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Pastores do mar querem cultivar pérolas |
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Por María Isabel García*
A atividade poderia beneficiar 30 mil habitantes da península sul-americana de La Guajira, entre eles os índios Wayúu, que consideram o mar como uma savana de pastoreio.
RIOHACHA, COLÔMBIA.- Pescadores artesanais cultivam ostras em sacos suspensos sobre a água e obtêm pérolas, nácar para adornos e carne de alto valor nutritivo, na península sul-americana de La Guajira que, no tempo dos corsários, foi um empório mundial de pérolas. A fama das pedras de La Guajira data de 1499, quando o capitão Alonso de Ojeda e os geógrafos Juan de la Cosa e Américo Vespucio exploraram as costas do Caribe e chegaram até o Cavo da Vela, primeiro assentamento continental espanhol, que em 1501 converteu-se na governadoria de Coquibacoa.
Os relatos sobre nativos da etnia wayúu que usavam colares de pérolas despertaram a cobiça dos conquistadores, e com o comércio das “pedras marinhas” começou o tráfico de índios para as Antilhas e o de escravos africanos trazidos para explorar gesso e sal. Os indígenas trocavam pérolas por armas de fogo com os piratas e corsários ingleses, franceses e holandeses, que disputavam com os espanhóis o controle das riquezas naturais da região. Assim, começou o povoamento multiétnico que persiste na península, situada no extremo norte da América do Sul, com superfície de 21 mil quilômetros quadrados e atualmente compartilhada por Colômbia e Venezuela.
Nas tardes quentes de Riohaca, cidade colombiana dessa península, os idosos “ficam em suas cadeiras de balanço” na porta de suas casas e alguns recordam que “a última bonança de pérolas foi por volta de 1920, quando na localidade de Carrizal ainda se comercializava grande quantidade”. Na praia, também se fala de pérolas nas rodas de pescadores, não com nostalgia mas como um projeto viável, a propósito de pesquisas feitas no Cabo da Vela pelo Instituto de Pesquisas Marinhas e Pesqueiras Invemar, ligado ao Ministério de Meio Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial.
Em 1990 começaram as experiências de cultivo de ostras da espécie concha madrepérola (Pinctada imbricata) no Cabo da Vela, em sacos suspensos e em caixas colocadas no fundo do leito marinho. Essa espécie “apresenta um grande potencial”, por seu rápido crescimento e alta produção de tecido branco (carne), disse ao Terramérica o biólogo Federico Newmark, da Invemar. A forte pressão extrativa de pérolas faz diminuir as colônias de ostras, cujo ciclo natural de reprodução pode durar mais de um século. A viabilidade do projeto da Invemar é que os cultivos preservam as colônias e encurtam significativamente o período de reprodução.
O projeto teria triplo rendimento para cerca de seis mil pescadores artesanais e aproximadamente 30 mil habitantes do entorno costeiro de Guajiro, comentou ao Terramérica o antropólogo Wilder Guerra. A formação de pérolas é aleatória, mas também se valoriza muito o nácar da concha, usado para incrustações em madeira, e a carne, explicou. Isso foi demonstrado no projeto levado adiante pela Invemar e a Associação de Pescadores Artesanais da Praia do Morto (Asoplam), do parque nacional natural Tayrona, nas estribaçoes da Serra Nevada de Santa Marta, ecossistema que também influencia a península de La Guajira.
Ali, desde 1994, um grupo de famílias cuja subsistência dependia da pesca e do turismo começou a semear utilizando técnicas simples, aprendidas com biólogos e especialistas da Invemar. O processo leva um ano. Da semeadura de minúsculas larvas em sacos presos a uma corda e suspenso dentro da água, até que as larvas se fixem na tela do saco e tenham um tamanho de 1,5 a dois centímetros, passam-se dois meses. Em outros dois meses se faz a seleção segundo as espécies semeadas: madrepérola, concuela (Agropecten nucleus) e girassol do mar (Nudipecten nodosus|), e seu traslado para redes tubulares e compartimentadas, nas quais chegam a atingir entre três e quatro centímetros. “O tempo da alegria” chega ao se colher o resultado do trabalho coletivo, disse ao Terramérica o pescador artesanal Bienvenido Pinto, ligado ao projeto desde seu início, do qual participam 70 pessoas.
Segundo Guerra, um desenvolvimento como o da Asoplam em La Guajira “geraria uma importante renda para os pescadores wayúu”. Mas também seria preciso avançar para uma legislação que contemple “os direitos territoriais comunitários sobre o mar”, afirmou. Os povos indígenas consideram o mar como uma savana de pastoreio, na qual os peixes são gado, e para eles foi incompreensível, no mês passado, que os pescadores de um barco de bandeira coreana capturassem tubarões, cortassem suas valiosas aletas e devolvessem seus corpos sangrando ao mar. Para os wayúu, a possibilidade de que o projeto de Praia do Morto se amplie à vizinha região guajira traz a esperança de mudar sua condição marginal na economia local.
A Colômbia tem costas no Caribe e no Pacífico, mas dos 90 mil empregos diretos e indiretos gerados pela pesca artesanal, 62 mil correspondem à realizada em água doce continental, e das 379 embarcações que compõem a frota pesqueira industrial, apenas 5% têm bandeira nacional. Os mais românticos esperam que volte a ter sentido a canção “El Medallón”, de Rafael Escalona: “De La Guajira vou trazer/ o mais bonito colar de pérolas/ para que cause inveja às estrelas/ quando saíres à noite com ele”.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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