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Fantasia e realidade de um filme |
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Por Klaus Toepfer*
O filme O Dia Depois de Amanhá “poderia cair na ficção científica, mas o tema central do filme (a mudança climnática) não”, afirma nesta coluna para o Terramérica a máxima autoridade ambiental das Nações Unidas.
NAIRÓBI.- É um assunto apocalíptico. Pedras de granizo do tamanho de toranjas sufocam Tóquio e tempestades de neve cobrem Nova Délhi. Manhattan, incluindo os escritórios centrais das Nações Unidas em Nova York, fica submersa em um inverno tipo nuclear. Inclusive a Estátua da Liberdade não sobrevive. É arrastada sob desapiedadas e enormes ondas. Esta versão bíblica chega como cortesia da última grande produção de Hollywood "O Dia Depois de Amanhã". Ao contrário das catástrofes do Velho Testamento, as forças desencadeadas no planeta Terra no filme não provêm da fúria de Deus. Estão ligadas aos níveis crescentes de poluição atmosférica, a partir da queima de carvão e petróleo para o funcionamento de nossos carros, fábricas, escritórios e residências.
O ponto de vista popular sobre a mudança climática ou aquecimento global é que o mundo ficará cada vez mais quente devido ao uso do termo coloquial de “efeito estufa”. Se buscam uma seqüência, O Dia Depois de Amanhã II, então deveriam consultar algum informe recente do Pentágono (Departamento de Defesa dos Estados Unidos). O filme conclui que o aquecimento global deve “ser visto como uma séria ameaça à estabilidade mundial e que deve ser levado para além do debate científico, deve ser uma preocupação de segurança nacional”. Outros compartilham esse ponto de vista. Sir David King, cientista em chefe da Grã-Bretanha, descreveu o aquecimento global como uma “ameaça maior do que o terrorismo”. É provável que O Dia Depois de Amanhã esteja aqui neste momento.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), formado por cerca de dois mil cientistas que dão sugestões aos governos e que foi estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela Organização Meterológica Mundial, concluiu que já existe “uma influência humana discernível sobre o clima mundial”. Os pólos são o sistema de alerta avançado. No ano passado o Ward Hunt, a maior camada de gelo no Ártico, se rompeu. Até então, esteve intacto por três mil anos. Recentemente, passeis alguns dias nessa região, a convite de Borge Brende, ministro do Meio Ambiente da Noruega. Me detive onde há 20 anos uma geleira gigante cobria a terra e que agora se retirou para o horizonte.
Os especialistas na área nos dizem que 3,5 quilômetros quadrados de gelo se perdem anualmente. Aprendi que o urso polar, ícone do distante Norte, cada vez tem mais trabalho para caçar focas devido à retirada precoce do gelo. Por isso, cada vez menos ursos nascem e, dos que estão para chegar ao mundo, muitos terão um peso muito abaixo ao nascerem. Ouvir tudo isto causa arrepios. Muitos centros de esqui aos pés da montanha, como Kitzbuehl, poderiam em breve estar em dificuldades econômicas, devido à pouca neve que cai nas partes altas da montanha. No Himalaia, nossos cientistas determinaram com precisão 50 lagos que há alguns anos eram menos do que charcos. Eles se formam rapidamente quando as geleiras derretem e poderiam estourar a qualquer momento, enviando avalanches de água para os vales, colocando em risco a vida.
Existem outras observações fundamentais. O ano de 2003 foi o terceiro mais quente no âmbito mundial desde que os registros começaram a ser feitos em 1861. Todos os anos mais quentes ocorreram desde 1990. Munich Re, companhia de resseguro, estima que os desastres naturais em 2003 custaram US$ 60 bilhões. A arma internacional principal contra o aquecimento global é o Protocolo de Kyoto, firmado em 1997. É preciso que os países desenvolvidos reduzam as emissões de gases causadores do efeito estufa em 5,2% até 2010. Não entrou em vigor. Os Estados Unidos se recusam em ratificá-lo. A Rússia, cuja ratificação seria suficiente para tornar o Protocolo operacional, ainda não se decidiu.
Estamos impacientes, mas esperançosos. Impacientes porque, no fim, são os mais pobres dos pobres os mais vulnerávies à mudança climática. Entretanto, devemos ser positivos. Em meados do século XX, pouco depois do nascimento do computador, ninguém podia prever os enormes giros econômicos que chegariam, como resultado das telecomunicações e da revolução da Internet . Creio que estamos no mesmo ponto, com novas estruturas de intercâmbio financeiro e tecnologias ambientalmente amigáveis que devem ser desenvolvidas se é que queremos lutar seriamente contra a mudança climática.
O Dia Depois de Amanhã pode passar de leve pela ciência. Esperamos que aqueles que duvidam do aquecimento global não usem isto para denegrir as ameaças reais e genuínas que enfrentamos. Embora o filme possa cair na ficção científica, o tema central não pode”.
* O autor é diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - Pnuma) e ex-ministro do Meio Ambiente da Alemanha.
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