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As doenças do clima |
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Por Francesca Colombo *
Aproximadamente 2% de todos os casos de diarréia ou malária no mundo se devem à mudança climática, segundo a OMS.
MILÃO, Itália.- Passar de um ardente verão como o último que a Europa suportou, com temperaturas que superaram as máximas do último século, para um frio glacial ou chuvas torrenciais tem graves conseqüências para a saúde humana, alertam especialistas. Por causa do aquecimento global do clima, para o qual contribuem os gases causadores do efeito estufa, 160 mil pessoas morrem por ano, a maioria nos países pobres, diz a Organização Mundial da Saúde (OMS). As regiões mais vulneráveis são América Latina, África e Ásia. Possuem baixa capacidade de adaptação a fenômenos como as ondas de calor e inundações, há superexploração das terras e escassas infra-estruturas sanitárias.
Segundo a OMS, 2,4% de todos os casos de diarréia no mundo e 2% dos casos de malária se devem à mudança climática. Calcula-se que em 2000 houve 150 mil mortes por esse motivo. “Quase todas as doenças são sensíveis à temperatura, umidade ou chuvas. Há outros efeitos mais difíceis de quantificar, como a desnutrição, um dos fatores mais importantes para o sistema imunológico e o desenvolvimento de enfermidades”, disse ao Terramérica a médica Kerstin Leitner, subdiretora do Departamento de Desenvolvimento Sustentável e Ambientes Saudáveis da OMS.
Leitner apresentou o estudo “Mudança climática, os riscos para a saúde humana e suas respostas” durante a Nona Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada em Milão nos 12 primeiros dias de dezembro. As alterações climáticas afetam de diferentes formas todo o mundo. A vulnerabilidade depende da região. Os anos 90 foram a década mais quente registrada pela humanidade. O último verão deixou na Europa 20 mil mortos. As vítimas são meninos, meninas e idosos com mais de 65 anos. Na Itália, sete mil idosos morreram devido à onda de calor, e na França houve 14.802 vítimas, a metade com mais de 65 anos.
As altas temperaturas produzem erupções, infecções e queimaduras cutâneas, febre, desidratação, fadiga, síncope e o chamado golpe de calor. Esta última é a mais grave, porque prejudica a estrutura celular e o sistema termo-regulador e pode causar a morte por insuficiência respiratória, renal ou hepática, entre outras razões. Trata-se de “enfermidades infecciosas, de transmissão ambiental, ou que passam pela água ou pelos alimentos para chegar ao homem, como a salmonelose, que tem clara relação com o aumento da temperatura”, afirmou Leitner.
As inundações cada vez mais comuns também são conseqüência da mudança de temperatura, e a Europa não escapa deste perigo. As causas de morte são afogamento ou infartos. Desde 1990, duas mil pessoas morreram em inundações. No entorno inundado proliferam infecções gastrointestinais, dermatite, conjuntivite, intoxicações e envenenamentos. Problemas psiquiátricos como psicose, ansiedade e depressão também aumentam diante da perda de um ente querido ou da habitação. Os países em desenvolvimento são mais vulneráveis, “porque a população vive em más condições. A mudança climática piora a situação e os problemas de saúde”, disse ao Terramérica o cientista e co-autor do estudo da OMS, Diarmid Campbell.
Na América Latina, a corrente fria El Niño, um fenômeno climático, modificou o panorama meteorológico. Com as chuvas mais intensas, a água tende a ficar parada e é foco de reprodução de insetos que transmitem paludismo, malária e dengue. No norte do Peru o transbordamento de rios arrasa moradias, depois vem a seca e isto repercute na saúde local. “Não há programas de controle para reduzir os riscos”, disse ao Terramérica María Elena Foronda, presidente da Sociedade Nacional do Meio Ambiente do Peru e ganhadora do prêmio ambiental Goldman 2003.
Em Túnis, as intensas chuvas dos primeiros meses de 2003 deixaram sem teto milhares de pessoas e muitas infecções respiratórias. No norte de Moçambique, um surto de cólera afetou mais de 400 pessoas e causou 12 mortes. No norte da Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão morreram 700 pessoas em janeiro de 2002 devido ao inverno boreal mais frio dos últimos 40 anos. Com o reaquecimento surgiram 30 novas doenças nos últimos 30 anos, como a síndrome respiratória aguda severa (SRAS), segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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