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Reação lenta diante do mal da vaca louca |
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Por Emad Mekay*
Consumidores denunciam que o governo Bush sucumbe diante de pressões da indústria da carne, contrária a maiores controles.
WASHINGTON.- Ativistas e defensores dos consumidores acusam o governo dos Estados Unidos de fazer muito pouco para deter a propagação do mal da vaca louca, obedecendo a pressões da poderosa indústria da carne. Vários altos funcionários do Departamento de Agricultura procedem dos setores da carne e do leite e poderiam manter lealdade aos seus antigos empregadores, argumentam os críticos. Na semana passada, funcionários governamentais garantiram que aplicariam imediatamente um novo pacote de medidas para proteger o fornecimento nacional de carne da encefalopatia espongiforme bovina (EEB), conhecida como mal da vaca louca, depois que foi notificado, em 9 de dezembro, o primeiro caso de animal infectado, no Estado de Washington.
O gado susceptível de contrair EEB é aquele alimentado com rações que contenham suplementos de proteínas animais. A enfermidade é mortal, e seus primeiros sintomas são desordens motoras que impedem o movimento normal. O causador não é um vírus nem uma bactéria, mas um agente conhecido como prion, que altera as proteínas do cérebro, deixando-o com a consistência de uma esponja. Uma variedade da também mortal enfermidade de Creutzfeldt-Jakob, que ataca humanos, está vinculada ao consumo de produtos elaborados com carne de animais contaminados com EEB. Desde a década de 90, morreram 153 pessoas pelo mal de Creutzfeldt-Jakob, sobretudo na Europa.
As medidas de proteção incluem a retirada da cadeia de produção de todos os animais que não possam se manter em pé, bem como dos tecidos cerebrais, nervosos e ósseos que poderiam conter EEB, além de proteções adicionais na elaboração de alimentos processados, e de um programa nacional para identificar a origem do gado.
Porém, os anúncios não conseguiram diminuir o medo dos consumidores. Os preços do gado no mercado futuro caíram e nenhuma das 30 nações que proibiram a entrada da carne norte-americana dá sinais de levantar as restrições. Os controles já custaram milhões de dólares em exportações perdidas.
“Os últimos passos dos Estados Unidos são patéticos”, disse o co-autor do livro “Mad Cow USA” (Estados Unidos Vaca Louca), John Stauber. “Hoje nos Estados Unidos os criadores alimentam legalmente o gado com milhares de milhões de quilos de desperdícios animais, e inclusive desmamam os bezerros dando-lhes um alimento baseado em proteínas do sangue do gado”, acrescentou Stauber. Em lugar de uma alimentação vegetariana que respeite a natureza das espécies de pastagem, os pecuaristas norte-americanos lançam mão de restos de órgãos, sangüíneos e ósseos, e inclusive de esterco, em especial de frango.
Nos últimos dois anos, foram analisadas apenas 20 mil reses nos Estados Unidos, menos de 10% dos animais que não podem se manter em pé. “Suspeito que os últimos casos de vaca louca nos Estados Unidos e Canadá são a ponta do iceberg que poderia continuar aumentando enquanto não se proibir as práticas de alimentação perigosas”, afirmou Stauber.
Para os ativistas, o incipiente controle é responsabilidade da indústria, temerosa de que mais exames revelem mais casos e reduzam as vendas. “A indústria combate com unhas e dentes a análise de animais, pelo menos desde 1993, quando me envolvi nessa questão, pois a última coisa que quer é encontrar um caso” de vaca louca, disse Michael Greger, da Associação de Consumidores Orgânicos. “Agora que surge o primeiro caso, não querem falar do segundo, nem do terceiro, nem do quarto”, ironizou.
Os consumidores organizados acreditam que a postura do governo é perigosa, pois tenta ao mesmo tempo proteger a indústria e defender a saúde pública. “Há três anos enviamos ao governo uma lista de recomendações a respeito do mal da vaca louca. Nenhuma foi implementada", disse Simon Chaitowitz, do Comitê de Médicos por uma Medicina Responsável, organização sem fins lucrativos com sede em Washington. “Acreditamos que o Departamento de Agricultura não as adotou pelo fato de muitos de seus funcionários procederem das indústrias de carne e de leite, e lhes importa mais proteger o lucro dos setores”, acrescentou.
A encarregada de imprensa do Departamento, Alisa Harrinson, o subsecretário para Mercado e Programas Reguladores, Chuck Lambert, e a conselheira principal para Assuntos de Alimentação e Nutrição, Elizabeth Johnson, trabalharam para a Associação Nacional de Criadores de Bovinos, um poderoso grupo industrial de pressão. As autoridades se defenderam argumentando que os exames são dirigidos, sobretudo, a animais de alto risco, que apresentavam sintomas de desordem nervosa ou incapacidade para caminhar.
“A pressão da indústria impede o governo Bush de tomar as medidas necessárias para proteger o público”, afirmou Carol Tucker Foreman, chefe dos programas de segurança alimentar do Departamento de Agricultura durante o governo de Jimmy Carter (1977-1981). Embora reconheça que os passos dados são positivos, assinalou que o Ministério “não ampliou as proibições para excluir o uso de restos de ruminantes da alimentação animal. Nem anunciou reforço de recursos suficientes para garantir que essas proibições sejam cumpridas”.
* O autor é correspondente da IPS.
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