Acentos
PNUMAPNUD
Edición Impresa
MEDIOAMBIENTE Y DESARROLLO
 
Inter Press Service
Buscar Archivo de ejemplares Audio
 
  Home Page
  Ejemplar actual
  Reportajes
  Análisis
  Acentos
  Ecobreves
  Libros
  Galería
  Ediciones especiales
  Gente de Tierramérica
                Grandes
              Plumas
   Diálogos
 
Protocolo de Kyoto
 
Especial de Mesoamérica
 
Especial de Agua de Tierramérica
  ¿Quiénes somos?
 
Galería de fotos
  Inter Press Service
Principal fuente de información
sobre temas globales de seguridad humana
  PNUD
Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo
  PNUMA
Programa de las Naciones Unidas para el Medio Ambiente
 
Acentos


Vargas, um desastre difícil de esquecer

Por Yensi Rivero*

Quatro anos depois do maior desastre natural da Venezuela, no qual morreram milhares de pessoas, o Estado de Vargas se recupera e já tem a mesma quantidade de habitantes que em dezembro de 1999.

CARACAS.- O venezuelano José Rafael Dominguez nunca esquecerá o dia em que pegou uma garrafa com água e o retrato de sua avó e saiu por uma janela de seu apartamento no terceiro andar de um edifício. Uma avalanche de lodo e escombros havia elevado o terreno de tal modo que não precisava, nem podia, usar porta ou escadas para escapar. Tampouco Carmen González esquecerá esses dias de dezembro de 1999. “A rua se transformou em um rio. Era imenso, com água, barro, paus e pedras. Pensei que acabaria com tudo, mas, por sorte, pudemos escapar e alguns meses depois voltamos para reconstruir tudo”, contou ao Terramérica.

Entre o apartamento de Dominguez, a leste, e a casa de González, a oeste, havia cerca de 25 quilômetros no Estado de Vargas, a faixa litorânea no mar do Caribe perto de Caracas, que foi vítima do maior desastre natural na história da Venezuela: os deslizamentos de 15 e 16 de dezembro de 1999. Uma parte do Estado retomou rapidamente e com vigor a atividade normal. Primeiro foram as cidades como Maiquetía, onde está o principal aeroporto do país, e La Guairá, o maior porto. Depois, as pequenas localidades turísticas e comerciais.

As autoridades removeram 12 milhões de metros cúbicos de sedimentos e demoliram 300 mil toneladas de rochas, que estavam nas ladeiras montanhosas contidas pela camada vegetal e rolaram devido à força das águas. Parte dos dejetos, o material fino granulado e grandes rochas, é classificada e utilizada para construir quebra-mares em praias em processo de recuperação.

Entretanto, Vargas já não é o mesmo. Modificou-se o perfil das praias e desapareceram as que eram mais visitadas nos finais de semana pelos quatro milhões de habitantes de Caracas. A terra ganhou do mar 74 hectares. Margeando esse novo espaço se projeta a construção de uma avenida que se chamará La Playa (A Praia). Além dos danos na superfície, a tragédia afetou as redes de água potável e saneamento. Os pequenos restaurantes, hotéis e lojas que atendiam os turistas no leste ainda não recuperaram o ritmo de seus melhores tempos. E a paisagem de desolação ainda se estende por quilômetros de praias. Dez por cento das vias permanecem obstruídas.

A quantidade de mortos nunca foi estabelecida com certeza: entre dez mil e 30 mil. Persistem centenas de desaparecidos e perdas materiais de US$ 4 bilhões, quase 4% do produto interno bruto. Durante dois dias uma avalanche de água, pedras e lodo se desprendeu da montanha do Ávila, que separa Caracas do mar, depois das mais fortes chuvas registradas no país. A população mais afetada foi a que vivia em péssimas condições, perto das vertentes de rios ou ao pé da serra, por onde deslizavam a água e a destruição.

Bairros inteiros desapareceram. Casas, rochas, árvores, carros e utensílios domésticos eram arrastados pela corrente. Muitos edifícios ficaram sem condições de uso e a lama invadiu residências, hotéis, clubes, ruas e parques, entrando pelo mar como uma língua escura. Dezenas de milhares de pessoas deixaram a região por seus próprios meios, mas muitas dependeram de uma gigantesca operação das Forças Armadas e de centenas de voluntários. Como os González, milhares de famílias viveram em outras regiões do país, algumas em casas doadas pelo governo. Freqüentemente não foram bem recebidas. Sua presença alterava os costumes, competiam pelos escassos empregos ou eram vistas como preferidas da ajuda oficial em desprezo de outros necessitados.

“Durante algum tempo, a identidade dessa população se reduziu ao rótulo de danificado”, contou a antropóloga Sandrine Revet. “Receberam nomes como ‘deslocados’, ‘dignificados’ ou ‘construtores de novos horizontes’. Muitos nem mesmo assumiram” essas categorias, acrescentou. Dominguez, encarregado de uma pequena empresa de promoções, nunca voltou a Vargas. “Foi muito duro afastar-me de tudo, mas não há volta. Assim assumi o ocorrido. Vim a Caracas e aqui procuro seguir em frente”, conta ao Terramérica.

González, de 50 anos e mãe de quatro filhos adultos, regressou. “Quando parti vivi com uma irmã perto de Caracas, e para me manter passava roupa em casas da capital, mas o negócio das empanadas nos rendia mais”, contou. A venda de empanadas para turistas nas praias rendia mais de US$ 15 por dia, e para passar roupa recebia apenas entre US$ 4 e US$ 6. Os González regressaram à zona turística, arrumaram sua humilde casa e fazem parte dos atuais 230 mil habitantes de Vargas, população semelhante à de quatro anos atrás.

Contudo, a recuperação não foge do polarizado confronto político do país. O governador de Vargas, Antonio Rodríguez, identificado com o presidente Hugo Chávez, garante que “só este ano fizemos 84 grandes obras no valor de US$ 52 milhões”. Por outro lado, Jaime Barrios, o prefeito da oposição do município de mesmo nome, que ocupa todo o território do Estado, afirma: “O governo trabalha mais sobre obras de enfeite e ainda nos falta um plano de ordenamento urbanístico que ponha fim aos assentamentos descontrolados”.

Carmen González está entre os que acreditam que “muitos planos estão em passo de tartaruga”. Por isso, “o melhor é cada um retomar os trabalhos por conta própria, sem depender do governo. Mas, uma coisa é certa, eu não saio de Vargas”, garantiu.

* A autora é colaboradora da IPS.




Copyright © 2007 Tierramérica. Todos los Derechos Reservados
 

 

Enlaces Externos

Estado de Vargas

Tierramérica no se responsabiliza por el contenido de los enlaces externos