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Conservação privada a passo lento no Chile

Por Gustavo González*

Aumentaram as áreas protegidas em mãos de particulares, mas ainda não têm reconhecimento oficial e tampouco recebem estímulos, afirmam ongs.

SANTIAGO.- A organização e o ativismo dos particulares em torno da biodiversidade é um fenômeno relativamente novo no Chile, onde se registram pouco mais de 375 mil hectares em mãos de particulares, uma quantidade muito inferior aos 14,1 milhões de hectares sob proteção do setor público. “Objetivamente, estamos atrasados”, comentou ao Terramérica Cristina Cornejo, funcionária da Comissão Nacional do Meio Ambiente (Conama). Entretanto, abriu-se no país “um processo que é reconfortante, do ponto de vista das tarefas a enfrentar e de que há muita necessidade por parte dos organismos públicos de aprender sobre o assunto”, disse. Cornejo trabalha na oitava região do Chile, 500 quilômetros ao sul de Santiago, e é uma das incentivadoras do projeto de conservação Nevado Chillán, onde confluem esforços públicos e privados.

O Comitê Pró-Defesa da Flora e Fauna do Chile (Codeff) criou, em 1997, a Rede de Áreas Protegidas Privadas (RAPP), que reúne 130 organizações e pessoas que cuidam da conservação da diversidade biológica em seus terrenos particulares, totalizando 133 áreas silvestres com 376.552 hectares. Em dezembro de 2003 culminou com sucesso uma negociação de sete anos do governo chileno com o milionário norte-americano Douglas Tompkins, que declarou santuário natural os 298.562 hectares do Parque Pumalín, ao sul do país, com o qual aumentaram consideravelmente as terras sob proteção privada.

Cláudio Donoso é integrante da RAPP e membro de uma associação de engenheiros florestais defensores da flora autóctona na província de Valdivia, 850 quilômetros ao sul de Santiago. Administra o projeto “Caminho da Floresta”, criado a partir de um terreno de 32 hectares que sua família comprou há 20 anos. “Esta propriedade estava bastante degradada e meu pai, engenheiro florestal, o tomou como uma espécie de centro de plantação experimental, reconstituindo sua vegetação nativa. Agora, possui uma paisagem muito bonita e uma tremenda diversidade arbórea e de fauna”, disse ao Terramérica. O “Caminho da Floresta” agora inclui o terreno inicial e outros dois vizinhos, “um dos quais inclui uma floresta prístina de 500 anos de antiguidade”. A médio prazo, este empreendimento começará a dar lucro, “quando implementarmos nele um programa de ecoturismo”, acrescentou Donoso.

Victoria Maldonado, especialista em biodiversidade do Codeff, advertiu que apesar deste e outros casos de destaque, o Chile está muito longe de garantir a conservação ambiental, “porque as zonas protegidas se concentram nas regiões austrais, mas em toda a zona centro-sul, mediterrânea e norte quase não há áreas protegidas”. As propriedades agrupadas na RAPP ainda não têm um reconhecimento formal do Estado chileno e tampouco há incentivos ou estímulos para os particulares que participam de planos de conservação, disse ao Terramérica. “Muitas vezes, se pensa que particular significa pessoa com dinheiro, e isso não é verdade”. A maioria das pessoas que protege (a biodiversidade) tem propriedades pequenas, com menos de mil hectares, e o faz com muito esforço”, destacou.

Em um relatório elaborado para o Codeff por Maldonado e Alberto Cortés, que não incluiu o Parque Pumalín, consta que 38% da superfície de áreas privadas protegidas no Chile corresponde a propriedades individuais formais ou informais. Outros 7% compreendem terras doadas ao sistema nacional de parques, e 25% incluem terrenos que diversas comunidades, sobretudo indígenas, mantêm sob sistemas de conservação. O cadastro também registrou que 22% da superfície corresponde a áreas destinadas a projetos de ecoturismo e ecológico-imobiliários, enquanto apenas 7% são concessões para conservação em terras de propriedade do Estado.

A idéia de que a preservação ambiental não é um assunto exclusivo dos Estados e requer cada vez mais a participação ativa de diversos atores ganhou novo impulso depois do VI Congresso Interamericano de Conservação Privada, realizado em meados de abril em Santiago do Chile. Mais de 120 participantes desse encontro se propuseram a chegar ao próximo congresso, programado para 2006 na Colômbia, com progressos importantes no fortalecimento e ampliação das redes de conservação e na gestação de novas alianças com o setor público, disse ao Terramérica Myriam Pinto, encarregada de Comunicações do Codeff.

* O autor é correspondente da IPS.




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