Reportajes
PNUMAPNUD
Edición Impresa
MEDIOAMBIENTE Y DESARROLLO
 
Inter Press Service
Buscar Archivo de ejemplares Audio
 
  Home Page
  Ejemplar actual
  Reportajes
  Análisis
  Acentos
  Ecobreves
  Libros
  Galería
  Ediciones especiales
  Gente de Tierramérica
                Grandes
              Plumas
   Diálogos
 
Protocolo de Kyoto
 
Especial de Mesoamérica
 
Especial de Agua de Tierramérica
  ¿Quiénes somos?
 
Galería de fotos
  Inter Press Service
Principal fuente de información
sobre temas globales de seguridad humana
  PNUD
Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo
  PNUMA
Programa de las Naciones Unidas para el Medio Ambiente
 
Artigo


A máfia apodera-se do tráfico de tóxicos

Por Francesca Colombo*

Cerca de 158 famílias do crime organizado na Itália se enriquecem traficando 35 milhões de toneladas de resíduos ao ano.

MILÃO.- Os negócios tradicionais ficaram pequenos para a máfia italiana, que se diversifica para um setor novo e promissor: o tráfico de resíduos tóxicos, perigoso para a saúde dos habitantes e o meio ambiente do país e que movimenta US$ 2,6 bilhões por ano. A Itália produz 80 milhões de toneladas de resíduos ao ano - entre lixo urbano e dejetos perigosos -, das quais 35 milhões estão nas mãos de organizações criminosas, como a “cosa nostra” da Sicília, “La ‘ndreghetta reggina” da Calábria, a “sacra corona” de Puglia, ou a “camorra” napolitana, encarregadas da coleta, armazenamento e reciclagem.

“É um problema complexo. Custa muito para as indústrias tratar seus resíduos, por isso aceitam ofertas de empresas dos traficantes, que são até 400 vezes mais baratas do que as demais”, explicou ao Terramérica Stefano Di Franco, comissário do Corpo Florestal de Roma, unidade policial especializada na proteção do meio ambiente.

Desenvolvida no século XIX no sul do país, a máfia movimenta US$ 78 bilhões por ano. Vive da extorsão, do contrabando e do tráfico de drogas. Também controla a prostituição, a imigração clandestina e o tráfico de órgãos, animais e armas, segundo o estudo “Crime e Dinheiro”, publicado em 2002 pela Universidade Bocconi, de Milão.

Seu dinheiro “sporco” (sujo) é lavado no sistema financeiro, no setor imobiliário - onde domina 60% das licitações públicas -, no comércio e na indústria. O crime organizado tem um pequeno exército à sua disposição: 1,5 mil chefes ou “padrinhos”, cerca de cem mil membros permanentes e 400 mil criminosos “contratados” ocasionalmente. E o lixo tóxico é um negócio em crescimento.

Este ano, o Corpo Florestal descobriu na cidade de Sicília que a petroquímica Enichem di Priolo despejava no mar dejetos com concentrações de mercúrio 20 mil vezes superiores ao limite legal. Dezoito pessoas foram detidas, 16 eram empregados da companhia e um era o funcionário público responsável pelo controle da Enichem. Esta companhia é parte do Instituto de Hidrocarburos Italiano (Eni), já envolvida em crimes ambientais. Em 1998, 30 mil toneladas de resíduos resultantes da fabricação de zinco de uma empresa química do grupo Eni foram enterradas em dois locais da Calábria, enquanto em outras regiões eram usados para pavimentar estradas rurais.

A “ecomafia”, formada por 158 famílias, utiliza várias maneiras para se desfazer de resíduos da indústria metalúrgica, pós químicos da siderurgia, transformadores com gases refrigerantes perigosos, como PBC, entre outros. Os traficantes falsificam certificados de modo que a carga perigosa se transforme em lixo domiciliar e alteram permissões de transporte para trasladá-los de uma região a outra e descarregá-los em canteiros de construção, parques naturais protegidos, rios, cavernas, escavações em montanhas, terrenos agrícolas e no mar.

“Não são resíduos tratados, nem descargas controladas. Simplesmente são depositados em buracos e cobertos com terra e pedras. Entram em contato com águas subterrâneas e mais tarde sobem para a superfície de diversas maneiras. O ciclo mortal termina quando usamos essa água contaminada para beber ou regar os campos onde se cultivam frutas e verduras", disse ao Terramérica Stefano Ciafani, da organização Ligambiente, a maior da Itália.

Na região napolitana de Caserta, no sul, onde a camorra domina o mercado de lixo tóxico, registrou-se aumento de 400% das patologias cancerígenas nos últimos cinco anos, segundo informe do Ministério da Saúde Pública. Nessa região, os resíduos são misturados com cimento para construir casas e com asfalto para pavimentação de ruas.

No ano passado, a operação policial Terra Verde estabeleceu que milhões de toneladas de lixo tóxico de algumas indústrias setentrionais foram trasladadas para regiões do centro e do sul, através da simulação de operações de tratamento de resíduos, camuflagem da carga como adubo e fertilizante, e falsificação de permissões de transporte. Em troca de dinheiro, 14 agricultores aceitaram que essas descargas fossem feitas em suas propriedades, onde há criação de gado leiteiro.

Embora o tráfico de dejetos sejam uma história velha, veio à luz em 1990 com as confissões de alguns mafiosos arrependidos. Na época, os grupos criminosos atuavam impunemente, pois as leis não castigavam esses delitos. “O que acontece na Itália não acontece em nenhum país do mundo. As organizações mafiosas são tipicamente italianas, a lei não castiga de maneira eficaz. Antes de abril de 2001, estes traficantes arriscavam-se menos do que alguém que rouba uma maçã, e só recebiam uma multa", disse Ciafani.

Neste mês entrou em vigor uma nova lei que tipifica com crime o tráfico de resíduos tóxicos e prevê penas de um a oito anos de prisão. O projeto foi patrocinado pela Ligambiente. Foi então que o Corpo Florestal e a Guarda de Finanças começaram investigações que permitiram desvendar parte da trama. Por exemplo, em Murgia, sul do país, foram enterrados, em quatro hectares, restos da indústria de peles da Toscana, lama de centrais de depuração de Lazio, resíduos siderúrgicos da Lombardia e Veneto, ambas no norte, e pneus triturados da meridional Campagna. Continham perigosos metais como níquel, cromo e chumbo. Segundo o Observatório Nacional de Resíduos, em 2001 desapareceram 11,6 milhões de toneladas de lixo perigoso.

No entanto, a máfia não age sozinha, pois conta com a cumplicidade de muitos funcionários públicos. Durante meses, os dejetos perigosos do município de Busto Arsizi, na Lombardia, permaneceram junto a resíduos urbanos de 27 prefeituras da região, sem que ninguém notasse nada. Em dezembro de 2002, a polícia detectou um negócio clandestino de coleta, transporte e eliminação de resíduos, com seis funcionários municipais e dois empresários da região envolvidos.

“A máfia une-se a poderosos de plantão dos níveis municipal, provincial e regional. Isto ocorre em todas as organizações criminosas do mundo. Hoje combatemos esse fenômeno e somos o único país que tem uma comissão parlamentar que o investiga. Não só um problema italiano, mas dos países industrializados que depositam seus dejetos nas nações pobres", disse ao Terramérica Paulo Russo, presidente da comissão parlamentar que investiga o ciclo de resíduos.

* A autora é colaboradora do Terramérica.




Copyright © 2007 Tierramérica. Todos los Derechos Reservados