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Artigo


Indígenas isolados enfrentam extinção

Por Diego Cevallos*

Os nativos da América do Sul que não desejam ter contato com a “civilização” enfrentam um genocídio cultural, adverte alto funcionário da ONU.

MÉXICO.- A retórica governamental e as leis garantem a existência dos povos indígenas isolados que sobrevivem nas selvas amazônicas do Brasil, Equador e Peru e no Chaco paraguaio, mas sua rota para a extinção parece já estar traçada. Os korubo do Brasil, tagaeri do Equador, ayoreo do Paraguai e mashko-piros, ashaninkas e yaminahuas do Peru, que em conjunto não somam mais do que cinco mil pessoas, suportam a pressão crescente de uma civilização” que avança sobre seus territórios. O que os nativos isolados enfrentam é um “verdadeiro genocídio cultural”, disse ao Terramérica Roberto Stavenhagen, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais. “Temo que nas circunstâncias atuais seja muito difícil que sobrevivam muitos anos mais, pois o chamado desenvolvimento nega o direito desses povos continuarem sendo povos”, afirmou.

Os nativos estão decididos a viver isolados e a não seguir o caminho da extinção física e cultural de outros povos indígenas. Isso os tem levado a matar diante da ameaça dos exploradores de borracha, madeira, petróleo, ouro e recursos genéticos. Também avançam sobre eles religiosos, antropólogos e empresários de turismo, e têm sido presa de assassinos, como ocorreu em maio na Amazônia equatoriana, quando uma dezena de tagaeris, dos menos de 300 que ainda sobrevivem, foram massacrados por indígenas huaoranis integrados ao Ocidente. Essa matança está relacionada com os interesses das empresas madeireiras em explorar territórios virgens.

Muitos destes grupos surgiram na história ocidental há menos de 60 anos, ao se registrarem fatos violentos em seus territórios e devido a tentativas empresariais de explorar suas riquezas. Inicialmente, foram qualificados de selvagens, violentos e canibais por alguns religiosos, empresários e, inclusive, integrantes de outras etnias indígenas. As histórias repletas de violência são um denominador comum dos grupos nativos isolados, que no passado chegaram a ser caçados como animais para serem exibidos à “civilização”. Assim ocorreu em 1956, quando um grupo de ayoreos do Paraguai foi perseguido a cavalo por trabalhadores de uma empresa que conseguiram pegar um menino indígena de menos de 12 anos chamado Iquebi, o primeiro de sua etnia que foi exibido nesse país.

“O sistema econômico atual não respeita a diversidade cultural e os indígenas voluntariamente isolados são considerados um estorvo”, disse ao Terramérica o indígena brasileiro Sebastião Manchineri, porta-voz da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica. “O futuro destes povos irmãos não está garantido”, por isso caminham para a extinção, lamentou.

Segundo o estudo Amazônia sem Mitos, financiado pela Onu, quando os europeus chegaram à América essa região selvagem estava ocupada por cerca de dois mil povos indígenas, que somavam aproximadamente sete milhões de pessoas. Mais de cinco séculos depois, e após a exploração trabalhista, perseguição e múltiplas doenças que os nativos não conheciam, restam menos de 400 povos e cerca de dois milhões de indivíduos, dos quais menos de cinco mil ainda resistem em ter contato com a “civilização”.

As leis nacionais e internacionais e o discurso oficial prometem defender a existência desses últimos grupos nativos isolados, mas também há quem reconheça que será difícil cumprir com esse objetivo. Para o chefe do departamento de Indígenas Isolados da Fundação Nacional do Índio, (Funai), Sydney Possuelo, o futuro dos nativos não é nada agradável. A sobrevivência deles depende de “uma mudança de padrões, da redução do consumismo. Sem essas mudanças continuarão sendo destruídos em nome do progresso”, afirmou ao Terramérica. “Com cada etnia extinta também desaparece um povo, o que é lamentável”, acrescentou.

O povo korubo, do Brasil, que se especula ter 300 membros, talvez seja um dos mais numerosos entre os que sobrevivem isolados no país, pois há outros de apenas quatro integrantes. Também há um povo do qual resta apenas uma pessoa, “que não quer contato, vive sozinho e ataca com flechas quem se aproxima”, disse Possuelo.

No Brasil, Equador e Paraguai, as constituições reconhecem o direito ao território dos grupos indígenas, coisa que não ocorre no Peru, mas os quatro países admitem a validade do acordo 169 da Organização Internacional do Trabalho, que garante os direitos dos povos nativos sobre seu entorno físico e a cultura.

Entretanto, os fatos dizem outra coisa. Inspeções feitas na selva peruana mostram que as empresas que operam na Amazônia não cumprem o prometido a respeito dos povos isolados, disse ao Terramérica Cristina Valdivia, funcionária do Programa de Defesa de Comunidades Nativas do Peru. A população de mashco-piros desse país, de aproximadamente 1100 integrantes, é assediada por diversas empresas e atualmente deve mover-se entre obras de perfuração para exploração de jazidas de gás. Segundo especialistas, os mashco-piros estão em risco crítico, igual aos ashaninkas e yaminahuas, cuja população seria de aproximadamente 2200 indivíduos.

Pressionados de todos os lados, os grupos peruanos viram-se envolvidos em sangrentos ataques, como no Brasil, Equador e Paraguai. Neste último país, um esses fatos ocorreu nos anos 90, quando os chamados ayoreo totobiegosode atacaram com lanças trabalhadores de uma empresa que construía uma estrada na selva do Chaco. Os ayoreo se movem na fronteira com a Bolívia, em uma superfície de quase três milhões de hectares, cada vez mais pressionada pelo avanço da fronteira agrícola.

Os nativos paraguaios, como os de outros países com regiões de selva, também enfrentam o assédio de grupos religiosos, nesse caso do evangelista Missão para Novas Tribos dos Estados Unidos. A responsabilidade do governo junto aos ayoreo totobiegosode é “protegê-los de toda perturbação externa, que são muitas, por isso deve-se lutar contra muita gente com interesses dentro de seu território”, disse ao Terramérica Oscar Centurión, presidente do Instituto Paraguaio Indígena (estatal).

A socióloga Tarcila Rivera, do Centro de Culturas Indígenas do Peru (não-governamental), afirmou que não deveriam faltar leis para proteção dos direitos dos povos nativos, pois os têm de forma natural, como o restante da população. O problema no caso dos indígenas é que “tende-se a considerá-los povos selvagens, fora da proteção vigente para os demais cidadãos”, afirmou. Se os governos não adotarem medidas, os povos indígenas voluntariamente isolados serão eliminados sem que nada se possa fazer a respeito, disse Manchineri.

* O autor é correspondente da IPS. Com a colaboração de Abraham Lama (Peru), Mário Osava (Brasil) e Alejandro Sciscioli (Paraguai).


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Indígenas da etnia huaorani, Amazônia equatoriana. Crédito: Jornal Hoy, Equador.
 
Indígenas da etnia huaorani, Amazônia equatoriana. Crédito: Jornal Hoy, Equador.

Enlaces Externos

Declaração da ONU sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial.

Declaração sobre os direitos das pessoas pertencentes a minorias nacionais ou étnicas, religiosas e lingüísticas

Convenção Internacional sobre a Repressão e o Castigo do Crime de Apartheid

Sistema da ONU e as populações indígenas

Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica

Programa de Defesa de Comunidades Nativas do Peru

Comissão Internacional de Direitos de Povos Indígenas da América do sul

Links, Organismos, ongs e comunidades indígenas

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