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Água seqüestrada pela máfia

Por Francesca Colombo*

Ativistas da ilha italiana da Sicília denunciam que o crime organizado se apoderou do manejo hídrico. Estima-se que em duas décadas serão embolsados mais de US$ 1,4 bilhão.

MILÃO.- Na Sicília as pessoas padecem de sede, mas não por falta de água. Esta ilha italiana recebe sete mil metros cúbicos de chuva por ano, quase o triplo do necessário para a demanda anual de dois mil metros cúbicos. Porém, o líquido escorre entre a má administração, a corrupção e a máfia. A Itália, com 236 rios e 53 lagos, é a maior consumidora de água da Europa e a terceira do mundo, depois dos Estados Unidos e do Canadá. Entretanto, um terço dos italianos não tem acesso a água potável, sobretudo nas regiões meridionais. Na Calábria e na Sicília, essa carência afeta 53,3% da população, em Basilicata 64% e em Puglia 64,4%.

Nos últimos 20 anos, mais de US$ 1,4 bilhão acabaram em mãos de mafiosos relacionados com o negócio da água na Sicília. Muito desse dinheiro se destinou ao pagamento de propinas, a represas jamais inauguradas ou foi gasto nos contínuos reparos do sistema de distribuição. Já em 1874, os chamados “guardiões” e “fontaneros”, associados à máfia, cobravam pela água. Em 1968, grande parte dos 13 poços de água registrados na ilha era administrada por famílias mafiosas, como os Buffa, Motisi, Marceno e Teresi.

Surgida no século XIX no sul do país, a máfia é liderada por cerca de 1,5 mil chefes, ou “ padrinhos”, e controla o contrabando, a prostituição, a imigração clandestina e os tráficos de drogas, animais, lixo tóxico e armas. “Na Sicília, a máfia tradicionalmente teve um papel importante nas concessões das obras hídricas e na construção de novas represas. Não lhe interessa que os danos sejam reparados, porque perderiam seu negócio”, disse ao Terramérica o diretor da organização ambientalista Legambiente, Roberto della Sora.

Palermo, capital da Sicília, dispõe de mananciais, poços e rios para fornecimento de água, mas 40% dela é desperdiçada, em razão de vazamentos na velha rede de distribuição. Um tanque de seis mil litros custava, no ano passado, entre US$ 72 e US$ 84. A situação ficou tão dramática que o lema do partido Refundação Comunista para as últimas eleições regionais foi “Água em cada casa e no campo, 24 horas de 24, 365 dias por ano, contra a máfia, os desperdícios e as privatizações”. Hoje, segundo as autoridades, os 800 mil habitantes de Palermo passam menos sede, com um consumo per capita de 210 litros anuais e um desperdício de água de 27%. “Não se exclui a participação da máfia, porque é um fenômeno presente que não se pode cancelar de todo. A eles interessa a água, mas não há evidências. O Estado administra a água, embora existam 1,2 mil poços em mãos de particulares”, disse ao Terramérica o presidente da Empresa Municipal de Água, Dario Allegra.

Em Agrigento, outra cidade da ilha, com 55 mil habitantes, a população recolhe água da chuva em recipientes colocados no teto das residências, em tinas de banho ou baldes. Em 1986, a água chegava por três horas a cada 18 dias, e em 2002 durante três horas a cada 15 dias. Agrigento tem 14 depósitos de água que não estão interligados e alimentam diferentes partes da rede de distribuição.

A Sicília possui 30 represas, mas nem todas funcionam. Algumas estão em construção há 20 anos e outras perderam até 50% da água que passa por elas. A represa Ancipa, em reparos desde 1987, poderia receber 34 milhões de metros cúbicos de água, porém, contém apenas quatro milhões. A represa Rosamarina, construída nos anos 90, está em território controlado pela máfia. Tem capacidade para 80 milhões de metros cúbicos, mas é usada apenas para regar plantações. Estava previsto que sua água chegaria a Palermo, entretanto, nunca foram instalados os 200 metros de tubulação que faltam para isso. Há dez anos que a escassez de fundos e uma disputa administrativa entre municipalidades mantêm a obra paralisada.

“A máfia está em todos os negócios, desde o concreto até a distribuição de água, passando pela coleta de lixo”, assegurou ao Terramérica o engenheiro Giuliano Canatta, professor da Universidade de Siena e presidente do Instituto de Meio Ambiente Territorial e Recursos. Na ilha existem 450 institutos estatais e privados, sociedades mistas e particulares, e também consórcios que se ocupam da água. Porém, nenhum consegue aplacar a sede. As atuais autoridades nomearam um comissário geral para ordenar o sistema e querem privatizar o serviço, apesar de os críticos alegarem que a água é um bem comum, não uma mercadoria.

“A máfia conseguiu entrar nas câmaras municipais e até no parlamento regional. Existe uma rede de cumplicidade e os processos de privatização podem cair em suas mãos”, disse ao Terramérica o secretário provincial da Refundação Comunista de Agrigento, Alfonso Frenda.

* A autora é colaboradora do Terramérica.


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