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“É obrigação de toda criança ser ecologista” |
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Por Francesca Colombo*
Quino, o criador de Mafalda, um dos mais famosos personagens de história em quadrinhos, conversou com o Terramérica em Milão.
MILÃO.- Mafalda, a pequena contestatória que passava seu tempo olhando o mapa-múndi e odiava sopa, completou 40 anos há pouco tempo. Foi criada em 1963 por Quino, Joaquín Salvador Lavado (Mendoza, Argentina, 1932), que a converteu em seu alter ego combativo em uma época marcada pela efervescência revolucionária de Che Guevara e a música dos Beatles.
Esta menina argentina se converteu em um dos mais famosos personagens de história em quadrinhos do mundo, e protagonizou livros de grandes tiragens durante dez anos. Quino decidiu deixar de desenhá-lá para sempre em 1973. Era época da ditadura e dos desaparecidos na América Latina, e Mafalda não suportaria uma mordaça. Mas continua sendo atual, décadas depois. “É obrigação de toda criança ser ecologista” como Mafalda, diz seu criador.
Quino, autor de 18 livros de humor gráfico, sempre tem de recordar sua primogênita. Como aconteceu este mês, quanto participou de uma homenagem a Mafalda na cidade italiana de Milão, organizada pelo Touring Club Italiano, onde conversou com o Terramérica.
-Mafalda é uma criança ecologista e humanista?
-É obrigação de toda criança ser assim. Do contrário, haveria um suicídio planetário.
-Sua carreira artística está dividida em antes e depois de Mafalda?
-Não para mim. Em 2004 completo 50 anos de humor e Mafalda representou dez anos dentro desse panorama. Ela é uma pequena parte de meu trabalho.
-O humor é uma arma política?
-É a única que sei manejar. Não me pergunto se serve para algo ou não. Mas procuro retratar em meus livros a relação entre o poder e as pessoas comuns.
-O senhor teve seus livros censurados?
-Muitas vezes, na Argentina e em outros países. Considerei um mal com o qual tinha que me acostumar. Muitas também me autocensurei, porque, se havia a proibição, para que fazer coisas que não seriam publicadas? Isto foi um limite para expressar certas idéias.
-O mundo, como diria Mafalda, parece estar de ponta-cabeça. Muita gente de esquerda se voltou para a direita, os muros caíram e a China entrou no capitalismo. O senhor acredita que acabaram as ideologias?
-Historicamente deve-se ser otimista. Depois desta fase virá o renascimento. Isto é mais um ciclo pelos quais passa a humanidade.
-O senhor se sente comprometido com a esquerda?
-Bem, sim. Mas já não se sabe onde está nada, assim, melhor seria dizer “não sei”.
-Um artista deve se comprometer com os problemas sociais?
-Creio que sim, mas não é obrigatório. A arte pode ser independente da política. Isso depende dos artistas.
-Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, declarou-se guerra ao terrorismo. Qual é, para o senhor, a razão do terrorismo?
-A razão do terrorismo é sempre o desequilíbrio econômico, social e cultural. Somente se poderá combatê-lo solucionando os problemas sociais que afetam os países onde surgem.
-A guerra dos Estados Unidos no Iraque, que continua, se associa com perseguição aos muçulmanos e maior caos e terrorismo. Qual sua posição sobre o Iraque?
-Pela primeira vez na história da humanidade estamos dominados por uma só potência, e isso é algo terrível. Creio que retrocedemos ao século VI, quando os bárbaros começaram a invadir o mundo. Desta vez os bárbaros nós os temos nos Estados Unidos. O mundo entrou em um período de obscurantismo.
-A Argentina, seu país, chegou ao fundo do poço há dois anos, em sua pior crise política e social. Como está agora?
-Um pouco melhor, porque deixou de se importar com tudo, como antes. A indústria local está começando a funcionar novamente e as perspectivas melhoraram. Mas o panorama social não vai adiante, piorou. O mesmo ocorre no resto da América Latina.
-A corrupção é parte do problema...
-A corrupção é inerente ao ser humano, assim, devemos suportá-la.
-Em que trabalha atualmente?
-Publico semanalmente uma página de humor em vários meios de comunicação e países. Sento para trabalhar e vejo o que sai. O trabalho criativo é longo e cansa. Toma horas, dias, semanas e meses.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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