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Primeiros refrigeradores realmente verdes |
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Por Marcela Valente *
Está sendo fabricado na Argentina um novo refrigerador que utiliza gases hidrocarbonos que não contaminam. A tecnologia, de origem européia, estréia no continente.
BUENOS AIRES.- Antes do final do ano, uma pequena empresa da Argentina lançará no mercado um novo modelo de refrigerador. Mas não será mais um refrigerador: passará para a história por ser o primeiro no continente americano que funcionará sem prejudicar a camada de ozônio nem contribuir para o aquecimento global. O modelo é utilizado na Europa há quase uma década. Entretanto, as companhias tradicionais que o fabricam nesse continente resistem a mudar a produção na América. Empresas argentinas e de outros países latino-americanos tentaram sem sucesso o mesmo desenvolvimento, até que no ano passado a Autosal, uma firma de 180 empregados responsável pelas marcas Columbia e Kho-i-noor, conseguiu.
O preço e o tradicional modelo de cor branca não sofrerão alterações. Para notar a novidade é preciso olhar a caixa preta que está na parte traseira do equipamento. Ali, dentro do motor-compressor, o agente refrigerador não é mais o clorofluorcarbono (CFC), destruidor das moléculas do ozônio estratosférico que protege a vida terrestre das radiações solares prejudiciais. Tampouco se encontra o nocivo hidroclorofluorcarbono (HCFC), que não afeta a camada de ozônio mas é um gás causador do efeito estufa, que contribui para o aquecimento do clima no planeta.
O novo refrigerante é o isobutano, um gás da família dos hidrocarbonos que conta com as boas vistas do Protoclo de Montreal, destinado a eliminar os gases que prejudicam a camada de ozônio. Os HCFC foram um passo adiante em relação ao CFC, até que se comprovou que causa o efeito estufa. Por outro lado, o isobutano passa na prova do Protoclo de Kyoto, acordo internacional para reduzir as emissões de gases que contribuem para o aquecimento climático e que ainda não está em vigor. O novo modelo de refrigerador também substitui o hidrofluorcarbono (HFC) que se utilizava como agente de expansão da espuma isolante para portas e paredes do eletrodoméstico. Para isso utiliza-se ciclopentano, outro gás hidrocarbono.
Assim, o produto atende os requisitos dos dois protocolos, tal como ocorre com a maioria dos refrigeradores vendidos na Europa. A técnica foi desenvolvida no início dos anos 90 pela organização ecologista Greenpeace, que a chamou de “greenfreeze” e financiou a produção de um protótipo de substituição do CFC e do HCFC por gases hidrocarbonos. Para garantir sua difusão em massa, o Greenpeace se absteve de patentear a invenção.
No início, a idéia foi rechaçada pelos principais fabricantes de refrigeradores da Alemanha, que acabavam de investir na substituição do CFC pelo HCFC. As empresas alegaram também razões de segurança, por se tratar de gases inflamáveis. Contudo, uma empresa à beira da falência, estabelecida no que até 1990 era a Alemanha Oriental, abraçou a idéia, contou ao Terramérica a coordenadora da Campanha Soluções do Greenpeace na Argentina, Mariana Walter. Em pouco tempo a companhia alemã Foron aumentou notavelmente suas vendas, tanto que após alguns meses os grandes fabricantes alemães reconverteram suas fábricas à nova tecnologia, pressionados pela demanda do mercado.
Assim, multinacionais como Whirlpool, Bosch ou Electrolux começaram a produzir refrigeradores com tecnologia verde na Europa, mas não na América. Nem mesmo os países mais desenvolvidos do hemisfério, Estados Unidos e Canadá, adotaram essa produção, que requer investimentos adicionais. Somente Cuba, impedida de importar refrigeradores químicos por causa do embargo norte-americano de mais de 30 anos, fabricava esses aparelhos usando gases hidrocarbonos.
Vários fabricantes argentinos procuraram adaptar suas fábricas à produção limpa, mas todas as tentativas acabaram em fracasso. “De quatro empresas que iniciaram o projeto, três quebraram”, sintetizou Walter. Restou apenas a Autosal, com sede na província de San Luis, que abastece 12% do mercado. Até agora vende 12 mil unidades por ano, mas pretende vender cinco mil por mês com o novo modelo, disse ao Terramérica o gerente de mercado da companhia, Guillermo Moro.
A empresa investiu US$ 1,5 milhão na reconversão, US$ 800 mil procedentes do Fundo Multilateral do Protocolo de Montreal, criado para ajudar os processos industriais de que necessitam os países em desenvolvimento para cumprirem a meta de eliminar os CFC até 2010. Segundo Moro, as medidas de segurança que requerem o isobutano e o ciclopentano não são maiores do que para outras fábricas de refrigeradores. “Colocamos sensores capazes de detectar qualquer vazamento de gás”, disse o executivo. Embora a nova produção seja um pouco mais cara, a companhia decidiu absorver a diferença e manter os preços. A nova tecnologia limpa não terá publicidade por parte da empresa.
“Chegamos ao mercado quando está quase no fim a temporada (de compra de geladeiras, entre outubro e janeiro), e não convém lançar uma campanha publicitária agora. Talvez no próximo ano”, explicou Moro. Por sua vez, o Greenpeace cuidará da divulgação do novo produto. “É um fato fundamental para abrir o jogo para outras empresas que queiram aderir ao uso desta tecnologia na região”, explicou Walter. A idéia dos ecologistas é repetir o ocorrido na Alemanha: que os consumidores interessados pelos benefícios da tecnologia exijam do mercado mais produtos verdes.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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