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O Hubble tem os dias contados |
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Por Por Cristina Hernández-Espinoza **
Se não houver novas missões de manutenção, a vida útil do magnífico telescópio-satélite acabará em apenas três anos. Muito depende do reinício da exploração espacial norte-americana.
São Francisco.- A decisão da Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa) de reiniciar os vôos em 2004 alimenta a esperança de que se possa prolongar a vida útil do telescópio-satélite Hubble, que em apenas três anos deixaria de revelar os enigmas do universo. Comparado com o primeiro telescópio de Galileu Galilei por sua contribuição à astronomia, o Hubble foi colocado em órbita pela nave Discovery, em abril de 1990.
Foi projetado para ter vida útil até 2010, mas sofre de prematura obsolescência. “Se as missões de manutenção não forem possíveis, é muito provável que o Hubble deixe de fornecer informações em algum momento de 2006”, disse ao Terramérica o diretor do Instituto de Ciências do Telescópio Espacial (STScI), Steven Beckwith, da Universidade Johns Hopkins. “Os giroscópios necessários para manter o telescópio apontando com precisão para o céu se desgastam. E prevemos que podem falhar, inutilizando as operações do Hubble em cerca de três anos”, acrescentou Beckwith, cujo instituto é responsável pela condução e coordenação das operações científicas do Hubble.
Com um corpo modular, seus instrumentos são mantidos com tecnologia de ponta graças a quatro missões espaciais de manutenção, a última delas no início de 2002, a cargo da nave Colúmbia, destruída em um acidente em fevereiro deste ano. Pesando 12 toneladas, o telescópio espacial órbita o planeta em 97 minutos, a 600 quilômetros da superfície terrestre, e tem capacidade de observação nos espectros infravermelho e ultravioleta (ver infografia).
Sua escassa distância da Terra e o atrito com a estratosfera provocam uma queda de quase um quilômetro por mês em sua órbita, que deve ser corrigida periodicamente, para evitar uma reentrada descontrolada na atmosfera. “Com a perda da Colúmbia, o futuro do Hubble está em perigo”, disse ao Terramérica Mike Cressy, presidente do Clube de Astrônomos amadores do Centro Espacial Kennedy. “A Colúmbia era o único transportador com capacidade para prestar serviços ao telescópio”, acrescentou.
Segundo os planos científicos, quando o Hubble concluísse sua vida útil deveria já estar em órbita o telescópio James Webb, expoente da geração seguinte. Mas seu lançamento foi adiado até 2011. Em meados de agosto, um grupo independente de cientistas chamado Panel de Transição entre o Hubble e o Webb, recomendou à Nasa duas missões de manutenção, em 2005 e 2010, para otimizar o trabalho de duração do Hubble. Se estas viagens não forem possíveis, o plano sugere enviar um aparelho robotizado que instale um módulo de propulsão destinado a reintroduzir o Hubble na atmosfera de maneira controlada.
“As informações sobre o acidente com a Colúmbia e sobre o reinício dos vôos são duas peças importantes no futuro do Hubble”, disse ao Terramérica a diretora da Divisão de Astronomia e Física da Nasa, Anne Kinney. “Devemos examinar como se encaixa uma missão de manutenção do Hubble dentro do retorno à exploração espacial”, acrescentou Kinney, advertindo que “solicitamos ao projeto do Hubble que faça um estudo para otimizar a atividade científica assumindo que não haverá mais missões de manutenção. Com o desenvolvimento de software adequado é possível que seja manejado, mesmo com uma redução de suas capacidades de operações”.
Prolongar a vida útil do Hubble implicaria considerar restrições financeiras, o novo telescópio, a missão dos astronautas e os riscos de enviá-los ao espaço. Um em cada quatro astrônomos dos Estados Unidos utiliza informação do Hubble, e a cada ano são recebidas mais de mil propostas de projetos. Seu sucessor, o Webb, não está concebido para substituí-lo, mas para complementar seu trabalho, pois será colocado em uma órbita mais distante e com diferentes características, afirmam os cientistas. Por isso é indispensável continuar contando com a nitidez e o grau de detalhes das imagens do Hubble.
“A maior contribuição científica do Hubble foi ampliar nosso conhecimento até uma época em que o universo tinha apenas alguns poucos milhares de milhões de anos, menos de 10% de sua idade atual”, explicou Beckwith, do STScI. A idade do universo é estimada entre 13 bilhões e 15 bilhões de anos e a idade do Sol em 4,5 bilhões de anos. Fragmentos de cometas que foram de encontro a Júpiter, estrelas nascendo e morrendo e formação de sistemas planetários são parte do repertório de processos cósmicos elucidados pelo Hubble.
Seu nome é uma homenagem ao astrônomo Edwin Hubble, que concebeu a idéia de que o universo se expande, estabelecendo, assim, o fundamento da teoria do big bang, a grande explosão que deu origem ao cosmos. O telescópio produz cerca de 45 gigabytes de informação por mês, ou seja, 33% dos resultados da Nasa, consumindo menos de 2% de seu orçamento. A manutenção do Hubble chega a US$ 250 milhões.
Que o magnífico Hubble sobreviva além do ano 2010, como desejam os cientistas, não dependerá apenas da existência de viagens de manutenção, mas do peso dos outros projetos astrofísicos, que competirão pelos recursos e por um lugar na história do conhecimento do universo.
** Para ver as fantásticas imagens do Hubble, entre no site www.hubblesite.org.
* * A autora é colaboradora do Terramérica.
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