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Luta épica contra o capital |
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Por Vandana Shiva *
A liberdade do “Homem de Davos” é a liberdade para o capital, em um mundo onde tudo está à venda, considera nesta coluna exclusiva para o Terramérica Vandana Shiva, escritora e ativista ganhadora do Prêmio Nobel Alternativo de 1993.
NOVA DÉLHI.- O Fórum Econômico Mundial (FEM) concebeu um mundo modelado pelo “Homem de Davos”, centrado no capital e nos homens e nas empresas que o controlam. A liberdade para o Homem de Davos, portanto, é a liberdade para o capital. O projeto para esta liberdade é a globalização guiada pelas grandes corporações empresariais - projeto que qualifico de produto do patriarcado capitalista -, que se reflete nos condicionantes ajustes estruturais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, nas distorcidas, prejudiciais e antidemocráticas regras da Organização Mundial do Comércio, e no modelo econômico liberal, em geral.
Neste mundo, tudo está à venda. Tudo é uma mercadoria. A biodiversidade e as formas de vida, os genes e as sementes são propriedade intelectual que é possível patentear. A água, a verdadeira base da vida, é uma mercadoria que se comercializa e não um bem comum, nem um direito humano fundamental. Os alimentos e a agricultura não são meios de vida, mas apenas fontes de lucro para o agronegócio. Em lugar de alimentos saudáveis, este sistema perverso nos deu os organismos geneticamente modificados, a vaca louca e a obesidade. O crescimento do fundamentalismo religioso, o aumento do terrorismo e da violência, bem como a militarização e a guerra são conseqüências inevitáveis de um sistema que deixa de lado fundamentais direitos humanos e democráticos das pessoas.
Em Seattle, na Reunião Ministerial da OMC de 1999, o modelo de globalização empresarial foi desafiado em nível global por cidadãos de diferentes partes do mundo. Seattle marcou uma mudança tectônica na qual o poder popular freou o monstro da globalização e fez com que a reunião fracassasse. E no Fórum Social Mundial (FSM) realizado depois de Seattle, em Porto Alegre, começou a soar um novo lema nos movimentos sociais, “Outro Mundo é Possível”, alternativo à globalização. Entre 16 e 21 deste mês foi realizado o quarto FSM, em Mumbai, na Índia.
A primeira mensagem do Fórum ao FEM é seu próprio nome. O FSM tem como importância principal as pessoas e a sociedade, enquanto o FEM coloca em primeiro lugar as corporações empresariais e o capital. A segunda mensagem se refere aos sistemas de organização, um controlado pelo capital e o outro organizado conjuntamente por milhares de grupos. É nesta diversidade e pluralidade da organização que uma nova polítgica começou a tomar forma. A terceira mensagem é a da paz e não-violência. A violência é o meio e o fim de uma economia baseada na cobiça, na ditadura econômica e no militarismo. A não-violência é, tanto nos meios quanto nos fins, o resultado da escolha do povo.
Contudo, há dois perigos para as mobilizações do FSM. O primeiro vem de seu próprio interior. Enquanto o êxito de Seattle foi o resultado da capacidade de organização das pessoas e de sua solidariedade na diversidade, há uma tendência entre certas organizações para imitar o gigantismo e o controle centralizado das estruturas dominantes, em lugar de criar uma plataforma para acolher e dar energia a diversas tendências, movimentos e culturas. Essa tendência supõe o risco de sufocar o processo do FSM. Na nova política incentivada pelos cidadãos, o global precisa do local e o local do global. Uma resistência global sem raízes locais não pode durar muito, do mesmo modo que os movimentos locais sem solidariedade global podem se transformar em paroquiais, defensivos e inseguros.
Não é necessário institucionalizar o FSM. Fazê-lo seria um custoso desperdício. O grande tamanho é a fortaleza do poder e a vulnerabilidade das pessoas. A pequenez e a diversidade, ao contrário, são a força do povo e a vulnerabilidade do poder.
A segunda ameaça para o FSM está surgindo no exterior, de políticas de velho estilo baseadas em princípios patriarcais e na celebração da violência e da fragmentação. O Mumbai Resistência 2004, organizado em oposição ao FSM, reflete o divisionismo e a violência das políticas de velho estilo, que tenta prejudicar a política de paz e diversidade que os movimentos antiglobalização construíram nos últimos dez anos com o enfoque de “viver e deixar viver”.
A luta entre o povo e o capital agora é uma luta épica de vida ou morte que apenas começou. Este é o início de um novo capítulo na história da humanidade, não “o fim da história”.
* A autora é escritora e militante de campanhas internacionais em favor dos direitos da mulher e do meio ambiente, tendo recebido o Prêmio Nobel Alternativo 1993.
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