de ficar de licença médica por dois meses”, conta Renato Moya.
As grandes praias turísticas do Rio de Janeiro, como Copacabana, Ipanema e Barra da Tijuca, não apresentam problemas graves de poluição por estarem em mar aberto, ao contrário do que ocorre no interior da baía da Guanabara, onde em 2001 o então prefeito Anthony Garotinho inaugurou o Piscinão de Ramos. A ativista ambiental Maria do Carmo Serra Lopes contou ao Terramérica que chorou de emoção ao ver a beleza do parque construído em volta do lago artificial em uma região da cidade onde brincava quando era criança. O piscinão, além de elevar a qualidade de vida dos pobres tem um efeito positivo na própria baía, onde os pescadores viram aumentar a população de peixes graças ao tratamento das águas que para lá voltam vindas do lago artificial.
* Com a colaboração de Yadira Ferrer (Colômbia), Pilar Franco (México) e Mário Osava (Brasil).
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