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A polêmica manipulação do diminuto |
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Por Cristina Hernández*
Cientistas canadenses advertem que uma moratória para a nanotecnologia pode criar uma lacuna semelhante à digital entre países ricos e pobres.
SÃO FRANCISCO, Estados Unidos.- Equipados com meio século de bagagem teórica, cientistas de todo o mundo desenvolvem a nanotecnologia, isto é, a manipulação de partículas em uma escala equivalente à milionésima parte de um milímetro. Entretanto, a proposta de uma moratória ameaça suas prometidas descobertas. A campanha em favor de uma moratória para a pesquisa nanotecnológica, que vem sendo feita desde 2002, com apoio do príncipe Charles da Inglaterra, “pode impedir que países em desenvolvimento participem de seus potenciais benefícios”, advertem cientistas da Universidade de Toronto, do Canadá.
Em um informe publicado no dia 27 de janeiro, na revista britânica Nanotechnology, os especialistas enumeram entre as vantagens deste ramo da ciência uma eficácia maior no diagnóstico de doenças como aids, câncer e tuberculose, no controle da toxidade em alimentos e solos, e na purificação da água. A nanotecnologia se associa com riscos que devem ser considerados, mas isso é possível sem necessidade de uma moratória, afirma o estudo.
“A moratória tem grande cobertura dos meios de comunicação por contar com apoio do príncipe Charles, e divulga-se a mensagem de que a nanotecnologia é extremamente perigosa para o meio ambiente e a saúde, sem serem mencionados seus benefícios”, disse ao Terramérica Abdallah S. Daar, do Joint Center for Bioethics (Centro Conjunto de Bioética), co-autor do estudo da Universidade de Toronto. “Não existe um equilíbrio no discurso” dos críticos, acrescentou.
Através da nanotecnologia, comumente chamada de tecnologia de transformação, pode-se realocar átomos em um elemento para alterar suas propriedades e criar objetos inexistentes na natureza. A teoria sobre os fenômenos nessa escala foi desenvolvida por décadas, mas os instrumentos que permitem realizar experiências com eles é recente. A pesquisa nanotecnológica poderia impulsionar uma indústria que mobilizaria cerca de US$ 1 bilhão em 2015, segundo a National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciência), dos Estados Unidos.
O canadense Action Group on Erosion, Technology and Concentration (Grupo de Ação em Erosão, Tecnologia e Concentração - Grupo ETC), que ajudou a frear os esforços para introduzir produtos geneticamente modificados na Europa e na Ásia, lidera a iniciativa por uma moratória no desenvolvimento da nanotecnologia. “Em 2002 fizemos um chamado no sentido de deter o avanço na nanotecnologia, uma vez que descobrimos que não existe um protocolo de proteção para o trabalho em laboratório”, explicou ao Terramérica Pat Mooney, diretor-executivo do Action Group.
Durante o Fórum Social Mundial, realizado em janeiro na cidade indiana de Mumbai, o Action Group apresentou um relatório pedindo a moratória dos chamados nanomaterais que, segundo afirma, são desenvolvidos em laboratórios e em alguns casos comercializados sem avaliações de impactos na saúde, na segurança e no meio ambiente. Segundo esses ativistas, os produtos da indústria nanotecnológica de maior êxito comercial incluem telas resistentes a manchas, raquetes de tênis mais resistentes e leves e bloqueadores solares transparentes.
Também estariam sendo introduzidos processos e produtos para prevenir a erosão do solo e bloquear a filtragem de substâncias tóxicas para os lençóis freáticos. O Grupo ETC está preocupado pela falta de regulamentação na matéria, em especial porque, em tão diminuta escala, os materiais às vezes têm comportamentos imprevisíveis. Mooney alegou que “a nanotecnologia está se desenvolvendo a grande velocidade, com pouca consciência e sem conhecimento de seus impactos, em especial para os países em crescimento, para os quais é mais difícil sobreviver e se manter em pé diante de mudanças econômicas”.
Contudo, Daar acrescentou que é fundamental apoiar e manter iniciativas nesse campo nos países em desenvolvimento, cujos esforços devem se concentrar em identificar nichos de mercado aos quais pode ter acesso, a fim de criar riqueza no prazo de uma década. “Os países em desenvolvimento devem ser parte da discussão. Do contrário, se criará uma lacuna semelhante à digital” (a que marca diferenças no acesso a tecnologias de informação e comunicações), advertiu.
Segundo o relatório da Universidade de Toronto, Coréia do Sul, Índia e China são os países em desenvolvimento com maiores iniciativas para avançar no campo da nanotecnologia, que incluem financiamento estatal, patentes, produtos comerciais no mercado e vários centros de estudo. Quatro países disputam nessa área na América Latina. Brasil e Chile estão na frente com programas nacionais e certo apoio oficial, enquanto México e Argentina contam apenas com grupos de estudo financiados por instituições de pesquisa científica.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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