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Deserto ronda ex-reserva em Salta |
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Por Marcela Valente*
Pás mecânicas ameaçam General Pizarro, uma área protegida vendida a particulares no norte da Argentina. O hábitat de valiosas espécies está em risco.
SALTA, Argentina.- Tensionadas, as pás mecânicas ameaçam a floresta nativa na província de Salta, norte da Argentina, hábitat de muitas espécies e lar de camponeses e indígenas. As máquinas levantam o solo como um tapete, e tudo é queimado para converter a selva em terra de cultivo. “Não temos mais animais”, disse ao Terramérica Donato, da etnia indígena wichi eben ezer, membro de uma das 25 famílias que habitam a ex-reserva natural de General Pizarro. A área de 25 mil hectares, no departamento de Anta, perdeu o caráter de reserva este ano, quando o governo decidiu incorporá-la a atividades agrícolas e a colocou em leilão pela melhor oferta pública.
A reserva foi criada em 1995 para proteger espécies de árvores como o quebracho branco (Aspidosperma quebracho-blanco), o quebracho colorido (Schinopsis quebracho-colorado), a erva-santa (Aloysia gratissima) e a aroeira (Astronium urundeuva). Entre as espécies animais vulneráveis da região estão o papagaio verdadeiro (Amazona aestiva), duas variedades de tatus, o tatu canastra (Priodontes maximus) e o tatu bola (Tolypeutes mataco), o jaguar ou onça-pintada (Panthera onca), o macaco prego (Cebus apella), o tamanduá-mirim (Tamanduá tetradactyla) e a capivara (Hydrochaeris hydrochaeris), o maior roedor da América do Sul. Agora, essas espécies voltam a estar em perigo por causa dos tratores e das pás mecânicas, que arrasam o monte vizinho à reserva e se aproximam de seu núcleo.
Noemi Cruz, da Administração de Parques Nacionais de Salta, disse ao Terramérica que as máquinas já entraram na reserva. O desmatamento no que já foi área protegida está momentaneamente suspenso graças a recursos de amparo interpostos contra a venda das terras. As operações não podem começar enquanto os tribunais não derem uma sentença. “As empresas (que compraram as terras) se eximem alegando que foi um erro dos trabalhadores”, disse Cruz, preocupada porque a Administração de Parques não dá apoio às ações da organização ecologista Greenpeace Argentina. Nas últimas semanas, ativistas dessa ong, em motocicletas e usando fantasias de jaguar, impediram o trabalho das máquinas.
“Quando nos viam, os que dirigiam as máquinas baixavam as pás e nos pediam informação”, disse ao Terramérica Emiliano Ezcurra, da campanha da biodiversidade da organização. Esses condutores sabem melhor do que ninguém o prejuízo que causam. A pá levanta o solo e amontoa tudo o que arranca em um canto. Então, o trabalhador coloca fogo no mato e pedaços de árvores e observa como os animais fogem, às vezes em chamas. Alguns, desorientados durante a fuga, chocam-se contra os tratores.
Dentro da reserva fica a aldeia de Pizarro, de três mil habitantes. Além da minoria wichi, caçadora e coletora, o restante da comunidade está formada por camponeses que vivem em harmonia com a floresta. Para subsistirem criam gado, recolhem mel e cultivam a terra. Os habitantes dos terrenos os ocuparam por tanto tempo que já não lembram desde quando. Casimira Gómez tem 76 anos. Usa um galho como se fosse muleta para se defender das iguanas e compensar a força que perdeu em uma fratura de bacia nunca operada. Seus pais viveram ali, no mesmo campo onde ela subsiste com uma casinha e seu gado. “Não quero partir. Se me levarem para um povoado, o que vou criar lá?”, pergunta. “A gente não é tão boa nos povoados”, disse. Moradores como Casimira são “intrusos”, segundo a Justiça Federal, que deverá examinar os recursos de amparo apresentados por organizações ambientalistas, advogados das comunidades e acadêmicos.
O governo de Salta argumenta que a reserva “está degradada” e que utilizará os recursos da venda para melhorar estradas. Os legisladores provinciais aprovaram a medida e em junho começou o leilão. As terras foram divididas em lotes de dois mil hectares, e foram reservados outros dois mil para os “intrusos”. As autoridades “jamais puseram um guarda florestal, que vêm apenas uma vez por ano e andam pelos caminhos sem entrar no monte. Se tentasse fazer isso, veriam que não pode haver degradação em zonas onde o acesso não é possível”, disse ao Terramérica Carlos Ordóñez, morador de Pizarro.
Sandra Caziani, bióloga e professora de Agroecologia da Universidade Nacional de Salta, considera “inadmissível” a opção do governo. “Em toda área protegida há um nível de degradação”, e a responsabilidade por essa negligência é das próprias autoridades, disse ao Terramérica. O maior custo da venda de terras se verá quando passar o auge da soja, o cultivo mais lucrativo na Argentina, que impulsiona o avanço da fronteira agrícola, afirmou a especialista. Nos meses secos, a temperatura passa dos 50 graus em Salta. “Imagine o que acontecerá sem o monte. Isso vai ser um deserto”, afirmou a bióloga, integrante do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas.
“Não há réplicas” desse hábitat, conhecido como Chaco serrano, com suave declive que permite o cultivo. “É uma área de referência para zonas de monte dedicadas à agricultura.”, ressaltou Caziani. A bióloga e uma dúzia de acadêmicos enviaram, sem êxito, às autoridades uma carta explicando porque a reserva não deveria ser vendida. “O maior valor da área é que representa um ecossistema que desaparecerá completamente, substituído por plantações”, argumentam. Nessas circunstâncias, Caziani desejaria que fosse real uma divindade local, a “mãe do monte”, que segundo a tradição atrai os que o ameaçam e os “perde” no coração da floresta.
* A autora é correspondente da IPS.
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